16 fevereiro 2011

Teu Tio

Rui Otani Pereira

I

Ventava muito em certa tarde de quinta-feira. E era vento daqueles, daqueles de arrancar peruca. A chuva era uma possibilidade longínqua, não obstante o sol também não impusesse castigo às cabeças alheias. Toscano & Toscano era um restaurante italiano de bom conceito e qualquer que fosse o tempo do lado de fora, seus clientes não hesitariam em apreciar uma bela refeição.

Santos estava feia naquele dia, e não apenas pelo tempo. Talvez as buzinas do trânsito estivessem mais sonoras, ou então a carência de um deslumbre feminino na rua acometesse o dia. Paulo, tomado por tédio e preguiça, tendo há muito tempo deixado de observar o tráfego pela janela de seu escritório, tentava resolver suas cruzadinhas durante o expediente, de ouvidos atentos a quaisquer ruídos de trás da porta.

— Estado norte-americano devastado pelo Katrina em 2005 – leu em voz alta.

— Hum, nove letras... Seria New Orleans? Não, não, não, Paulo – ponderou o rapaz para si mesmo – New Orleans é uma cidade!

Paulo aproximou a caneta da página.

Mas hesitou.

E coçou a orelha.

E coçou o queixo.

— Hum, vejamos... Ah, é claro!

E sorriu.

— L-o-u-i-s-i-a-n...

BLAM.

Um forte sopro bateu à janela do escritório, desviando a atenção de Paulo.

Logo em seguida, ressoou um berro irritado da entrada da sala.

— Paulo Oliveira!

Como num ato reflexo, Paulo tomou a pequena revista e escondeu-a ligeiramente embaixo de um papel qualquer sobre a mesa.

Seu coração acelerara.

Auxiliar de escritório da administração do restaurante havia quatro anos, sempre temeu que seu patrão, proprietário do estabelecimento, o flagrasse naquele momento de ócio.

Paulo virou-se e pôde ver a cara debochada de seu colega de sala Fabiano.

— Mas tinha que ver sua cara de assustado, Paulo Oliveira! – disse Fabiano, gargalhando.

— Assim você me mata... Que susto!

— E assim você me mata: que sarro! Não sei como conseguiu cair nessa... A minha voz de barítono é muito diferente dos grunhidos dele.

Com um sorriso gozador, Fabiano respirou fundo para se recompor e prosseguiu:

— Mas não esquente a cabeça, Pablito. Teu tio saiu e não volta mais hoje.

“Teu tio” era uma alusão ao patrão dos dois rapazes. No restaurante, representava um código e desde que utilizado com bom-senso, podia evitar algumas delações.

Enrico Toscano era o nome do “tio”, mas não era muito mais velho que os dois funcionários que lhe deram tal apelido. Tinha no máximo quarenta anos e era saudável e bonito, com seus olhos azuis e grande estatura. Frequentemente podia ser visto pedalando na ciclovia da orla de Santos, atividade que exercia como lazer e esporte. Neto de italianos, administrava seu estabelecimento com rigidez, embora parecesse ser muito simpático no atendimento aos clientes.

— Vou retornar à contagem das mercadorias – disse Fabiano a Paulo. - Vim aqui apenas para dar-lhe este aviso sobre teu tio.

— Obrigado, Fabiano. Sem a presença dele, posso fazer meu trabalho menos preocupado.

Fabiano saiu do escritório. Paulo voltou às cruzadinhas.

É bom que se faça uma ressalva para não parecermos injustos. Paulo não era desse tipo de funcionário que evita trabalho, pois cumpria, sim, com suas obrigações. Apenas não se apressava em terminá-las. Sempre esteve ciente de que, em que pese a grande carga de trabalho, haveria tempo. E fazer uma cruzadinha ou outra durante seu serviço não atrapalhava em nada os negócios do patrão. De certo modo, era como se ele buscasse nesse hobby um ganho de disposição para as atividades que se seguiriam, como ocorre com muitas das pessoas que saem para fumar na entrada do local onde trabalham ou que tomam café durante o expediente.



II

No dia seguinte, nada de diferente afetou a rotina do rapaz: cruzadinhas, planilhas, cálculos, as graças de Fabiano e os apertos exacerbados do chefe.

