23 fevereiro 2010

POMPAS E POMBAS

Olhando bem, não faltava ninguém. O dono da rotisseria havia se postado na primeira fila para garantir uma melhor visão do espetáculo, sem se importar se àquela hora sua presença à frente dos negócios era importante ou não. Estava tão atento ao desenrolar dos acontecimentos que nem respondia aos cumprimentos da freguesia. Os atendentes da lanchonete se apoderaram do lugar mais privilegiado da calçada, bem junto à tipuana florida. Aventais que deveriam ser brancos amarrados na cintura, blocos de notas nas mãos, na certa levariam uma reprimenda quando voltassem aos afazeres. Os alunos do cursinho , que deixavam as salas de aula em constante algazarra, agora em silêncio amontoavam-se no páteo, qual prisioneiros bem junto às grades. A recepcionista do prédio de escritórios havia deixado suas funções de lado para não perder o que quer que estivesse sendo anunciado na rua, no que foi seguida pela telefonista, pelo auxiliar geral, pelo moto boy, pelo síndico e até pelo carteiro. E a dona da boutique do outro quarteirão subia apressada a pequena ladeira, como a não querer perder o início do espetáculo.

Os bombeiros tinham chegado sem muito alarde, não haviam sequer acionado a sirene, para desapontamento das crianças, e agora manobravam o carro vermelho e prata de tal forma que os carros que desciam a rua àquela hora reduziam a velocidade e percorriam aqueles poucos metros em fila indiana, um olho na pista e outro nas pessoas que se amontoavam na calçada .

- Está saindo fumaça do prédio, olha bem, lá no alto. Não consegue ver? Estica um pouco mais o pescoço, é à direita, viu agora?
- Ouve, ouve, é uma mulher gritando, está querendo se atirar do último andar. Parece que já matou o marido, está mantendo os filhos de reféns, que loucura, que Deus proteja esses pobres inocentes...
- Não, o problema não é no edifício, é na casa ao lado. É que entrou ladrão à noite, eu bem que percebi um movimento estranho, tinha perdido o sono e estava na janela do meu prédio, fumando..
- É verdade, as faxineiras - está vendo elas ali?- chegaram de manhã e encontraram uma das janelas aberta. Disseram que os ladrões fizeram um baita estrago, levaram até computador.
- Essa região é tão perigosa... Não lembra daquele assalto ali na esquina no último Natal?
- E aquele político corrupto que foi assassinado no hotel... Minha amiga estava fazendo as unhas quando os criminosos entraram pelo salão de beleza, apontaram as armas para todos e foram subindo as escadarias. Se ela saiu com as unhas feitas? Ah, moço, e é hora de fazer piada? Tenha dó...


Era uma tarde morna de abril, véspera de feriado prolongado, e quem estava ali não parecia ter muita pressa de ir embora. Os transeuntes iam parando e engrossavam a platéia que já era formada por crianças, estudantes, jovens com seus animais de estimação, donas de casa a caminho do supermercados, idosos em direção à farmácia. Os bombeiros montando com destreza a escada Magirus e as pessoas, do outro lado da rua, acompanhando atentamente cada um de seus movimentos.

Quando um dos bombeiros posicionou a escada em direção ao telhado da casa, eu juro que consegui ouvir um “ó” abafado, de admiração.

- Eu não disse que tinha entrado ladrão ? Ô, meu chapa, passa prá cá o fruto da sua teimosia, acertei a nossa aposta - gritou o dono da rotisseria para o rapaz da banca dos jornais, um dos últimos a chegar ao pedaço.
- Quando pegarem os ladrões, passa lá na loja, nossa promoção agora é prá valer, tem um vestido que é a sua cara - dizia a dona da boutique para a telefonista .

O bombeiro subiu os degraus, chegou bem perto de uma das janelas da casa, olhou de perto, olhou de longe e engatou uma marcha a ré. O “ó” cedeu lugar então a um “ué” desapontado que se prolongou até que ele encerrou sua marcha e passou a ajudar os companheiros a desmontar a escada. Os estudantes, então, não se contiveram e iniciaram a vaia que logo ganhou a adesão de toda a platéia presente ao evento.

