Ladrão na era da reciclagem
Rosi
Caobianco
Construção
de crônica/ conto com a inserção das seguintes palavras: CARTUCHO, COTONETE,
CAROCHINHA, CONFISSÃO
Esta foi a
manchete que estampou um jornal da cidade de Varginha, Minas Gerais, mostrando
que não é só “ET” que aparece por lá, mas também um larápio de cartuchos
reciclados. Pedro Fidalgo, um ex-detento, foi preso na tarde de sábado por
policiais da região. Pego com a mão na massa, não teve como negar o crime.
Ironicamente, ficou entalado na janela lateral da loja de um revendedor de
cartuchos de tinta para impressoras diversas.
O
desafortunado ladrão já era um antigo freguês da delegacia daquela cidade. Sua
ficha contém várias tentativas de roubo, muitos deles realizados com sucesso.
Desta vez não deu certo, para sua infelicidade, e o evento lhe rendeu mais um
processo para juntar à sua coleção de malandragem.
Fidalgo,
como era conhecido, ao deixar o local do roubo, tentou passar por uma janela
basculante. Porém, como já não tinha mais o corpo franzino de anos atrás, nesta
vez a fuga não deu certo. Com meio corpo para fora e meio para dentro,
protagonizou uma cena tragicômica, podemos assim relatar. Ficou preso
justamente em suas partes baixas. Todo esforço que era feito pelos policiais
para tirá-lo de lá, rendiam-lhe uivos de dor. Precisaram chamar o Corpo de
Bombeiros para cerrar a janela e livrá-lo do suplício por ele mesmo criado.
Concluída a
maratona de desentalar Fidalgo, levaram-no para a delegacia. Dr. Prestes, o
delegado de plantão, já o conhecia e logo falou:
- Você de
novo por aqui, Fidalgo?
- Estava com
saudades desta hospedagem? Muito bem, conte-me sua proeza desta vez.
Fidalgo fez
cara de desentendido e não respondeu.
Dr. Prestes,
sem muita paciência, bateu o punho na mesa e vociferou:
- Vamos,
rapaz, não está me ouvindo?
Fidalgo
continuou calado.
Dr. Prestes
esbravejou mais ainda:
-Sargento
Meireles, traga-me um cotonete. Acho que o infeliz não está me ouvindo, ou não
está querendo colaborar hoje.
- Vou te dar
mais uma chance, Fidalgo, comece a falar. O que estava fazendo naquela loja e
para quem era esta mercadoria?
- Se não
falar logo, eu mesmo vou limpar esses ouvidos para ver se me escuta e confessa
de uma vez.
- Vamos
lá... Tenho mais o que fazer.
Fidalgo
percebeu que o Dr. Prestes não estava brincando. E passados alguns minutos,
confessou sua famigerada proeza. Estava realizando aquele roubo para entregar a
mercadoria para outro comerciante de cartuchos reciclados na cidade vizinha.
Dr. Prestes
prendeu Fidalgo imediatamente e foi atrás também do mandante do roubo. Parecia
que o caso renderia vários receptadores.
O acontecido
foi uma festa para os meios de comunicação da cidade de Varginha. As fotos de
Fidalgo entalado na janela geraram comentários por semanas e mais visibilidade
para o meliante. Muitos puderam concluir que as refeições da penitenciária de Varginha
fizeram muito bem a ele, pois engordou ano após ano e não se deu conta.
Descobriu tarde demais que não podia mais passar pelos basculantes das janelas
na hora dos furtos.
A justiça
tarda, mas não falha, e chegou mais uma vez a hora de Fidalgo passar outra
longa temporada atrás das grades.
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