Em sua mesa, enquanto analisava alguns valores de hortaliças, Paulo pensava na ligação que uma semana antes recebera de um primo da capital. Tratava-se de uma oportunidade de largar o atual emprego, maçante e sem futuro. Caso aceitasse, não apenas deixaria de ver a cara do chefe, como não mais viveria numa cidade-dormitório – era assim que a considerava – chamada Guarujá. Terrinha de coronéis praieiros, bang bang no litoral paulista, Guarujá causava aversão a Paulo. Só ainda não havia se mudado de lá por falta de dinheiro. No novo emprego, ganharia menos, mas iria morar com seu primo tendo, portanto, poucos custos com moradia. Além disso, suas chances de crescer profissionalmente seriam muito maiores, uma vez que, atuando junto ao primo, a princípio como um auxiliar, poderia sem muita demora ascender ao posto de um dos gestores do empreendimento – uma loja de discos – tão logo demonstrasse sua competência. O único problema para Paulo, e determinante, era que não se achava competente para assumir tal desafio, e isso o fez decidir pela não aceitação da proposta. De qualquer modo, devido o apreço do primo a Paulo, o convite permaneceria em aberto, bastando um telefonema para definir um novo trajeto para a vida de nosso rapaz.

Toda essa reflexão resultou numa leve dor de cabeça, ainda mais porque teve que retomar os cálculos referentes às hortaliças por cerca de cinco vezes, já que havia se distraído.

Em sua mesa, dentro da terceira gaveta, guardava alguns remédios. Um analgésico quase vencido foi levado à boca e engolido a seco. Por esse motivo, achou pertinente levantar e dar algumas voltas pelo escritório, na parva expectativa de que alguns passos ajudariam o comprimido a descer.

Aproximou-se da janela. Lá de cima pôde ver a estupidez do trânsito vagaroso. À porta do restaurante, um táxi parava para receber em seu seio capenga o calor de uma bela cliente. Pobre do motorista, que ouvia reclamações das mais exageradas pela sua demora. A moça falava alto, esganiçada, nariz empinado e gestos hostis dispensáveis, causando profundo asco a Paulo. Se fosse garçom, odiaria atender uma freguesa como aquela. A cem metros dali, o carro avançava sob o olhar atento de Paulo, e ele ainda tinha a impressão de ouvir as queixas agudas da mulher.

— É uma vadia – afirmou com muito gosto e leve sorriso de maldade.

Quando o táxi não mais podia ser visto, surgiu na calçada a imagem de Enrico. Dando um giro completo, parecia estar à procura de alguém. Virado para a rua, abriu os braços, como num ato de lamentação. Sem querer ser notado, Paulo saiu da janela, mas não sem ter sido afetado pela curiosidade. - Será que ela comeu e não pagou?, questionava-se.

Alguns minutos mais adiante, Fabiano contar-lhe-ia novidades coletadas das frutíferas fofocas entre garçonetes: Enrico havia ido atrás da esposa.

—Fabiano, diz para mim, como era essa moça?

Fabiano forneceu a Paulo algumas características, já que ele mesmo não teve a oportunidade de vê-la: era dona de longos cachos e pele bem alva, apoiava sobre o nariz imensos óculos de sol e trajava um terninho preto de suave decote.

Tais dados batiam perfeitamente com os traços da mulher que Paulo vira tomando o táxi momentos antes, e isso o deixou muito surpreso a princípio.



— É, rapaz... Ela se chama Elizabete – prosseguiu Fabiano – e vive brigando com teu tio. É dona de uma loja de roupas femininas no Gonzaga, bem sucedida, segundo dizem. É estranho pensar num casal em que cada cônjuge possua empreendimentos distintos, mas no caso deles é bem assim: um não se intromete nos negócios do outro.

Sob os olhares atentos de Paulo – aliados a uma careta depreciativa –, Fabiano concluiu, ironizando a relação:

— Só falta dormirem em quartos diferentes, isso se morarem juntos, hahaha. Era comum Fabiano rir do que só ele achava graça.

Paulo, com a cabeça, fazia um gesto de reprovação às novidades que acabara de ouvir.

— Essa gente se merece... Eu a vi de lá de cima. Prepotência em pessoa. Combina perfeitamente com teu tio.



III

Paulo não era um homem feio, tinha lá seu charme. De estatura mediana, não mantinha uma boa forma, mas estava longe de ser gordo. Ficava jeitoso dentro dos trajes sociais que o trabalho exigia: camisa, calça, sapato, tudo lhe caía bem. O rosto carregava quase sempre uma expressão séria e reverente; mesmo suas risadas eram revestidas de comedimento. O cabelo era curto, escuro, bem ajeitado. Seu sorriso era bonito, expressivo, embora saísse com um pingo de timidez.