Quando a Magirus, enfim, foi recolhida, o grupo iniciou a dispersão. A dona da boutique cercando a telefonista, que parecia não dar a mínima para o tilintar incessante dos telefones do prédio; o dono da rotisseria voltando aos negócios com cara de poucos amigos, a contabilizar, talvez, as esfihas não vendidas; o carteiro colocando sua mochila nas costas, a continuar plantando boas e más notícias em seu trajeto; o poodle do apartamento 115 a rosnar para o vira - latas do 212...

Quando um dos bombeiros passou por mim rumo ao carro, arrisquei a pergunta:

- Mas afinal, o que aconteceu?

E ele, ainda constrangido com as vaias recebidas por seu grupo e quase que se desculpando pelo cancelamento do espetáculo, me respondeu meio sem jeito:

- Era só uma pomba que parecia estar presa entre a veneziana e a grade da janela. Quando um de nossos colegas se aproximou com a Magirus para salvá-la, ela saiu voando...


Texto de Eliana Pace

22 comentários:

Patricia Cruz disse...

Muito, muito bom, adorei.
Parabéns pelo blog.

Anônimo disse...

Parabens ^^

Abraço

Anônimo disse...

Nossa...pensava que iria acontecer uma tragediaaa rsrsrs

As pessoas Falam demais !!!

Curti seu Blog e o Texto....


igtruelovephotos.blogspot.com/

Vc curte rock? disse...

Viva a natureza... E por que não salvar uma pomba.

Mas no final, ela não precisou ser salva. Estava só se fingindo de morta pra nos pregar uma peça.

Anônimo disse...

Gostei do estilo de escrita e o título do blog sugestivo-intelectual, indicarei aos amigos blogueiros o seu blog!

Rafa disse...

e... era só uma pomba!

Muito bom o texto!

Paulinho CEC disse...

muito bom...hehe curti mesmo, adoro esse tipo de texto e viajo imaginando como seriam as cenas realmente.

Pobre esponja disse...

Muito bom, bem escrito e com um final surpreendente.
De se ler saboreando, cada trecho, pela qualidade demonstrada pela autora.
O título também é maravilhoso.
E, acabei de ver em um blog , um ladrão que ficou preso em uma chaminé: coincidência cósmica?

abç
Pobre Esponja

Vestibulando disse...

Parabéns pela escrita, ou seja, pelo texto. Você realmente desenvolveu bem o " mistério" do mesmo. Soube instigar os seus leitores para a leitura até o final do texto.

Parabéns


Visite o nosso blog


www.blog.maisestudo.com.br

Abs

Mais Estudo;

Lina Savle disse...

nao é cansativo, tem ritmo, não se arrasta e com final inimaginável.

Adorei o texto!

gritosquenaodei.blogspot.com

Macaco Pipi disse...

as pombas são assim
pessoas muito assustadas e retraÍdas

WWW.NOVAQUAHOG.BLOGSPOT.COM

Raphael Ferreira Serra disse...

Curti o texto e o blog vo vissitar sempre que der ;)
www.resumodoresumo.com

Aumentadora de Pontos disse...

Também gostei desse texto, vou procurar mais textos dela...

Priscilla Acioly disse...

vou procurar mais textos dela, gostei muito.
parabéns...

. Yuri Barichivich disse...

Nossa, que lindo texto. Gostei de ler, foi suave. Não é uma leitura maçante.
Parabéns, se quiser, dê uma passada no meu blog que produzimos textos na mesma linha que você ^^

Verball
Siga-nos no @blogverball

Ivânia Aziz disse...

Muito bom o texto.

Parabéns!

Lina Savle disse...

hummm
acho que li teu texto ontem, se não me engano até acomentei... que dúvida...

O fato é que o final foi surprendente. Pomba... que coisa não...


gritosquenaodei.blogspot.com

rockesoda disse...

Excelente post! Parabéns, continue assim!

Fabrina disse...

Adorei o texto, muito bom mesmo. parabens sucesso

Erick disse...

li esse texto na escola no ano passado!
muito bom mesmo!
abraco boa sorte!

Anônimo disse...

Li a primeira vez e achei bom e na segunda foi ainda melhor ler ^^

Otimo ;D

Helen S. disse...

Muito bom o texto, voltarei mais vezes aqui ! Abçs

Yellow Puppies Blogger Template | Template Design | Elque 2008