A vingança do anão Sebastião
Rosi
Caobianco
Perdido em
seus pensamentos por uma noite sombria, vagava pelas ruas escuras à procura de
sua identidade. Entre trevas e maus presságios, Sebastião, o anão, remoia um
passado nada agradável. Não conseguia vislumbrar um futuro melhor.
Era o mais
novo de uma família de cinco irmãos, todos de um metro e setenta e ele, um
baixote franzino, enrugado de tantas injeções que tomara na vida. Tinha uma
doença esquisita que o deixara abobalhado devido aos remédios tomados desde
criança.
Hoje, com
quase cinqüenta anos, é muito magro e, diga-se de passagem, muito feio. Deixara
de crescer por causa do raquitismo da infância, passada em uma cidade do
interior do nordeste, a esquecida e velha Cabrobó, no sertão de Pernambuco.
Parecia o apocalipse: pobreza, fome, família enorme e doente.
Mas uma
coisa, Cabrobó tinha de bom. Todo sábado lá vinha o arrasta-pé durante as
quermesses. Dava até dó do povo no dia seguinte. Ficavam exaustos e de ressaca
da pinga de jabuticaba vendida pelo cachaceiro, João Pinguço.
Dificilmente
as moças queriam dançar com Sebastião, cujo apelido era Anão do Sertão, por não
ter crescido direito. Como vingança, Sebastião ficava bêbado e incomodava a
festa toda.
Sebastião
convivia com a mágoa de sua fragilidade física, que em nada atrapalhava seus
afazeres. Era trabalhador e esforçado. Para ajudar a família, há muitos anos
fazia vasos de xaxim e vendia na rodovia. Naquele lugar não havia outra opção.
As dificuldades falaram mais alto, o que dificultou a Sebastião estudar e virar
doutor. De cabeça fraca, como ele mesmo dizia, não conseguira terminar nem o
primário.
Às vezes,
parecia um pêndulo cambaleante com seus vasos de xaxim pendurados em um cabo de
vassoura às suas costas. Era deste modo que carregava suas criações todos os
dias, até chegar na tenda construída de velhos entulhos recolhidos nos arredores
de Cabrobó.
Sebastião
gostaria de garantir uns trocados a mais, colher castanhas e comercializar
amêndoas, mas o solo quase desértico não produzia quase nada por falta de
irrigação.
O dinheiro
que ganhava no mês dividia em casa para ajudar a criar os barrigudinhos
sobrinhos que suas irmãs abandonadas trouxeram quando voltaram a viver debaixo
do mesmo teto. Os maridos geralmente iam embora para São Paulo na ilusão de
conseguir trabalho e nunca mais voltavam para rever as famílias que deixavam
para trás. A realidade é que se deparavam com o desemprego na cidade grande por
falta de qualificação.
Ô
dificuldade... Mas o quê fazer? O jeito era trabalhar dobrado e se embebedar de
vez em quando.
Eita vida de
cão, a do anão Sebastião.
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