Talvez tenha sido esse conjunto o que chamou a atenção de Elizabete. Pois não é que ela fitou o rapaz por longos segundos, na semana posterior à cena do táxi?

Cruzaram-se ao caminharem pelo refeitório vazio. Ela havia acabado de descer da sala de Enrico; Paulo havia acabado de chegar ao trabalho e conduzia-se às escadas.

Ele também a observou, e ambos se entreolharam por cerca de dez passos até ficarem lado a lado por menos de meio segundo.

Pararam de se olhar nesse momento. Antes, Paulo pensara se devia cumprimentá-la ou não. Contrariando sua boa educação, simplesmente passou reto, pois, além de não ter o costume de saudar aqueles para quem nunca fora apresentado, ainda não havia digerido aquela mulher e seus trejeitos presunçosos.

Elizabete estava usando um agradável perfume masculino. Seus olhos acinzentados estavam em evidência dessa vez, sem os óculos de sol. Vestia novamente um terninho, agora azul-inverno, abotoado, e parecia não haver mais nada por baixo: algo muito provocativo. Seus cachos negros bem formados brilhavam vivamente. De perfil, era notável o volume dos seus seios, proporcional ao corpo esguio. Seu andar, compassado e firme, denotava uma forte personalidade e, se fosse descarado, Paulo poderia ter desfrutado de um sutil rebolado de ancas túmidas.



Um misto de desprezo e ereção acometeu nosso rapaz, o que o deixou aborrecido pelo resto do dia.



IV

Era a manhã do dia seguinte quando Enrico encontrou um de seus funcionários fazendo cruzadinhas. E não tenham dúvida de que estamos falando de Paulo.

— Mas o que é isso, Paulo?

Paulo prontamente largou a caneta e ergueu a coluna, repousando-a com certa violência contra o encosto acolchoado da cadeira.

— Desculpe-me, Enrico. Estava apenas aproveitando o tempo vago.

— Tempo vago? E aqueles balanços que pedi para você fazer? Eu disse que os queria prontos até as onze horas de hoje.

Paulo virou seus olhos para cima, fitando a junção entre o forro de gesso e a parede branca perfeitamente lisa.

— Não me recordo disso, Enrico. Foi mesmo para mim que você pediu?

— Ora essa, Paulo. É claro que foi!

O patrão se aproximou da mesa de seu funcionário transgressor, arrancando a revistinha de cima dela.

— Não quero mais este tipo de palhaçada aqui. Caso ocorra novamente, não hesitarei em tomar medidas mais drásticas. Espero que tenha entendido e que isto não se repita, Paulo.

— Sim, senhor; isso não tornará a acontecer. E desculpe-me pelo erro.

Enrico olhou bravo por mais alguns segundos para seu subordinado. Deu-lhe as costas e não falou mais nada, saindo da sala de Paulo com a revista na mão.

Paulo permaneceu estático por cerca de um minuto, até proferir em sussurro para as paredes:

—Toscano imundo. Espero que seu carro sofra uma colisão arrebatadora. E com você dentro, é lógico.

Até o final do expediente, o tempo decorreu rastejando. No começo da tarde, Paulo conseguiu terminar as planilhas, que realmente havia esquecido. No entanto, cada serviço parecia mais penoso, cada ordem parecia mais intragável



V

Às sextas-feiras, era comum Paulo sair do serviço com sua moto direto para o Bar Balho, perto da praia do Boqueirão e a duas ruas de lá. O episódio da bronca sucedera-se justamente numa sexta, o que reforçaria um bom motivo para uma bebedeira caso houvesse alguém para quem ele se justificar. Como morava sozinho, não precisava se preocupar com o horário – e nem com o estado – em que voltaria para casa.

Sendo assim, despendeu sua noite inteira no bar, onde devorara meia garrafa de vodka, mais três doses de conhaque com mel e limão. Sempre – com a ajuda do velho Dadá – evitava beber whisky, o que lhe causava intensas dores de barriga e já havia proporcionado um ou outro vexame em seu histórico etílico.

Dadá, proprietário do bar havia quase dez anos, tornara-se amigo de Paulo desde quando este passou a frequentá-lo, e fazia questão de fechar o estabelecimento assim que seu cliente mais fiel desejasse ir embora. Como não se encontrasse em condições de sobriedade para isso, Paulo, recusando a carona oferecida por Dadá, caminhou até a praia e lá permaneceu sentado na areia até se apresentar a aurora, instante em que presumiu que conseguiria voltar para casa sem tanta dificuldade.



