29 novembro 2009

A penúltima aventura

A filha pede a ajuda dos anjos e santos em intermináveis novenas, o filho mais velho a ameaça de interdição, o do meio diz que vai espalhar para o mundo que a mãe ficou louca. Ela faz de conta que escuta mas, quando fica sozinha em casa, pega o telefone e marca um novo encontro para o dia seguinte.

Levanta cedo, que com a idade o sono demasiado mais lembra a chegada da morte, faz suas orações, beija escapulários e santinhos . Desce as escadas que levam ao térreo e toma o café da manhã na cozinha de azulejo azul . Lava a pouca louça que sujou, dá uma espiada no jornal do dia, detendo-se um pouco mais nas noticias de crimes e de artistas, coloca água nas plantas e sobe com dificuldade os degraus que a levam ao quarto. Derrama lágrimas de saudade quando estende a colcha sobre a cama de casal. O marido, que posa compenetrado no porta-retratos da cabeceira, morreu depois de mais de sessenta anos de vida em comum. Não há uma manhã, nesses dois anos de ausência, em que ela não chore o companheiro.

Há tempo para tudo, as horas passam devagar, e ela, junto à penteadeira, coloca nos cabelos brancos e ralos alguns rolinhos que é para dar forma ao penteado. É vaidosa. Do guarda-roupa, que conserva sempre arrumado, retira um dos vestidos mais novos, o estampado em tons de azul. Estende sobre a cama e coloca ao lado a caixa com os sapatos brancos e a bolsa nova que ganhou da filha no último Natal. Então, desce as escadas mais uma vez se apoiando no corrimão e prepara o almoço, refeição que faz solitária na sala de jantar de móveis escuros e pesados que a acompanham desde o casamento.

Às duas da tarde, ela já está vestida. Junto ao espelho do banheiro, solta os cabelos, ajeita com as mãos e borrifa sobre eles uma nuvem de spray. Passa no rosto uma camada de pó, um nadinha de sombra azul nos olhos, um pouco de blush para afastar a palidez e capricha no batom escuro. De volta ao quarto, escolhe um dos perfumes que enfeitam a cômoda e passa uma gotinha atrás de cada orelha. É bela a imagem que ela vê no espelho. Beija a foto do marido, desce as escadas mais uma vez e, ao telefone, transmite a mensagem: - estou saindo.


Quem a espera na esquina é Alice, a amiga de tantos anos e de tantas histórias em comum. Abraçam-se carinhosamente, trocam elogios - esse vestido eu não conheço, é o novo? - e dirigem-se para o ponto do ônibus.

- Perdizes não, nós já estivemos lá mais de dez vezes.

- Santo Amaro de novo? Já conhecemos bem...

- Olha, se chegar o M Boi Mirim ou o Parelheiros a gente embarca. Para esses lugares a gente nunca foi.

Sobem no ônibus com cuidado, dão um boa tarde amável para o motorista , sentam-se num dos primeiros bancos e iniciam o passeio.

- A saída de ontem deu problema ? - pergunta Alice.

- Os meninos sempre ficam preocupados, você sabe, dizem que aos 86 anos eu tenho que me cuidar. Agora, me deram um ultimato: - “se quiser passear que vá ao shopping, ou vamos trancar o portão para a senhora não sair mais”.

- E você, o que respondeu?

- Eu? Nada, só dei risada...


Eliana Pace

29 comentários:

By Coisas Esotéricas disse...

é verdade a tempo para tudo!

Abraços!

Anônimo disse...

haha..gosteiii da históriia
Vc que escreve mesmoo?
Pq vc está de parabéns...muuiiito legal mesmo!

Bjãoo

Guilherme Bayara disse...

Que delicia de texto.

Os filhos tem medo da morte da mãe.

Mas adorei o humor da velhinha. Independente e livre

Anônimo disse...

Achei bastante enigmática a sua escrita, e essa coisa de trancar a senhorinha pra ela não sair mais, fiquei com dó...rs... mas tudo bem... ótimo post, valeeeeeeeeeeeeeeeeeeeu!!!

