Unidos Desde Sempre
Marcos Apene do Amaral
Julia nasceu, Lucas tinha seis anos. Seus pais, patrões e empregados, viviam em harmonia. Na casa da avó de Julia, onde os pais de Lucas trabalhavam, se conheceram. A harmonia, ou melhor, a paz dentro de casa, ficou para trás.
Para Julia, Lucas era seu companheiro. Para ele, ela era sua tão sonhada irmãzinha. Não se desgrudavam. .
Julia fazia aumentar seu vocabulário enquanto Lucas lutava com as palavras. Enquanto ele, crescido, expandia-se para os lados, ela, ainda diminuta criatura, espichava-se para cima. Seguiam desenvolvendo-se paralelamente, cada um em seu mundo, no universo da casa da avó da Julia.
Ela, branquinha, cheia de mimos, era ouriçada como um arruaceiro mestiço. Ele, preto, rodeado por limites rigorosíssimos, de uma educação e respeito aristocráticos. Nada mais incomum. Ao contrário da casa da avó da Julia, entre eles, uma perfeita harmonia. Talvez o motivo para tanta adoração estivesse em algo maior que as diferenças.
Enquanto Julia passava seus dias de princesa, Lucas lutava contra os fantasmas da alfabetização e dos impiedosos e terríveis amigos da creche. Quando encontravam-se, invariavelmente, arrumavam um jeito de se divertir, independente do que houvessem passado em seus longínquos mundos. Não precisavam falar, bastava um olhar. Às vezes, gritar. Era esconde pra cá, acha pra lá, temíveis passeios à beira da piscina, danças e muito mais.
O tempo passou, cresceram. Assim como cresceu a barriga da mãe do Lucas. Seria Leandro, Bia, Beto, Janaina. Josivan, ainda não sabia. Lucas, impaciente, dava palpites e, mais maduro, descartava os encantos de Julia. E ela, pra não ficar por baixo, provocando-o, desdenhava de sua atenção não correspondida!
Uma barriga, um irmão ou uma possível irmã de sangue os fizeram distantes naquele instante. O universo da casa da avó de Julia, desintegrado para os dois, voltou a ter paz.
Julia, namorados. Lucas, “cabritonas”, como ele aprendera, com o pai, a chamar as curvilíneas moças, quase todas, a cruzarem seu caminho. Julia, um diploma universitário. Lucas, com muito custo, uma carteira assinada aos 18 anos de idade.
O que antes eram diferenças que os atraiam, agora eram semelhanças tão distintas quanto água e vinho e os distanciavam.
Mais tempo passou, amadureceram. E cruzaram-se novamente na praia, mas não se reconheceram. Lucas, um preto simpático. Julia, uma branquela cheia de encantos. Como quando se conheceram, cheios de charme se mantiveram.
Ela, paparicada por amigas cheias de forma e nenhum conteúdo era servida por ele, respeitado, e muito, por funcionários de sua barraca de praia.
Num entardecer de verão, Julia, voltando para a casa da avó e Lucas, à sua velha e antiga casa, vizinha da casa da avó de Julia, travaram aquele mais do que sem graça diálogo, reapresentando-se um ao outro. Ele, bem mais ciente de tudo, ela, de cara, arriscando gracejos. Nada mais caricato, assim como quando eram crianças.
Julia não perdia um domingo de sol. Lucas, muito menos, nem de sol e nem de chuva. De sua barraca na areia, escaldante ou não, surgia a grana que o sustentava. Estando Julia e suas amigas lá ou não. À essa época, o flerte só não era mais afoito que as idéias que trocavam quando a sós ficavam. Como de costume, Lucas, mais equilibrado e medroso. Julia mais tresloucada e destemida.
Finalmente, num entardecer de verão, meses mais tarde, conhecendo-se bem e respeitando-se ainda mais, para sempre decidiram unir-se. Ela pediu, ele aceitou. Ele anunciou pras famílias e ela, grávida, pouco teve a dialogar com quem quer que pudesse colocá-los como nunca estiveram, distantes. E viveram unidos para sempre!
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