VI

Na semana seguinte, Enrico esteve ausente do serviço. O patrão de Paulo havia sofrido um acidente e necessitava de repouso. Qual não foi a surpresa de Paulo ao ouvir a novidade? Contidamente contente, chegou a superestimar sua língua. Afinal, o que foi que eu disse?- pensou.

Porém, segundos depois, tornaria a saber que a ocorrência havia sido de bicicleta, o que o deixou um tanto desapontado, não só por seu engano, mas por considerar tal acidente de pouca seriedade. Estranhou como um acidente tão besta poderia ter levado seu patrão a faltar ao serviço.

Seja como for, estava ótimo. A ausência de Enrico era o que lhe importava.



VII

Havia se passado pouco menos de um mês quando, em pleno sábado no Bar Balho, Paulo encontrou Elizabete sozinha numa mesa. Como o bar era grande, espaçoso e bem frequentado, o rapaz só pôde reparar nela por conta do movimento decadente ao longo da noite.

A moça parecia entristecida e permaneceu bastante tempo sozinha. Paulo, com freqüência, a espiava do balcão, onde sempre gostava de ficar, e fingia não vê-la, apesar de algo motivá-lo a não tirar os olhos da morena.



Mas sua dissimulação não conseguiu resistir a noite inteira. Quando a clientela do bar já não passava de dez pessoas, a moça o reconheceu, numa das vezes em que ele a observava. Embebedada, não teve pudores ao convidá-lo para sentar-se com ela. Paulo assim o fez, não muito satisfeito, mas com muita educação.

— Toma um whisky para me acompanhar? – ofereceu Elizabete, com certo tom de melancolia.

O rapaz aceitou, gaguejando um c-c-c-claro, e ambos enfim se apresentaram oficialmente. Paulo, que não estava sóbrio, rapidamente deixou-se envolver com a conversa fácil que a esposa do patrão demonstrava possuir. Após uma hora de papo, parecia ter-se esquecido das piores barbaridades que pensara a respeito da mesma. Naquele momento, já achava indulgentemente que a arrogância da mulher era excesso de segurança, algo característico de pessoas de espírito empreendedor.

Quando se sentiu mais à vontade, perguntou a ela qual era a razão de seu desolamento. Como se estivesse conversando com um amigo de muitos anos, Elizabete desabafou as suas aflições.

Contou sobre a infelicidade no casamento com Enrico, desde as constantes brigas do casal até a recente impotência sexual do marido.

— Impotência?!

A exclamação de Paulo revelou sua surpresa.

Elizabete explicou que no acidente com a bicicleta, Enrico chocara violentamente o períneo contra o quadro, causando-lhe isso uma impotência sexual irreversível.

— Sinto-me profundamente desapontada, sabe? O sexo era o único motivo pelo qual eu ainda suportava o meu casamento. Agora não tenho mais por que estar com ele.

A morena ainda revelou detalhes mais íntimos, como o seu gosto em bater no marido durante as relações – entre outros tipos de atividades sádicas –, para alegria e excitação de Paulo. A isso ela acrescentou que já estava há mais de um mês sem sexo e que tamanha necessidade era o que a estava fazendo beber tanto.

Tentando se manifestar solidário com a moça, Paulo puxou sua cadeira para o lado dela. A essa altura, apenas os dois permaneciam no bar, além do barman, moço robusto e bronzeado indicado por Dadá – que desta vez teve que largar seu bar mais cedo devido a um problema familiar de urgência – para fechar o estabelecimento somente depois que Paulo fosse embora.

Sem vergonha alguma, após tanta bebida, Paulo aproveitou-se da carência de Elizabete para seduzi-la. Havia concluído, depois de tudo o que ela falara, que possuía muitas chances de conseguir uma transa naquela noite. Ao pé do ouvido, elogiou sua beleza, seu corpo, e disse que ela merecia companhia melhor que Enrico, “um sujeito que não chegava aos seus pés”.

Elizabete se manifestava com risos, parecendo gostar e corresponder, até que a conversa evoluiu para temas mais picantes. Paulo estava audaz e não se daria por satisfeito até levar Elizabete para cama.



Deslizou sua mão nos braços nus e delicados da mulher e notou, no primeiro toque, que a pele dela sofrera um suave arrepio. Ela segurou a mão do rapaz e confessou o interesse que, embora não houvesse alimentado, sentira na primeira vez que o viu. Suas faces estavam cada vez mais próximas uma da outra. Ele sentia que o sexo da noite era uma certeza, após tantos meses de abstinência.

