02 março 2011

Lente de aumento

Adriana Bispo


A chegada do telegrama fez recordar a visita do carteiro naquele inverno.

Era véspera de São João. Os garotos recortavam bandeirolas para decorar a vila. Uma salada colorida de papel de seda invadia a casa. Nessa época, Mario costumava ser tão menino quanto os próprios filhos e pedia guloseimas para a mulher. O cheiro adocicado da canjica escapava pelas janelas. Mariazinha caprichava no cravo e na canela. Sentia-se feliz apesar dos tempos difíceis.

“Quando cozinhais, Deus está convosco entre as panelas” - com os dizeres de Santa Teresa D’Ávila, se identificava plenamente. O vapor da panela carregava os seus pensamentos quando ouviram palmas. Era o carteiro.

Mario voltou afoito à cozinha. Finalmente uma oportunidade! Foram meses de expectativa, dinheiro apertado e preocupações impressas no travesseiro. Agora poderiam terminar a casa, colocar as contas em dia e afrouxar o cinto. O papel dizia que tinha até o fim do mês para ocupar a vaga, ou seja, uma semana para organizar a vida e seguir rumo a Manaus. Sim, era bem longe de Taquaras. Teria que atravessar o mapa, mas foi onde o trabalho lhe abriu as portas e não podia rejeitar.

Aquela noite foi um misto de celebração e lamento. Amaram-se com urgência. Os dias seguiram velozes até a despedida. Seriam pelo menos seis meses fora de casa dedicados às chalanas. Os barcos que Mario construíra com o pai ganharam fama e cruzaram as águas. A armadora precisava de capricho de artesão e ele tinha o perfil, afinal, passara boa parte da vida entre redes, barcos e peixes, numa tessitura que se confundia com a sua própria história.

Mariazinha parece viúva alinhada com seus dois filhos na entrada da porta. Um gosto de sal sela o beijo dos dois e o abraço apertado tenta em vão cobrir a lacuna dos meses que virão. A distância sempre coloca lente de aumento nos sentimentos. Antecipa a saudade de quem ainda nem partiu.

A oportunidade tinha via de mão dupla, mas Mariazinha só descobriria quando desabrochasse Maria.

Desde menina fora preparada para o casório, como era costume na aldeia de pescadores. Cedo conheceu Mario e se enamorou. O chalé de madeira foi presente das duas famílias quando decidiram casar. Logo vieram os meninos, depois o desemprego e as primeiras dificuldades. Com cumplicidade enfrentaram a instabilidade de muitas marés. Sempre juntos. Quando Mario passava uma temporada no mar, ela sabia que era breve. Dessa vez seria diferente.

Vendaval batendo na janela, a febre do caçula, o chuveiro queimado, a pneumonia que levou o primo e Mariazinha sozinha.

O aniversário do mais velho, as hortênsias cobrindo a floreira, o cachorro que fugiu, a miopia pedindo óculos e Mario tão longe.

A lua cheia na praia, o sorriso banguela do filho mais novo, feriado prolongado, errou a tinta e o cabelo vermelho, mas ela gostou. Tornara-se Maria.

No início, o dia a dia sem Mario foi como uma estrada num sertão seco e empoeirado. Paisagem árida parada no tempo. Contudo, aos poucos, Maria descobriu que o cactus, além de espinhos, também tinha água e até florescia. Nutriu-se, refrescou-se. Surgiu uma outra de dentro dela mesma. Passou a admirar a novata.

Todo mês, Mario honrava as contas da casa e contava através de cartas como eram seus dias no Norte. Ela, por mais que tentasse, não era fiel no relato. A realidade tinha ares de ficção. Mariazinha cresceu tanto que já não se reconhecia. Quando ele chegasse para o Ano Novo, seria, então, apresentado a Maria.

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