"Biografar é respeitar memórias, dores e alegrias"
Por Érika Freire
Contar histórias de vida é sua grande especialidade. A Jornalista Eliana Pace chegou a pensar em estudar Sociologia, mas o Jornalismo foi ao seu encontro e logo descobriu “uma carreira fascinante”, como mesmo define.
Depois de passar por importantes redações e atuar em assessoria de imprensa, Eliana pode unir o prazer de ouvir histórias e a paixão pela escrita, quando recebeu o convite para participar da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial do Estado. A Coleção tem por objetivo preservar a memória de grandes nomes da cultura do Brasil e democratizar o acesso ao conhecimento.
Além disso, a jornalista tem contos publicados em três antologias: “Contares”, “Outros Contares” e “Contares Conta o Natal”.
Mesmo em meio a tantas atividades ela ainda reserva tempo para dividir seu conhecimento ministrando oficinas de escrita, como a que desenvolve atualmente na Pinacoteca Benedito Calixto.
Agora, Eliana Pace também divide um pouco de sua vida e experiência em entrevista para o Artefato Cultural:
Era um sonho ser jornalista? Como ocorreu essa escolha?
Na verdade, eu queria cursar Sociologia e Política em São Paulo. Mas na época, 1964, a situação política do Brasil se agravou, irrompeu a revolução e meu pai, muito sabiamente, me desaconselhou a mudar para São Paulo, ainda mais para cursar Sociologia e Política. Defini-me então por História, mas o curso ainda não existia em Santos. Até que li em A Tribuna chamadas para o vestibular de Jornalismo. Fiz, entrei e qual não foi minha surpresa ao descobrir ali uma carreira fascinante e da qual muito me orgulho. Depois cursei Relações Públicas na Cásper Libero, em São Paulo. Isso aconteceu quando saí da redação da Folha da Tarde para trabalhar na J.Walter Thompson Publicidade indicada por um grande amigo jornalista, Antonio Carlos Schiavetto, meu colega no jornal Cidade de Santos, onde iniciei a carreira. Eu queria fazer Criação, ele sabia disso, e a porta que me abriu foi de Relações Públicas. Como para trabalhar na área era exigido diploma, lá fui eu cursar RP. Eis outra profissão apaixonante, não fosse eu aquariana com ascendente em Gêmeos, igual a: fazer duas ou mais coisas ao mesmo tempo.
2. Depois de sua importante carreira dentro do Jornalismo, trabalhando em redação e assessoria de imprensa, o mercado editorial entrou na sua vida. Como recebeu essa nova missão?
Há muitos anos eu queria colocar no papel histórias que ouvia da família. Essa oportunidade surgiu quando fui chamada por uma amiga a fazer um curso de escrita nas Oficinas Culturais Mário de Andrade, aqui em São Paulo. Terminado o curso, alguns dos participantes, gente das mais diversas áreas de atuação, formaram uma oficina de escrita "itinerante", por assim dizer, porque fazíamos cursos em garagens, salões de festas, apartamentos vazios etc. Contratávamos um mestre, pagávamos, íamos escrevendo crônicas e contos e submetendo os textos à apreciação dos demais. Acabamos batizando nosso grupo de Contares e bancamos então o lançamento de uma primeira antologia de contos - já então, eu expondo meus textos à apreciação pública.
3. Parece que o convite para colaborar com a “Coleção Aplauso” veio de um grande amigo seu, o Rubens Ewald Filho. Como foi receber essa proposta?
Quando lançamos as antologias, foi lendo meus contos que Rubens Ewald gostou do meu texto. Aliás, Rubinho é um amigo de toda uma vida. Conhecemo-nos na faculdade de Jornalismo, os dois santistas querendo vencer na Capital e acabamos desembarcando em São Paulo na mesma ocasião. Acompanhamos nossas carreiras e torcemos um pelo outro esses anos todos, mas nunca tínhamos trabalhado juntos. Até que ele foi chamado a coordenar a Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado, e me convidou para integrar o grupo de jornalistas responsáveis pelas biografias da classe artística. Adorei fazer esse trabalho porque uni o prazer em ouvir histórias à escrita da história de vida dos outros e fiz amigos muito queridos entre os meus biografados: Renato Consorte, Leilah Assumpção, Geórgia Gomide, Vera Nunes, Sergio Ricardo, Nívea Maria e por aí vai.