Macaco Pipi disse...

parece graciliano!

Jhu disse...

Estou encantada!
Lindo o Blog, a imagem principal, a forma de vcs escreverem...
qualidade que não é comum na internet!

Vou olhar o resto do blog, ver o que mais vcs criaram!

Obrigado pela iniciativa!

ah, sim... Maravilhosa esssa crônica!

beijos de uma nova adimiradora!

Rafa disse...

Gostei do texto, o fator tempo é interessante, a narerativa bem dosada e a cada passagem é mantido uma espécie de enigma, enfim...

http://cemiteriodaspalavrasperdidas.blogspot.com/

NO kidding disse...

legal a história, assim mesmo que tem que ser!

Unknown disse...

Eliana, o relato foi perfeito até mesmo nos detalhes da sombra azul,batom vermelho...e MBoi Mirim..rsrsr Guardo as mesmas lembranças suas e fico muito orgulhosa pelo carinho e doçura com que vc escreve sobre a nossa tia. Beijos, Flavia

F-29 disse...

Incrivel como vc consegue fazer uma historia com tantos detalhes !

Parabéns !

André disse...

Nossaa caraca ficou bem legal, todos os detalhes que vc descreve o ambiente ... nossa da pra senti,imagina a história todaa! Parabéns!

Anônimo disse...

vc tem uma maneira unica de escreve nunca vir uma pessoa escrever como tu esta de parabens fosse vc tentaria uma editora
se paulo coelho tem livro vc tem que ter o dobro dele

http://pensamentoscomteorias.blogspot.com/

Millena disse...

As suas histórias são muito boas e muito reais.

Victor Faria disse...

Boa sorte para o seu blog!
Dê uma passada lá no meu e vote lá enquete. Sua opinião e de todos os seus leitores é muito importante!
Acesse: http://www.papodeinformatica.blogspot.com

Ladeira disse...

gostei.
bem elaborado o texto
da uma visitinha no meu qualquer hora
http://igor-ladeira.blogspot.com/
abraço

Unknown disse...

belo texto...storia das pessoas parece verdadeira....

Danivargas disse...

aaameeei , boa sorte ai

Anônimo disse...

Que lindinha a historia!! Eu quero ficar assim quando velhinha!!

Muito meigo!!

Mil beijinhos

Branca

Esther Saldanha disse...

O bom de ser velinho é que se pode andar de ônibus de graça ;]
Ficou muito bom o texto, você realmente sabe usar as palavras e tem muita criatividade. Seus personagens são muito bons ^^

parabéns

Caroline Rocha disse...

ameei !
ela que está certa , tem que conhecer lugares e talz,
bjs mt bom seus textos

kbritovb disse...

bem legal mesmo e real
tratam os idosos como se eles não existissem

Inez disse...

O duro de envelhecer é isso, muitos filhos acham que só porque os pais tem idade avançada já não podem mais fazer várias coisas.
É preciso aprender que o corpo envelhece mas a cabeça não para quem se cuida.

Anônimo disse...

Se fossem adolescentes até iriam achar legal o fato de querer pegar um ônibus e andar a toa pela cidade. Como são idosas, ninguem as entende.

Unknown disse...

texto fácil de ler...sem enrolação...muito bom...continue escrevendo...

Arlan Souza disse...

vC TEM uma escrita bem sutil e agradavel de se ler.
Parabéns.

Unknown disse...

Muito bom!!! E santo amaro é ótimo hehehehe


Abraços
www.borarir.com

L.A.G. disse...

Se você souber aproveitar o tempo, pode fazer tudo o que quiser!

Unknown disse...

Nossa seu blog é muito bom!
Fiquei impressionado com os textos e com a clareza didatica que vc tem!
Muito bom mesmo!
Abraços

Erich Pontoldio disse...

A idade chega para todos e nem por isso temos q ficar reclusos, presos e evitar a vida

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