Besame mucho
José Augusto Bertelli
Leontino nascera sob o signo de Câncer e era a própria encarnação das tendências prenunciadas pelos legítimos cancerianos. Signo da água, forte nas emoções, Leontino gostava de mulheres loiras, pernas torneadas, primeiro aspecto que logo divisava quando via uma se aproximar.
A fixação em loiras talvez fosse resultado do seu primeiro amor, lá nos tempos de garoto. Cidinha, franzina, olhos vivos, cabelos loiríssimos, fora sua primeira e mais pura paixão. Não prosperou, mas rendeu noites de divagação e insônia. Só o coração falava e a fala era rápida e gostosa. A pulsação alta derramava pelo corpo uma doce sensação de bem estar que, subindo e descendo, iluminava Leontino.
Essa marca deixada pela primeira visita do amor não mais abandonou Leontino. As loiras, sim, as loiras exerciam sobre ele, como num passe de mágica, um fascínio insuperável. As morenas – desde que fosse altas e magras – podiam provocar certo encantamento. Mas, alumbrar, só com as douradinhas. Na biblioteca de Leontino, Marilyn Monroe, num quadro de Andy Warhol, dominava o ambiente. Ao lado dela, mais ninguém.
Leontino era de pouco sair. Engenheiro naval, solteiro, na casa dos 50, gostava de ler e ouvir música. Boleros eram sua paixão. O ritmo e a cadência da música dominavam sua percepção por completo. Leontino voava e subia até o céu dos amantes e lá ficava até depois de findar a música. Não tivera muitos amores: uns dois ou três. Nenhum duradouro. No último, o rompimento se deu após oito anos. Ângela – morena, alta e magra – era por demais ciumenta. Brigas sucessivas. A última contenda fora num restaurante italiano na Bela Vista. Tudo por que Leontino lançou um olhar meio penetrante para a loira que servia as mesas.
Embora pressionado pela influência zodiacal, no campo da paixão Leontino, pode-se dizer, não era daqueles de ficar falando sobre mulheres com os amigos. Reservava para si as coisas do outro sexo num cantinho muito especial no seu ser. Era como um palco escondido num velho e bonito teatro. Penumbra, cortina de veludo vermelho e uma media luz azul. Nesse espaço inefável, Leontino entrava toda vez que, sozinho, punha para rodar um bolero.
Loiras se sucediam no palco. Algumas entravam em cena e se despiam, outras apenas recitavam partes de poesias e saiam tristes. Havia uma que sempre contava piadas ingênuas. Mas a que mais tocava Leontino era a Kim. Entrava em cena, dedinho indicador na boca, lançava um beijo para o espectador e iniciava um strip tease, sempre ao som de Luna Tropical, que começava por remover as luvas e acabava sempre sem tirar a calcinha. Fetiche, protesto disfarçado, quem saberá! Os arquétipos são mesmo assim: jogam um jogo que só com muita análise consegue-se conhecer um pouco.
Foi num desses devaneios que Leontino recebeu no palco uma visita jamais imaginada. Sábado, dia quente, passava da meia noite. Terceiro uísque, janelas abertas para a brisa morna da madrugada. Na vitrola, aquelas com braço automático, uma pilha de discos para sonhar bastante. Leontino, relaxado, atento apenas o suficiente para ouvir o disco cair no prato do pickup e ter início os primeiros acordes de La Luna Tropical.
O palco se iluminou com a luz azul difusa e um pé apareceu entre as cortinas, a seguir a perna torneada e muito clara. O rosto lindo, suavemente maquiado, ressaltava um par de olhos azuis intensos guarnecidos por sobrancelhas finas e bem delineadas. A boca era dominante naquela figura. Lábios grossos, carnudos, a La Jolie, e muito vermelhos. A loira era daquelas douradas.
Acompanhando o ritmo da música, a beldade entra em cena totalmente nua, traçando, no ar, movimentos com os braços e as pernas numa mistura de dança clássica com passos de jazz e posições de yoga. Dava saltos mortais para frente e para trás, contorcia-se colocando a cabeça entre as pernas com o peito encostado no chão do palco. Sensacional. Desprovida de pelos pelo corpo, dois movimentos deixavam à mostra a região pubiana: a contorção para trás e o espacate de costas. Certos lances revelavam ainda a sinuosidade de uma serpente: para lá e para cá em círculos e assim por diante.
Leontino estava atônito. Seu corpo, largado no sofá, já fazia brotar gotas de suor intenso. Respiração acelerada e coração a mil lançavam Leontino num frenesi intenso. A música seguia e a estranha criatura continuava a comandar o espetáculo. Quem seria esse personagem, meditava Leontino, entorpecido pelo arrastar das cenas.
Parece que seu subconsciente aceitou responder a pergunta e instantaneamente fez com que a dançarina desse um mortal final e se postasse de joelhos em frente a Leontino.
Dificil crer, mas ali estava a própria Cidinha, em forma brilhante, que lhe estendeu o braço e num afago tocou seu rosto. Com a ponta do indicador direito, fez o dedo correr por sua face até os lábios mantendo-os fechados, enquanto, com a outra mão, sobre os seus próprios lábios, Cidinha fazia sinal de silêncio, evitando, com isto, qualquer manifestação de Leontino. Assim ficaram por um minuto de sonho, tempo que não se pode precisar e nem aferir no mundo real. O minuto de sonho é para ser vivido o mais intensamente possível para depois só lembrar.
Passado o minuto, Cidinha levanta-se, beija Leontino e corre para o fundo do palco, enrola-se na cortina e desaparece na luz.
Leontino acorda num salto e estupefato procura pelo amor que se foi, recorda-se do minuto sonhado, enquanto na vitrola segue a melodia:...
A orquestra já nos chamou
Abri meu coração
Tremeu o chão
Eu vi que era feliz
À luz de um cabaré
La noche nuestra e o mundo a rodar
Vem o fogo da paixão nos queimar
La luna tropical..................O som de um bandoneon
Não me canso de pedir................Besame...................Besame mucho mas...
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