4. Para você, o que representa ter escrito as biografias da Coleção Aplauso?
Um privilégio nos mais variados sentidos. Primeiro, por integrar um seleto grupo de jornalistas encarregado de documentar a vida dos artistas brasileiros. Depois, por poder aprofundar relações com ídolos. Na verdade, a Coleção Aplauso representa uma retomada na minha carreira porque trabalhei na Folha da Tarde como editora de Variedades e fiz muitos amigos na classe artística por força dessa função.
5. Qual desses biografados mais te marcou?
Cada um me deixou uma lição de vida. Com Renato Consorte, fui uma espectadora única e privilegiada de seu talento porque durante as entrevistas ele me fazia rir e chorar. Leilah Assumpção é a dramaturga das mulheres da minha geração que romperam barreiras, ou seja, havia um entendimento tácito entre nós por conta das nossas vivências. É minha grande amiga até hoje. Vera Nunes eu conhecia socialmente, até que sugeri ao Rubinho que ela fosse biografada. Um ser humano da maior qualidade, que me liga de Campinas toda semana para me contar das peripécias dos netinhos e saber como estou. Geórgia Gomide, que perdemos há pouco tempo, foi muito próxima, saíamos juntas para passear, ir ao teatro, eu frequentava muito a casa dela, até em Santos ela esteve comigo. Fiquei devendo a ela um passeio pelo shopping. E por Sergio Ricardo eu era encantada desde o início de sua carreira, uma tiete de seus trabalhos, uma admiradora distante de sua personalidade. Quando me sugeriram biografá-lo, tive que pedir 24 horas para procurá-lo, de tão emocionada e ansiosa que fiquei por conhecê-lo. Somos amigos até hoje.
6. Além de produzir biografias você também fez um trabalho muito interessante transformando novelas de sucesso da TV Globo em livros. Como foi essa experiência?
Essa ideia surgiu de Mauro Alencar, um parceiro muito querido, mestre em teledramaturgia pela USP, consultor da Rede Globo, a quem o Rubens Ewald me apresentou para trabalharmos juntos na história da TV Paulista, que está quase pronta. Mauro recebeu da Editora Globo a incumbência de transformar em livros cinco grandes novelas - Roque Santeiro, Pecado Capital, Selva de Pedra, Vale Tudo e O Bem Amado. Topei o desafio e em praticamente dois meses apenas fechamos os livros que foram comercializados inicialmente nos catálogos da Avon. Até hoje agradecemos a oportunidade dessa experiência super gratificante para nós dois, pelo prazer de conhecer o texto de grandes autores como Janete Clair e Dias Gomes. Agora mesmo, estamos finalizando, juntos, a história de Paulo Gracindo a partir de documentário dirigido por Gracindo Junior.
7. Mesmo tendo uma vasta produção, você costuma dizer que se considera uma “escrevinhadora”. Prefere ser denominada mais como jornalista e biógrafa. Afinal, o que é ser um escritor para você?
Não sou escritora, deixo isso bem claro - me considero um "aprendiz de escritor" ou, brincando, uma escrevinhadora. Há muito ainda que estudar para se dizer autor de uma obra de porte. Na verdade, me considero, sim, jornalista e biógrafa, porque sei que domino essas duas vertentes da escrita.
8. Para você, quais são as qualidades de um bom escritor?
Admiro quem escreve com clareza, criatividade, ritmo. Os contadores de histórias me encantam, cada um com seu estilo.
9. Será lançada na próxima segunda-feira (28), a biografia de Carlos Alberto Soffredini, onde foi colaboradora com Renata Soffredini, filha do dramaturgo. Como foi realizar mais esse trabalho?
