07 dezembro 2011

Plantão Noturno


  
Crônica coletiva de novembro

Plantão Noturno

Fatos curiosos? Foram tantos...
Acho que o mais marcante foi a passagem do Dr. Henrique pela casa.
Uma certa manhã,  fui ao quarto da paciente mais mal-humorada da época, e estranhei quando me  recebeu com um sorriso radiante:
- Doutor! Muito obrigada por ter mandado o Dr. Henrique! Tão atencioso, vir à noite, no meio da chuva, estava até com a barra da calça molhada. Ótimo o remédio que ele me deu... Achei que era só uma aguinha, mas a dor passou e dormi como não fazia há anos!
O relato daquela enferma, no primeiro instante, me pareceu fundamentado, pois é natural que uma pessoa com mais de 80 anos venha a se socorrer na arte da imaginação, ainda que em momentos de agonia.
Entretanto, o que me deixou desconcertado foi o fato desse tal  Dr. Henrique chegar justamente no meio  da tempestade. Da mesma maneira como chegara o amigo imaginário da minha infância. Naqueles tempos, ainda menino, eu tinha medo de escuro e trovão. Por isso, ele vinha me provocar e se divertir no meu mundo de miragem. Será que ele voltou a fazer  brincadeiras comigo? - pensei ironicamente.
Logo lembrei -me que ainda tinha muitos pacientes a visitar e esqueci-me do fato. Fui então fazer minha visita ao Sr. João, um homem que havia trabalhado muito e, por isso mesmo, ainda continuava com um físico bem estruturado, apesar dos quase 80 anos. Sofria com insônias constantes, mas naquela manhã mostrava um semblante bem descansado. Exames de rotina, tudo certo. Ia saindo quando me disse:
- Gostei muito de seu amigo, doutor. O remedinho que ele me deu foi providencial.
Voltei-me para perguntar ao Sr. João se o médico se identificara, ao que ele respondeu:
- Claro que disse. Foi o Dr. Henrique! E acrescentou em tom de brincadeira. - O senhor está ficando esquecido.... Não lembra mais o nome do  amigo que mandou me ver ontem à noite e do seu poder de cura?  Ah meu bom doutor! .Acho que o senhor também está precisando passar por uma consulta com ele.
A partir daí comecei a sentir que a situação, além de desconcertante, era preocupante.  Dois pacientes com a mesma fantasia noturna? Ou um velho amigo de muitos anos atrás havia retornado?
Quem seria o Dr. Henrique? A bem da verdade, ele parecia ser fundamental, já que meus pacientes apresentaram melhora. Se um dia eu tiver a oportunidade de encontrá-lo, vou propor que essa parceria seja oficializada.
Aliás, vou conversar com o guarda, ele deve ter visto a hora que o Dr. Henrique chegou. 
- Sr Antônio, tudo bem? Por acaso o senhor viu alguém entrar aqui ontem à noite? Um tal de Dr. Henrique? Chegou no meio do temporal, estava todo de branco e com a barra da calça molhada.
- Não doutor, não vi ninguém. Mas também,  com a chuva que caiu ontem... Esse Dr.  Henrique teria chegado de canoa e certamente eu teria visto uma cena dessas.
Entre a aparente alucinação daqueles idosos e a real melhora por mim constatada nas últimas visitas, uma coisa era certa, o trabalho do colega surtira bons resultados. No entanto, entre nós, médicos, a ética recomenda que haja ao menos alguma troca de informação quando compartilhamos os cuidados de um mesmo paciente. Que dirá de vários... Confesso que essa falta de bom senso me incomodava. Nenhuma anotação sequer nos prontuários. Que método miraculoso desenvolvera o misterioso colega do turno da noite? O que  fez com meus pacientes, não sei, mas uma coisa tinha certeza: Eu precisava descobrir se esse Dr. Henrique era de carne osso, ou se até eu mesmo já estava alucinando um parceiro de trabalho.
Na mesma noite, decidi que passaria a noite com meus pacientes da terceira idade. Pouco antes do jantar, liguei para minha esposa, que chegou a desconfiar  que eu estivesse aprontando umas e me chamou de  inútil, pois era incapaz de inventar uma desculpa melhor do que um tal médico fantasma.
Queria que a minha visita noturna se mantivesse em absoluto sigilo. Como confiava no sr. Antonio,  pedi sua ajuda para me manter discreto. Deixei o jaleco no armário e me posicionei num ponto estratégico do corredor. As luzes iam se apagando progressivamente e o silêncio era entrecortado pelas últimas batidas de porta.
Dormiam todos. .          
Uma chuva fina respingava as janelas e um zumbido de vento circulava entre as fechaduras das portas.
Olhei no relógio. Era tarde.
Puxei uma cadeira, cruzei os braços e esperei.
Olhei no relógio quando ele marcava uma hora da madrugada. Nada anormal.
Olhei novamente quando deu duas horas. Tudo calmo.
Então, devo ter dormido pesado. Muito pesado. Porque,  quando o dia amanheceu, na cadeira ao meu lado descansava um par de  calças brancas, com a barra inteiramente molhada. E meu jaleco.
Em cima das duas peças,  uma receita. Em papel timbrado do Dr. Henrique.
Com os agradecimentos pelo jaleco.
Os cumprimentos pelo meu belo trabalho junto aos pacientes idosos.
E a recomendação de um sonífero muito, muito forte.

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