28 fevereiro 2011

A velha louca, mas nem tanto

Érika Freire

Lá no pico da montanha, onde o vento sopra bem forte, uivando e causando medo, fica a cidade de Porto Pinho. Uma vila que tem cara de fazenda, só que no alto. Apenas dois mil habitantes dividem o pequeno espaço.

Viver em Porto Pinho não é fácil. Tem que ter jogo de cintura e ser muito esperto se quiser fazer algo de errado. É por isso que não há mais picaretas no local. O primeiro a tentar carreira foi seu Alaor, um gordo de 130 quilos que, devido ao tamanho, ficou preso entre a árvore e a parede da rua principal da cidade quando tentava fugir. Ele havia roubado a torta de limão da dona Creuza, a melhor confeiteira da região.

O segundo a tentar a sorte foi Leviano que, honrando o significado de seu nome, esqueceu o chapéu de palha na casa da dona Dinda quando levava o cachorro de pura raça da mulher. Foi descoberto. Só Leviano tinha um chapéu de palha em toda a cidade. Ah, Leviano.

É por isso que seu Castor, o único guarda da cidade, quase não tem trabalho. No último final de semana, teve que tirar o gato da dona Tereza do telhado.

Porto Pinho é uma cidadezinha de gente esquisita, que agüenta muita birita e que gosta de festas estranhas. No meio de tanto maluco, sobra espaço para dona Francesca, uma velha que já foi pega pelo alemão, o Alzheimer. Ela é praticamente a fundadora da Vila. Sente-se dona e já intimou o prefeito que, quando morrer, quer uma estátua sua na única praça da cidadezinha.

Francesca tem uma mania muito feia. Falar da vida dos outros. Seus cotovelos ganharam tons escuros e ásperos, de tanto falar e ficar apoiada na janela, e sua língua então... Ela nunca muda o traje. Saia de pano azul, chinelo de dedo marrom e um lenço na cabeça que virou extensão de seu corpo.

A anfitriã da cidade mora sozinha com um gato preto, o Alfredo. Desde que ficou doente da mente, Francesca pegou o costume de sentar no banco da praça, às 16 horas. Todos os dias. Isso parece comum, e realmente é. O que os moradores não entendem, é que, assim que ela senta, diz: “Mariazinha parece viúva alinhada com seus dois filhos na entrada da porta”

Virou rotina. Todo dia ela faz isso. As teses a respeito do caso são inúmeras. Há quem acredite que Mariazinha é uma espécie de amiga imaginária. Outros preferem dizer que Francesca sempre foi doida mesmo e, agora com o alemão, ficou pior ainda.

Enquanto Porto Pinho chama Francesca de doida, e as pessoas param para ficar olhando para ela, esquecem de olhar para onde Francesca olha. Durante todo esse tempo, ela tenta mostrar que a viúva Mariazinha aparece sempre alinhada, toda prosa na porta da igreja. Deixa seus dois filhos no curso de bíblia e, na sacristia, se deleita com o padre.

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