21 maio 2013


SESC LITERATURA RECONHECE PRODUÇÃO LITERÁRIA DE PAULO MAUÁ
Texto selecionado entre os 15 melhores contos de 2011 pela coletânea do Premio SESC de Literatura

 
Pardais e Papagaios
Por Paulo Mauá

A Versão Original

 

            O homem vestido, cercado de outros homens vestidos, armados de espadas, tira o chapéu metálico, faz um gesto cordial e se apresenta.

            “Somos mensageiros da paz.”

            O homem pelado, cercado de dezenas de homens pelados, armados de arco e flecha até a orelha e lanças afiadíssimas, olha de lado aquela figura estranha.

            “Moringa araraquara ?”

Os homens vestidos não entendem nada. Permanecem paralisados.

Qualquer movimento brusco é motivo para os nativos acabarem com eles em menos de uma ampulheta virada.

O gordo escrivão-mor da esquadra, o último a deixar o bote e preocupado em não molhar a roupa, olha assustado o povo nu e fica aguardando as ordens do comandante.

            “Não estamos entendendo o que esse selvagem diz. Ajude-nos.”

            O homem pelado, que parece o chefe pois tem um cocar maior e mais bonito, sorri para os outros homens pelados e aponta para os seres vestidos.

            “Cunhatan poranga indaiá jabuticaba.”

            Os homens pelados riem sem parar. A praia é uma gargalhada só.

            O homem vestido pacientemente recomeça o diálogo.

            “Somos de outras terras, além-mar, e viemos conquistar, quer dizer, conhecer vocês.”

            “Juqueí itaquaquecetuba pindaíba !!!” esbraveja o homem pelado.

            O homem vestido recua um pouco, tropeça no baú de quinquilharias.

            “Calma. Viemos em paz. Escrivão-mor, comunique-se com eles, por favor.”

            “Somos mercadores guaraná e viemos trocar com vocês açaí coisas da nossa terra sem valor mandioca por coisas daqui mandacaru, que nos interessam muito.”

            Um dos homens vestidos mostra um espelho para os selvagens.

            “Mandaú itanhaém mongaguá.” exclamam admirados os homens pelados.

            O homem com roupa aponta o espelho para o lago refletindo os peixes, o sol e as nuvens.

            “Boracéia. Boracéia.” repetem os homens pelados.

            O chefe dos homens pelados pega o espelho e fica olhando sem pressa.

            “Escrivão-mor, fala que gostamos muito do pássaro verde que está pousado no ombro dele. Pergunta se não quer trocar por um pardal que temos na gaiola, meio cinza, sem graça, que não canta nada. Quem sabe eles aceitam a troca.”

Nem precisou traduzir.      

Os homens pelados entenderam e responderam na hora.

            “Mantiqueira piracicaba itacaré.”

            Sentindo que a resposta é negativa pela feição dos homens pelados, os vestidos passam a mão no papagaio, entram correndo no bote e remam em disparada de volta para a imensa caravela ancorada na baía.

            Os homens nus não reagem.

Apenas riem disfarçadamente.

Algumas flechas caem a esmo no mar, só para dizer que estão preocupados com o ato realizado pelos invasores.

            Antes que os homens vestidos cheguem com segurança à nau, vêem aterrorizados que o navio afunda todo furado por outros homens pelados que em rápidas canoas voltam para a praia. O serviço fora feito durante o diálogo diplomático travado na beira do mar.

            Os homens vestidos ficam desolados.

            Os homens pelados viram as bundas para o bote e iniciam a volta para a aldeia dentro da mata fechada.

            “Cunhambebe itamaracá.” grita o chefe dos homens pelados com a lança em riste.

            “Itamaracá.” respondem em coro os outros homens nus.

            Única saída dos homens vestidos: voltar para a praia, tirar a roupa e aproveitar o sol.

Desistem de explorar os selvagens e se adaptam ao estilo de vida indígena, casam com Moema e Iracema.

Com isso, o hemisfério sul do planeta nunca sofreu invasão de terra, genocídio, implantação do capitalismo, poluição industrial, globalização e desenvolvimento da internet.

Vivem pescando, colhendo o que a terra dá e tomando muito banho de mar. Todos pelados.

Pena que o pardal se alastrou por aqui. Hoje é mais difícil de encontrar papagaio solto e livre pelos coqueiros nas praias.

Mesmo assim, a vida por aqui continua um paraíso tropical.

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