Plantão Noturno
Crônica
coletiva de novembro
Plantão
Noturno
Fatos curiosos? Foram tantos...
Acho que o mais marcante foi a passagem do Dr. Henrique pela casa.
Uma certa manhã, fui ao
quarto da paciente mais mal-humorada da época, e estranhei quando me recebeu com um sorriso radiante:
- Doutor! Muito obrigada por
ter mandado o Dr. Henrique! Tão atencioso, vir à noite, no meio da chuva,
estava até com a barra da calça molhada. Ótimo o remédio que ele me deu... Achei
que era só uma aguinha, mas a dor passou e dormi como não fazia há anos!
O relato daquela enferma, no primeiro instante, me pareceu
fundamentado, pois é natural que uma pessoa com mais de 80 anos venha a se
socorrer na arte da imaginação, ainda que em momentos de agonia.
Entretanto, o que me deixou desconcertado foi o fato desse
tal Dr. Henrique chegar justamente no meio
da tempestade. Da mesma maneira como
chegara o amigo imaginário da minha infância. Naqueles tempos, ainda menino, eu
tinha medo de escuro e trovão. Por isso, ele vinha me provocar e se divertir no
meu mundo de miragem. Será que ele voltou a fazer brincadeiras comigo? - pensei ironicamente.
Logo lembrei -me que ainda tinha muitos pacientes a visitar e
esqueci-me do fato. Fui então fazer minha visita ao Sr. João, um homem que
havia trabalhado muito e, por isso mesmo, ainda continuava com um físico bem
estruturado, apesar dos quase 80 anos. Sofria com insônias constantes, mas
naquela manhã mostrava um semblante bem descansado. Exames de rotina, tudo
certo. Ia saindo quando me disse:
- Gostei muito de seu amigo,
doutor. O remedinho que ele me deu foi providencial.
Voltei-me para perguntar ao Sr. João se o médico se identificara, ao
que ele respondeu:
- Claro que disse. Foi o Dr.
Henrique! E acrescentou em tom de brincadeira. - O senhor está ficando esquecido....
Não lembra mais o nome do amigo que
mandou me ver ontem à noite e do seu poder de cura? Ah meu bom doutor! .Acho que o senhor também
está precisando passar por uma consulta com ele.
A partir daí comecei a sentir que a situação, além de desconcertante,
era preocupante. Dois pacientes com a
mesma fantasia noturna? Ou um velho amigo de muitos anos atrás havia retornado?
Quem seria o Dr. Henrique? A bem da verdade, ele parecia ser
fundamental, já que meus pacientes apresentaram melhora. Se um dia eu tiver a
oportunidade de encontrá-lo, vou propor que essa parceria seja oficializada.
Aliás, vou conversar com o guarda, ele deve ter visto a hora que o
Dr. Henrique chegou.
- Sr Antônio, tudo bem? Por
acaso o senhor viu alguém entrar aqui ontem à noite? Um tal de Dr. Henrique? Chegou
no meio do temporal, estava todo de branco e com a barra da calça molhada.
- Não doutor, não vi
ninguém. Mas também, com a chuva que
caiu ontem... Esse Dr. Henrique teria
chegado de canoa e certamente eu teria visto uma cena dessas.
Entre a aparente alucinação daqueles idosos e a real melhora por
mim constatada nas últimas visitas, uma coisa era certa, o trabalho do colega surtira
bons resultados. No entanto, entre nós, médicos, a ética recomenda que haja ao
menos alguma troca de informação quando compartilhamos os cuidados de um mesmo
paciente. Que dirá de vários... Confesso que essa falta de bom senso me
incomodava. Nenhuma anotação sequer nos prontuários. Que método miraculoso
desenvolvera o misterioso colega do turno da noite? O que fez com meus pacientes, não sei, mas uma
coisa tinha certeza: Eu precisava descobrir se esse Dr. Henrique era de carne
osso, ou se até eu mesmo já estava alucinando um parceiro de trabalho.
Na mesma noite, decidi que passaria a noite com meus pacientes da
terceira idade. Pouco antes do jantar, liguei para minha esposa, que chegou a
desconfiar que eu estivesse aprontando
umas e me chamou de inútil, pois era
incapaz de inventar uma desculpa melhor do que um tal médico fantasma.
Queria que a minha visita noturna se
mantivesse em absoluto sigilo. Como confiava no sr. Antonio, pedi sua ajuda para me manter discreto. Deixei
o jaleco no armário e me posicionei num ponto estratégico do corredor. As luzes
iam se apagando progressivamente e o silêncio era entrecortado pelas últimas
batidas de porta.
Dormiam todos. .
Uma chuva fina respingava as janelas e
um zumbido de vento circulava entre as fechaduras das portas.
Olhei no relógio. Era tarde.
Puxei uma cadeira, cruzei os braços e
esperei.
Olhei no relógio quando ele marcava uma
hora da madrugada. Nada anormal.
Olhei novamente quando deu duas horas.
Tudo calmo.
Então, devo ter dormido pesado. Muito
pesado. Porque, quando o dia amanheceu, na
cadeira ao meu lado descansava um par de calças brancas, com a barra inteiramente
molhada. E meu jaleco.
Em cima das duas peças, uma receita. Em papel timbrado do Dr.
Henrique.
Com os agradecimentos pelo jaleco.
Os cumprimentos pelo meu belo trabalho
junto aos pacientes idosos.
E a recomendação de um sonífero muito,
muito forte.
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