Coisas de criança
Paulo Mauá
Era uma vez
a prefeitura, a praça da matriz com árvores copadas, o coreto, a escola com as
crianças correndo no recreio, o pipoqueiro na esquina, a mercearia com as cores
das frutas, o banco e o gerente de terno, as senhoras fofoqueiras nas janelas
frente à calçada principal, o fazendeiro local e suas botas e todos os
personagens de um conto da carochinha da singela vida naquela pequena cidade do
interior.
O padre, de
barriga avantajada e calvo, após a missa do final da tarde, começa a fechar lentamente
as janelas da capela quando percebe que alguém está ajoelhado no
confessionário. Parece uma criança. Pára o que está fazendo e desloca-se para o
local onde o pecador mirim aguarda sua presença.
- Boa tarde,
filho.
- Oi, padre
Julião, é o Jorginho.
- Não
precisa dizer o nome, tá bom ? Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
Amém.
Padre Julio
estava acostumado com a informalidade na confissão inocente das crianças
constantemente perseguidas pelo sentimento de culpa implantado pelas freiras do
Instituto Liceu, o único colégio da cidade.
- Preciso
confessar um pecado bem grande para o senhor, Pe. Julião. Um não, vários.
- Não
consigo imaginar o seu coraçãozinho com tantos pecados, mas pode falar que
estou aqui para ajudar você.
- Tenho
mania de roubar coisas dos outros.
- Toda
criança sempre pega alguma coisa aqui, ali. Isso é normal. Eu mesmo roubava
galinhas do sítio vizinho para ter o que comer em casa. Mas me conta: o que
você roubou ?
- Um monte
de coisas: o canivete do seu Pacheco, o catavento do Paulinho, meu amigo da
escola, a caixinha de cotonete do meu irmãozinho, o cachorro do guarda da
estação, a coleira do cachorro dele, até a calcinha da tia Neca, calcinha não,
calçona...
- Caramba...
– exclamou o vigário tentando demonstrar surpresa e preocupação com os delitos
do menino.
- Ah, tem a
cesta de carambolas, caquis e cerejas da venda da dona Mirtes, a castanhola da
Juanita, o cinzeiro da pensão Paiva, o cartucho da impressora da prefeitura, na
verdade, os dois cartuchos, o colar da minha avó, o curió do seu...
- Tá bom,
Jorginho. Já entendi.
- Entendeu
nada, seu padre. Eu tenho essa vontade maluca que me queima o peito e eu vou
pegando tudo. Tudo não: só pego coisas que começam com a letra C.
- Ahn... –
exclamou o padre, agora realmente surpreso.
- Isso é
normal ? Eu vou pro inferno ?
- Não sei se
é normal, só sei que é pecado roubar coisas dos outros e você não vai pro
inferno. Procure pensar em outras atividades que possam desviar a sua atenção
dessa vontade incontrolável. Evite colocar as mãos nas coisas dos outros,
qualquer coisa, começando com C, com B, não interessa a letra. O mais
importante é você devolver tudo e se arrepender do que fez. Posso contar com
você ?
- Pode sim.
Quantas ave-marias tenho que rezar para ficar curado ?
- Reze 10
Ave-Marias, 5 Pai-Nossos e o ato de contrição ao final. Mas o mais importante é
não fazer de novo e arrepender-se.
- Pode
deixar. O senhor vai contar para alguém o que eu fiz ?
- De jeito
nenhum, Jorginho. O que se comenta aqui, fica comigo e com Deus. Nem conte para
os outros que eu roubava galinhas quando era criança, tá ?
- Puxa,
estou muito contente. Estou aliviado. Deixa eu dar um abraço no senhor.
Antes que
Padre Júlio pudesse responder, o menino levantou rapidamente do genuflexório e
entrou no confessionário dando um abraço forte naquele senhor de batina. Ah, se
todos os pecados do mundo se concentrassem nesses detalhes infantis.
Enquanto
fechava o restante das janelas, o padre ainda ouviu os passos fortes e ligeiros
do menino indo embora. Na penumbra foi deslocando-se até o pórtico da entrada
da igreja e curiosamente não encontrou as chaves dos portões no bolso da
batina. Onde foi parar o molho de chaves? Atônito, vasculhou o chão próximo,
correu os olhos pelo corredor central, procurou, procurou e nada. De frente
para o altar, reparou que mais alguma coisa iria fazer falta na celebração do
dia seguinte.
Em casa,
Jorginho abre seu baú de tesouros furtados, coloca as chaves do padre ao lado
do coador de café da dona Rosinha do empório e contempla sua mais nova
conquista como um troféu de ouro: o cálice da missa.
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