Estou funcionando no livro muito mais como ghost writter da Renata. Ela tinha todo material do pai arquivado, conhecia e conhece profundamente a vida dele. Então, meu trabalho ao seu lado foi muito mais de organizar e editar as informações para que a história de vida dele se tornasse atraente aos leitores. Nós nos gostamos muito, Renata e eu, e acompanho a carreira dela com tanto interesse quanto acompanhei, à distancia, a de Soffredini porque não fomos amigos, infelizmente, embora tenhamos sido contemporâneos.
10. Já está trabalhando em outras biografias da Coleção Aplauso? Pode nos contar um pouco?
Estou ultimando com Mauro Alencar a história da TV Paulista que deu origem à Rede Globo, daí sua complexidade. E Elizabeth Savala está lendo o livro que escrevemos sobre ela para que o material possa ser encaminhado à Imprensa Oficial.
11. Quais autores que mais influenciaram sua escrita?
Cada um à sua época. Passei anos debruçada nos escritores latino-americanos e ainda hoje me encantam os trabalhos de Vargas Llosa. Mais recentemente, descobri Milton Hatoun com sua escrita permeada pela origem libanesa e amazonense. E Mia Couto, escritor angolano, que nos surpreende sempre. Não sei se influenciaram minha escrita, seria muita presunção da minha parte, mas fizeram minha cabeça e burilaram meu gosto pelas letras.
12. Há um livro inesquecível para você?
Cem Anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marques, ainda está na memória. A Festa do Bode e Tia Julia e o Escrevinhador, do Vargas Llosa. A Casa dos Espíritos, da Isabel Allende.
13. Atualmente ministra oficinas de escritas na Pinacoteca Benedito Calixto. Como começou esse trabalho e como é ter a oportunidade de passar seu conhecimento para os alunos?
Firmei há alguns anos atrás uma parceria com a Livraria Realejo para dar uma oficina de Biografias, já que eu havia lançado alguns livros em Santos e dominava a técnica por ser jornalista e contista. Emendamos com outras oficinas e quando me dei conta, já estava com um know-how como atestaram alunos que não foram me deixando parar. É gratificante esse trabalho, uma nova vertente da minha vida, e aprendo a cada dia como conduzir um grupo de estudos. Com a Pinacoteca, agora em abril, dou início a uma nova oficina de Biografias, depois de uma de contos e crônicas ministrada em fevereiro. É um prazer trabalhar em conjunto com uma instituição de tanto prestígio, em Santos.
14. Foi com a formação dessas oficinas que surgiu o livro “Laboratório do Escritor”, que reúne contos e crônicas seus e também dos alunos. Poderia falar um pouco sobre a ideia do livro?
Já tínhamos alguns contos escritos nas nossas oficinas quando surgiu a ideia de submetermos à Secretaria de Estado da Cultura o projeto para edição de uma coletânea. Enviamos com o projeto alguns textos nossos para avaliação e fomos agradavelmente surpreendidos com a escolha. Foi um belíssimo projeto e uma emoção participar do lançamento ao lado de alunos, que se tornaram amigos queridos. Pessoas que não tinham a menor ideia de que poderiam publicar seus escritos e que viram naquele momento uma oportunidade única de mostrar seus talentos e competências. Muitos deles continuam comigo em outras oficinas, pois têm projetos de continuar burilando seus textos e publicando.
13. Quais dicas daria para quem quer escrever biografias, perfis e histórias de vida?
As biografias são importantes para documentar a vida de pessoas públicas que por meio de suas atividades deixaram uma importante contribuição para a sociedade. Mas é importante destacar também que o universo íntimo de cada pessoa e sua trajetória são especiais para quem com ela conviveu, daí a importância de imortalizar esses personagens para que sejam conhecidos por futuras gerações. Entre as dicas que transmito aos meus alunos, estão a necessidade de pesquisar o tempo e o espaço em que essas pessoas viveram; sentir sua fala, seu modo de expressão, quando de pessoas vivas; respeitar suas memórias, suas dores e alegrias; e, por fim, ser chato, muito chato, porque temos que ser invasivos num trabalho dessa natureza. Renato Consorte, na dedicatória que escreveu para mim, sintetizou bem o que transmito: "Você continua sendo chata. Chata e doce. Não fosse você, não teria alcançado esta glória. Dou-te a benção".
Entrevista publicada no Artefato Cultural

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