M. Jackson - infância interrompida
Por Ana Lucia dos Santos
É estranho como gostamos de prodígios, principalmente quando
são crianças. Por mais que venha uma leve crítica à situação deles, ficamos
encantados, nos remetemos às nossas infâncias, aos nossos sonhos perdidos, para
nós ou para as nossas crianças próximas. Esses fenômenos mirins nos tomam de
ternura, entram em nossas casas, passam a ser nossos também.
Raramente pensamos no que estaria acontecendo com aquelas
pequenas vidas.
Esse é o sentimento que Michael Jackson sempre me inspirou. A
imagem da criança prodígio, linda, que naturalmente foi crescendo,
transformando sua beleza. Somente há alguns anos atrás, quando assistia a um
vídeo antigo em que ele cantava “Ben”, me perguntei, em voz alta: - O que
fizeram com aquela criança que falava com um ratinho? O que foi feito daquele
menino?
Pois é, a vida já insinuava a resposta, agora mostra mais
claramente. Foi uma criança interrompida, inacabada, impedida de viver a
infância. E isso dói, aperta o coração.
Vivemos a vida dos prodígios mirins que invadem as nossas
casas. Da mesma forma vivemos sua morte, que também invade de forma
avassaladora todas as nossas casas, as concretas e as do coração. É impossível
ficarmos indiferentes, não chorarmos. Aprendemos a amar o menino que foi
crescendo só no corpo. Que foi se transformando em algo racionalmente
inexplicável - e nem queríamos explicações. O que queríamos era continuar a
amar o que ele fazia, e continuamos. Chegamos ao êxtase com a beleza musical, a
estética da dança, a alegria que produzia, a solidariedade que nutria pelas
crianças do mundo, seu esforço para diminuir o sofrimento delas arrecadando
dinheiro, esforço que aos meus olhos o redimia de suas excentricidades.
Choro pela criança que ele não conseguiu ser, choro por nossa
alegria e deleite com alguém que sofria. Choro pelo nosso afã por um glamour
que tanto alimentou a mídia. Entristeço pela nossa frágil condição humana que
precisa ter e ver gente se destroçando para ter um pouco de felicidade.
Penitencio-me na minha condição humana. Peço perdão. Um beijo pra você, Michael
criança! Que felizes sonhos infantis o acompanhem.
0 comentários:
Postar um comentário