O estranho caso da paçoca
Fabiana
Prando
Muita gente
não imagina
quanta
história cabe escondida
no interior
de uma paçoquinha...
Seja ela
redonda ou até mesmo quadradinha,
o fato é que
todas guardam um segredo,
um mexerico,
uma fofoquinha...
O que vou
contar há muito tempo aconteceu
o caso se
passou
com o primo
do vizinho de um amigo meu:
João Calixto
de Oliveira Brito dos Santos Abreu.
Pelo tamanho
do nome já revelo a distinção.
A família do
moço era fina, gente de tradição.
Seus
parentes mais distantes chegaram ao Brasil com a corte de D. João.
Vamos aos
fatos, é finda a introdução.
Se me demoro
dando voltas, o leitor perde a atenção.
E sem leitor
não existe vida, a palavra jaz escrita...
Prossigamos,
meus amigos, que a história é bem bonita!
João entrara
na mocidade e nutria um amor desmedido pela Maroca, filha mais nova do prefeito
da cidade.
Apesar da
nobre origem, ora veja,
vendia doces
num carrinho, na pracinha da igreja.
“Joca do
doce” era conhecido por toda a redondeza.
E adivinhe
só quem era a sua melhor freguesa?
Não, não era
a Maroca, era a Dona Teresa.
A bela viúva
comprava todos os dias, não vivia sem sobremesa.
De amarga já
basta a vida, disso eu tenho certeza!
Repetia o
seu bordão enquanto abastecia a farta cesta com
quindim
olho de
sogra
pé-de-moleque
brigadeiro
arroz doce
canjiquinha
torta de morango
maria-mole
E um regalo
para a afilhadinha,
seu doce
favorito, paçoquinha!
E o nome da
afilhada quero ver quem adivinha!
Maria
Carolina Loureiro Barbosa, para a dinda, Maroquinha.
Teresa tinha
a menina como uma filha de hora tardia,
era
excessiva em seus carinhos e a mimava todos os dias.
Gulosa por
natureza, tal qual a bruxa de João e Maria,
a menina
para ela era um quitute.
Divertia-se
beliscando suas bochechas e fazendo cóceguinhas, chamava-a de Maroca paçoca,
Maroquinha paçoquinha!
E para selar
o encontro da menina com o doce de amendoim,
inventou um
ritual, uma tradição pra não ter mais fim.
Todos os
dias às cinco horas, na janela do quarto da Maroca, depositava um pequeno
pacote, com um lacinho vermelho de fora e, surpresa, paçoca.
E assim, bem
cultivado, cresceu o amor da garotinha pela madrinha e pelo doce enviado.
Dezessete
anos da diurna tradição criaram uma novidade,
mais que
preferência, uma necessidade...
Paçoca era o
doce de estimação da menina.
O doceiro
Joca queria um lugar no coração de Maroca,
não se
importava em dividir o espaço com o amor pela paçoca.
De repente,
pronto!
Eureka,
saída encontrada!
A delícia de
amendoim seria sua aliada!
Num
papelzinho de seda as palavras foram desenhadas:
“Mais doce
que a paçoquinha são os beijos
de quem
muito te admira,
adivinha!!!”
Deitados os
versinhos no papel, embrulhou a iguaria e esperando a freguesa fiel, os minutos
pareciam horas.
Esperar,
ofício cruel...
Dona Teresa
chega afinal,
acompanhada
por duas amigas,
parece mais
faminta que o normal.
Com olhos
apetitosos abarrota sua cesta com as guloseimas do carrinho e Joca, todo
contente, vai fazendo os pacotinhos.
Não esqueça
Dona Teresa,
da paçoca da
sua afilhada!
Lembrou o
rapaz como quem não quer nada.
Quanta
gentileza,
eu não ia
esquecer,
com toda a
certeza!
Hoje estou
com um apetite de primeira grandeza!!!
Assim que a
freguesa partiu,
Joca
encerrou as atividades e correu para sua casa a fim de arrematar a sua
engenhosidade.
Banho
tomado, todo perfumado, estava um pão, como se falava então.
Ficou espreitando
embaixo da janela da amada,
sonhava que
ela,
tendo lido o
bilhetinho,
procuraria o
autor apaixonado.
Que nada,
nem sinal da Maroquinha,
mas quem é
essa que na direção dele caminha?
Maroca não é
com certeza,
rebolativa
se aproxima a dama,
vestida de
vermelho e preto,
os braços
longos se enlaçam no pescoço do rapaz.
Dona Teresa,
disse espantado.
Sou eu
mesma, e quem mais?
Vim beber
seus beijos açucarados!
Não teve
tempo de reagir, ficou ali, paralisado... Caiu na teia da viúva, foi
devorado...
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