Porém, algo de estranho começava a se suceder com Paulo. Com semblante agoniado, levou a mão ao abdômen. Oh, não..

Era dor de barriga. Ele havia tomado três doses de whisky.

Elizabete estranhou a expressão incomodada do rapaz.

— Algo de errado? – perguntou.

— Não, não é nada.

— Seeei, hahaha. Poxa vida, estou há horas sem fumar. Você se importa que eu vá até lá fora acender um cigarro?

Paulo respondeu que não e ela caminhou tortamente até a calçada.

Ele aproveitou a oportunidade e correu para o banheiro.



VIII

Enquanto se esforçava para soltar o primeiro troçulho, inaugurava-se na cabeça de Paulo um turbilhão de preocupações. Ele sabia que possivelmente demoraria na privada e temia que, ao voltar para a mesa, não encontrasse mais Elizabete por lá.

Fez então uma força descomunal e conseguiu se livrar sem complicações do primeiro bolo. Sem se sentir aliviado, olhava para a porta fazendo caretas as mais curiosas, suas têmporas a ponto de estourar a qualquer segundo.

Dois minutos haviam transcorrido e nada do troço se manifestar.

— Ai, minha nossa, vamos logo...

De repente, Paulo sentiu uma pequena ponta e notou que aquela porção não seria pequena.

Fez força.

E mais força.

E mais força.

E um flato lhe escapuliu.



Paulo fitava o teto, as pichações da porta, o chão molhado. O último bolo antes do alívio pleno só lhe veio após quase meia hora de trono.

Ligeiramente se levantou.

Levou mais um tempo ao se limpar, desastrosamente. E mais outro tempo ao lavar as mãos, para arrancar de baixo das unhas alguns resíduos do momento em que o papel higiênico furou.

Saiu do banheiro andando o mais rápido que pôde. Elizabete tê-lo-ia esperado?

Paulo rezava para que sim.

Tendo deixado o banheiro, imediatamente conseguiu ver a bolsa em cima da mesa: não, ela não o deixara.

Entretanto, onde estava?

Um pouco distante de tudo, parou e olhou ao redor, e não viu ninguém além do barman.

O bar era bem amplo e os toaletes situavam-se ao fundo, à direita de quem entra no estabelecimento. De onde Paulo estava, era possível ter-se uma visão geral do local: desde a entrada até as mesas, situadas no meio, e os bilhares, próximos ao banheiro. O balcão também ficava no meio, de frente para as mesas, embora separado destas por um espaço sem mobília não muito largo, algo semelhante a uma pista de dança.

Paulo deu mais uma passada de olhos. Observou mais atentamente o moço atrás balcão. Notou que ele estava de olhos fechados, com a cabeça levemente inclinada para trás, numa expressão de prazer. Decidiu andar até ele, para saber o que estava acontecendo.

Não precisou passar do terceiro passo para compreender. Um som peculiar denunciou: ocultada pelo balcão, Elizabete estava de joelhos fazendo sexo oral no barman.

Era o cume da desgraça para Paulo. Exasperado, arrancou suas coisas da mesa e deixou o bar, sem se importar de não ter pago a conta.



IX

Na segunda-feira, Paulo fora ao trabalho apenas para pedir sua demissão. Tal atitude surpreendeu seu chefe, que, numa rara ocasião de autocrítica, reconheceu o quanto era rígido e às vezes até rude, e não obstante o episódio da cruzadinha, sempre achara Paulo um funcionário competente. Chegou a oferecer a Paulo um considerável aumento, mas este prontamente rejeitou a oferta.

— Bem, Paulo, se você não quer permanecer aqui – disse Enrico – não posso impedi-lo. Só gostaria de uma justificativa para tão repentina decisão.



Com um olhar de raivoso, o rapaz apontou o dedo ao chefe, quase lhe encostando no nariz pontudo.

— Você é um brocha! – gritou para quem estivesse ao redor pudesse ouvir.

Paulo deu as costas para o espantado Enrico e, sem cumprir o aviso prévio, nunca mais voltou ao restaurante. Estava mais do que nunca obstinado a viver em São Paulo e aceitar a proposta de seu primo.

1 comentários:

Unknown disse...

Quem quiser conhecer outros trabalhos
do autor, pode conferir o Blog do pseudoanônimo (http://pseudoanonimo.blogspot.com)

Fico contente pela postagem, Eliana! Obrigado.

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