Miserê
Antonio Taveira
- Que miserê heim patrão!
As palavras chegaram como crítica ácida. O café da manhã para
comemorar a conclusão daquela etapa da obra poderia não ter acontecido, mas
achou interessante unir os operários e agradecer a todos pelo sucesso. Seria
uma coisa simples: sanduíches de presunto e queijo, algumas bolachas doces e
salgadas, um bolo de chocolate, sucos, leite e café, um bom cardápio para a
reunião. Não achou necessário contratar um bufê para isso.
Nesse momento, sua memória o levou a um passado distante,
recém chegado ao Brasil ainda menor de idade, vindo sozinho de Portugal, filho
caçula de uma grande família. A vontade de ter uma vida melhor e vencer em
novas terras eram seu motor propulsor. Ah..., se naquele tempo tivesse um
pouquinho da fartura daquela mesa. Quantas vezes passou fome ou comeu apenas um
pãozinho seco durante o dia.
O início, sem qualificação, era feito de um bico aqui, um
bico ali, até conseguir uma vaga como garçom, onde o problema da comida pelo
menos estava resolvido. Mas a garra e a visão estavam no seu caminho. Queria
ser patrão e trabalhou para isso. E quando a oportunidade bateu à sua porta,
não deixou escapar. O dono, um senhor idoso e já cansado de tanto trabalhar,
lhe ofereceu a venda do restaurante em condições de pai para filho. Aceitou de
imediato. E trabalhou mais ainda.
Em uma viagem ao interior, o destino lhe prepararia uma
surpresa. Naquela pensão, conheceu uma jovem muito bonita. A paixão se transformou
em amor e o casamento selou essa união. As responsabilidades aumentaram e os
filhos vieram. Três. Como fazer para criá-los com dignidade e boa instrução,
para não passarem as agruras que ele passou no início da vida?
Nada tinha sido fácil. De restaurante para estacionamento,
para outros negócios, até entrar no ramo da construção, construindo casas,
sobrados e pequenos prédios. Como dedicação e trabalho são sinônimos de
sucesso, sua empresa se transformou em uma grande construtora onde emprega
várias pessoas. Resumindo: numa confortável situação financeira.
Os filhos receberam uma boa educação, se formaram e hoje
caminham com as próprias pernas. Estão casados, presentearam-no com vários
netos, que ele adora e enche de mimos junto com sua esposa.
Como num flash, tudo isso passou por sua cabeça, e pensou: -
Acho que essa pessoa nunca passou necessidade na vida e não dá valor às coisas
que recebe.
- Tem razão! – respondeu - Quem sabe no final da próxima
etapa, trabalhando com mais eficiência, consigamos que nosso café da manhã não
seja tão misere quanto este.
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