A penúltima aventura
A filha pede a ajuda dos anjos e santos em intermináveis novenas, o filho mais velho a ameaça de interdição, o do meio diz que vai espalhar para o mundo que a mãe ficou louca. Ela faz de conta que escuta mas, quando fica sozinha em casa, pega o telefone e marca um novo encontro para o dia seguinte.
Levanta cedo, que com a idade o sono demasiado mais lembra a chegada da morte, faz suas orações, beija escapulários e santinhos . Desce as escadas que levam ao térreo e toma o café da manhã na cozinha de azulejo azul . Lava a pouca louça que sujou, dá uma espiada no jornal do dia, detendo-se um pouco mais nas noticias de crimes e de artistas, coloca água nas plantas e sobe com dificuldade os degraus que a levam ao quarto. Derrama lágrimas de saudade quando estende a colcha sobre a cama de casal. O marido, que posa compenetrado no porta-retratos da cabeceira, morreu depois de mais de sessenta anos de vida em comum. Não há uma manhã, nesses dois anos de ausência, em que ela não chore o companheiro.
Há tempo para tudo, as horas passam devagar, e ela, junto à penteadeira, coloca nos cabelos brancos e ralos alguns rolinhos que é para dar forma ao penteado. É vaidosa. Do guarda-roupa, que conserva sempre arrumado, retira um dos vestidos mais novos, o estampado em tons de azul. Estende sobre a cama e coloca ao lado a caixa com os sapatos brancos e a bolsa nova que ganhou da filha no último Natal. Então, desce as escadas mais uma vez se apoiando no corrimão e prepara o almoço, refeição que faz solitária na sala de jantar de móveis escuros e pesados que a acompanham desde o casamento.
Às duas da tarde, ela já está vestida. Junto ao espelho do banheiro, solta os cabelos, ajeita com as mãos e borrifa sobre eles uma nuvem de spray. Passa no rosto uma camada de pó, um nadinha de sombra azul nos olhos, um pouco de blush para afastar a palidez e capricha no batom escuro. De volta ao quarto, escolhe um dos perfumes que enfeitam a cômoda e passa uma gotinha atrás de cada orelha. É bela a imagem que ela vê no espelho. Beija a foto do marido, desce as escadas mais uma vez e, ao telefone, transmite a mensagem: - estou saindo.
Quem a espera na esquina é Alice, a amiga de tantos anos e de tantas histórias em comum. Abraçam-se carinhosamente, trocam elogios - esse vestido eu não conheço, é o novo? - e dirigem-se para o ponto do ônibus.
- Perdizes não, nós já estivemos lá mais de dez vezes.
- Santo Amaro de novo? Já conhecemos bem...
- Olha, se chegar o M Boi Mirim ou o Parelheiros a gente embarca. Para esses lugares a gente nunca foi.
Sobem no ônibus com cuidado, dão um boa tarde amável para o motorista , sentam-se num dos primeiros bancos e iniciam o passeio.
- A saída de ontem deu problema ? - pergunta Alice.
- Os meninos sempre ficam preocupados, você sabe, dizem que aos 86 anos eu tenho que me cuidar. Agora, me deram um ultimato: - “se quiser passear que vá ao shopping, ou vamos trancar o portão para a senhora não sair mais”.
- E você, o que respondeu?
- Eu? Nada, só dei risada...
Eliana Pace
29 comentários:
é verdade a tempo para tudo!
Abraços!
haha..gosteiii da históriia
Vc que escreve mesmoo?
Pq vc está de parabéns...muuiiito legal mesmo!
Bjãoo
Que delicia de texto.
Os filhos tem medo da morte da mãe.
Mas adorei o humor da velhinha. Independente e livre
Achei bastante enigmática a sua escrita, e essa coisa de trancar a senhorinha pra ela não sair mais, fiquei com dó...rs... mas tudo bem... ótimo post, valeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu!!!
parece graciliano!
Estou encantada!
Lindo o Blog, a imagem principal, a forma de vcs escreverem...
qualidade que não é comum na internet!
Vou olhar o resto do blog, ver o que mais vcs criaram!
Obrigado pela iniciativa!
ah, sim... Maravilhosa esssa crônica!
beijos de uma nova adimiradora!
Gostei do texto, o fator tempo é interessante, a narerativa bem dosada e a cada passagem é mantido uma espécie de enigma, enfim...
http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/
legal a história, assim mesmo que tem que ser!
Eliana, o relato foi perfeito até mesmo nos detalhes da sombra azul,batom vermelho...e MBoi Mirim..rsrsr Guardo as mesmas lembranças suas e fico muito orgulhosa pelo carinho e doçura com que vc escreve sobre a nossa tia. Beijos, Flavia
Incrivel como vc consegue fazer uma historia com tantos detalhes !
Parabéns !
Nossaa caraca ficou bem legal, todos os detalhes que vc descreve o ambiente ... nossa da pra senti,imagina a história todaa! Parabéns!
vc tem uma maneira unica de escreve nunca vir uma pessoa escrever como tu esta de parabens fosse vc tentaria uma editora
se paulo coelho tem livro vc tem que ter o dobro dele
http://pensamentoscomteorias.blogspot.com/
As suas histórias são muito boas e muito reais.
Boa sorte para o seu blog!
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Acesse: http://www.papodeinformatica.blogspot.com
gostei.
bem elaborado o texto
da uma visitinha no meu qualquer hora
http://igor-ladeira.blogspot.com/
abraço
belo texto...storia das pessoas parece verdadeira....
aaameeei , boa sorte ai
Que lindinha a historia!! Eu quero ficar assim quando velhinha!!
Muito meigo!!
Mil beijinhos
Branca
O bom de ser velinho é que se pode andar de ônibus de graça ;]
Ficou muito bom o texto, você realmente sabe usar as palavras e tem muita criatividade. Seus personagens são muito bons ^^
parabéns
ameei !
ela que está certa , tem que conhecer lugares e talz,
bjs mt bom seus textos
bem legal mesmo e real
tratam os idosos como se eles não existissem
O duro de envelhecer é isso, muitos filhos acham que só porque os pais tem idade avançada já não podem mais fazer várias coisas.
É preciso aprender que o corpo envelhece mas a cabeça não para quem se cuida.
Se fossem adolescentes até iriam achar legal o fato de querer pegar um ônibus e andar a toa pela cidade. Como são idosas, ninguem as entende.
texto fácil de ler...sem enrolação...muito bom...continue escrevendo...
vC TEM uma escrita bem sutil e agradavel de se ler.
Parabéns.
Muito bom!!! E santo amaro é ótimo hehehehe
Abraços
www.borarir.com
Se você souber aproveitar o tempo, pode fazer tudo o que quiser!
Nossa seu blog é muito bom!
Fiquei impressionado com os textos e com a clareza didatica que vc tem!
Muito bom mesmo!
Abraços
A idade chega para todos e nem por isso temos q ficar reclusos, presos e evitar a vida
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