15 fevereiro 2011

Mas, as musas morrem?


Madô Martins 


    Ao ler sobre o falecimento de Geórgia Gomide, no fim de semana passado, pensei logo na amiga Eliana Pace, autora da biografia da atriz para a coleção Aplauso e que, não faz muito tempo, promoveu sua vinda a Santos, para juntas divulgarem a obra. Estive na Realejo Livros, admirando o ídolo de perto, e pude lhe contar que ainda guardava com prazer sua interpretação em uma novela  de 1965. 

     Lembrar, quase sempre, é similar ao efeito causado pela pedra atirada na água, leva-nos além do fato, incluindo recordações de seu entorno, antecedentes, até mesmo circunstâncias alheias ao acontecimento, mas que ficam gravadas misteriosamente na memória e vêm em conjunto à tona do consciente, sem pedir autorização. 

     Pois bem, sei que a novela a que me referia era “A outra”, dirigida pelo cineasta e escritor Walter George Durst, na saudosa TV Tupi. Não me recordo o horário de apresentação dos capítulos, mas sei que o tema de abertura era o Largo, de Bach, interpretado pelo The Swingle Singers, coral  que ainda hoje imita os sons dos instrumentos, em difíceis composições clássicas.  Cheguei a adquirir o LP (!), de tanto que gostei da composição. 

     Geórgia tinha um tipo especial, morena de cabeços escuros e traços marcantes, por isso seus papel nada tinha a ver com as frágeis protagonistas das novelas de então. Interpretava uma mulher,  não uma mocinha, e compunha um triângulo amoroso com o jovem galã Walmor Chagas e Izabel Cristina, de quem nada sei. Não lembro da trama, muito menos do final, mas Geórgia e Bach permaneceram comigo esse tempo todo. 

     A pedra da saudade lançada nas águas da memória também me traz a recordação do aparelho de tevê ainda em preto e branco, dos longuíssimos intervalos comerciais, da sala dupla de nosso sobrado de esquina (casa de esquina, ou morte ou ruína, sentenciava meu pai, de brincadeira) em que as mulheres da família se instalavam para seguir aquela história parcelada. Uma das paredes era arredondada, acompanhando a curva da calçada, no cruzamento do Canal 5 com a Ministro João Mendes. E alguns metros adiante, ficavam os campos de futebol de várzea, onde nosso cão fazia explorações durante a semana e, aos sábados e domingos, era grande a agitação, por parte dos jogadores. Os times voltavam das partidas fazendo muito barulho, enlameados e sedentos, e vários participantes tocavam a campainha, para pedir um copo d'água. Minha mãe tratava de esconder suas meninas daqueles homens rudes e a água era servida por meu pai, zeloso defensor da prole e da propriedade. 

     O muro era baixo, assim como as janelas do térreo, o alpendre aberto, mas ninguém se atrevia a invadir a casa alheia. Na parte de cima, ficavam três quartos, um para os pais, outro para minha irmã e eu e o terceiro, para nossos estudos, com quadro negro na parede e escrivaninha cor-de-rosa. Penso que a novela começava antes do jantar e nos encontrava de banho tomado, ansiosas por novas emoções. Geórgia me parecia muito semelhante à Esmeralda, do Corcunda de Notre Dame, que vira no cinema com Gina Lollobrigida, não tanto pelo físico, mas pela força interior. Então, à noite, sonhava em crescer e ficar igual àquelas duas musas, que não imaginava serem de carne e osso, muito menos, mortais.                        

Publicado em 06/02/2001 mo jornal A Tribuna

"Que saudades de Geórgia Gomide, minha amiga Elfie, que  faleceu em 29 de janeiro deste ano. Fiquei devendo a ela um passeio no shopping".(Eliana Pace) 

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