SESC LITERATURA RECONHECE PRODUÇÃO LITERÁRIA DE PAULO MAUÁ
Texto selecionado entre os 15 melhores contos de 2011 pela coletânea do Premio SESC de Literatura
Pardais e Papagaios
Por Paulo Mauá
A Versão Original
O homem vestido, cercado de outros
homens vestidos, armados de espadas, tira o chapéu metálico, faz um gesto
cordial e se apresenta.
“Somos mensageiros da paz.”
O homem pelado, cercado de dezenas
de homens pelados, armados de arco e flecha até a orelha e lanças afiadíssimas,
olha de lado aquela figura estranha.
“Moringa araraquara ?”
Os homens vestidos não entendem nada. Permanecem
paralisados.
Qualquer movimento brusco é motivo para os
nativos acabarem com eles em menos de uma ampulheta virada.
O gordo escrivão-mor da esquadra, o último a
deixar o bote e preocupado em não molhar a roupa, olha assustado o povo nu e
fica aguardando as ordens do comandante.
“Não estamos entendendo o que esse selvagem diz. Ajude-nos.”
O homem pelado, que parece o chefe
pois tem um cocar maior e mais bonito, sorri para os outros homens pelados e
aponta para os seres vestidos.
“Cunhatan poranga indaiá jabuticaba.”
Os homens pelados riem sem parar. A praia
é uma gargalhada só.
O homem vestido pacientemente
recomeça o diálogo.
“Somos de outras terras, além-mar, e viemos conquistar,
quer dizer, conhecer vocês.”
“Juqueí
itaquaquecetuba pindaíba !!!” esbraveja o homem pelado.
O homem vestido recua um pouco,
tropeça no baú de quinquilharias.
“Calma. Viemos em paz. Escrivão-mor, comunique-se com
eles, por favor.”
“Somos mercadores guaraná e viemos trocar com vocês açaí
coisas da nossa terra sem valor mandioca por coisas daqui mandacaru, que nos
interessam muito.”
Um dos homens vestidos mostra um
espelho para os selvagens.
“Mandaú itanhaém mongaguá.” exclamam
admirados os homens pelados.
O homem com roupa aponta o espelho
para o lago refletindo os peixes, o sol e as nuvens.
“Boracéia. Boracéia.” repetem os homens
pelados.
O chefe dos homens pelados pega o
espelho e fica olhando sem pressa.
“Escrivão-mor, fala que gostamos muito do pássaro verde
que está pousado no ombro dele. Pergunta se não quer trocar por um pardal que
temos na gaiola, meio cinza, sem graça, que não canta nada. Quem sabe eles aceitam
a troca.”
Nem precisou traduzir.
Os homens pelados entenderam e responderam na
hora.
“Mantiqueira piracicaba itacaré.”
Sentindo que a resposta é negativa
pela feição dos homens pelados, os vestidos passam a mão no papagaio, entram
correndo no bote e remam em disparada de volta para a imensa caravela ancorada
na baía.
Os homens nus não reagem.
Apenas riem disfarçadamente.
Algumas flechas caem a esmo no mar, só para
dizer que estão preocupados com o ato realizado pelos invasores.
Antes que os homens vestidos cheguem
com segurança à nau, vêem aterrorizados que o navio afunda todo furado por
outros homens pelados que em rápidas canoas voltam para a praia. O serviço fora
feito durante o diálogo diplomático travado na beira do mar.
Os homens vestidos ficam desolados.
Os homens pelados viram as bundas
para o bote e iniciam a volta para a aldeia dentro da mata fechada.
“Cunhambebe itamaracá.” grita
o chefe dos homens pelados com a lança em riste.
“Itamaracá.” respondem em coro os outros homens nus.
Única saída dos homens vestidos:
voltar para a praia, tirar a roupa e aproveitar o sol.
Desistem de explorar os selvagens e se
adaptam ao estilo de vida indígena, casam com Moema e Iracema.
Com isso, o hemisfério sul
do planeta nunca sofreu invasão de terra, genocídio, implantação do capitalismo,
poluição industrial, globalização e desenvolvimento da internet.
Vivem pescando, colhendo o que a terra dá e tomando
muito banho de mar. Todos pelados.
Pena que o pardal se alastrou por aqui. Hoje
é mais difícil de encontrar papagaio solto e livre pelos coqueiros nas praias.
Mesmo assim, a vida por aqui continua um
paraíso tropical.
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