Porre
Rui Otani Pereira
Carregavam um Dreher com alegria. Estavam em três – o jovem de boné e seus dois amigos, que eram primos. Era periódico e ligeiro o passar das garrafas de um para outro, e assim os rapazotes pretendiam fruir a noite.
Haviam comprado a bebida no Pão de Açúcar das Pitangueiras, onde tudo era turisticamente caro. Depois, caminharam pelo calçadão da praia tomados por uma saborosa excitação e, tendo chegado às Astúrias, o êxtase evoluíra para uma leveza sem vergonha de cantarolas sem nexo e cumprimentos a desconhecidos. Nas areias do Tombo, já estavam a gritar loucamente, e o de boné esgoelava Rolling Stones!, socando o vento.
Quase arranjaram confusão quando, ao atravessarem uma rua, deram um tapa na traseira de um carro em movimento e os dois ocupantes do veículo foram tomar satisfação. Se aquilo chegasse ao extremo, daria em morte, mas, por sorte, não deu em nada, e os três amigos prosseguiram o caminho, tomados por uma tensão que logo se foi.
Dirigiam-se à casa de um deles, a do gordinho. Vinte minutos os distanciavam de lá, considerando a cadência hesitante e lenta de seus passos, além das paradas para apressar o esvaziamento da garrafa. Parecia que quanto menos conhaque sobrava, mais rápido desejavam bebê-lo.
Passava já de uma da manhã. As ruas barrentas do Guaiuba, enlameadas pela bem recente chuva, testemunhavam quase solitárias as desventuras de seus únicos caminhantes. À meia distância da casa do gordo, desde o local em que quase se meteram em briga, os rapazes pararam para extirpar as últimas gotas daquela bebida do inferno. Os dois primos pareciam sentir sede. O de boné, já havia alguns minutos, renunciara à tarefa de engolir aquilo. Sentia enjôos, queria vomitar, e resistiu enquanto pôde até se afastar dos amigos, para não passar mal na frente deles.
Virou a primeira rua à direita e fixou-se na calçada, em frente a um portão qualquer de residência. Lá expeliu uma substância rosada, regando alguns tufos de grama, enquanto despontava uma garoinha chata. Mas o enjôo não passou; muito pelo contrário, só piorava. Uma tontura exorbitante fez com que o rapaz se entregasse ao chão. Como não suportasse aquele estado, fechou os olhos e assim permaneceu.
Um tempinho depois, o jovem despertou, vendo-se vomitado e fedorento, e levantou ainda cheio de tontura. Acordou sem boné e sem companhia. A chuva estava mais forte e, sob ela, caminhou sofrido e raivoso até a casa do camarada rechonchudo, sentindo-se abandonado.
Ao chegar, a mãe do amigo o acolheu toda preocupada, deu-lhe uma toalha e o acompanhou até o banheiro de cima, onde o rapaz conseguiu tomar uma ducha sem ajuda.
Na bicama do gorducho, os primos já haviam adormecido. Para a sorte de ambos, a mãe dele era médica, pois tiveram que tomar seringada de glicose na veia. Após a ducha, o rapaz do boné perdido, ainda enjoado, foi se deitar no quarto de hóspedes. Agonizava, traumatizado, jurando nunca mais tomar conhaque, nem na vida nem na morte. Enquanto isso, no cômodo ao lado, um dos primos vomitava sobre o outro.
0 comentários:
Postar um comentário