24 fevereiro 2011

O casalzinho


Rui Otani Pereira



Era tarde de um dia desses. O rapaz tomava banho de bucha na mão e sabonete caído. Na cozinha, logo ao lado do banheiro, sua esposa vasculhava algumas sacolas de compras.

— Amor, você comprou o leite em pó? – ela perguntou.

O homem, com o chuveiro ligado, ouviu um ruído que parecia ter a voz de sua mulher.

— Quê?! Falou alguma coisa? – bradou, enquanto se punha de cócoras para pegar o sabonete, sentindo a água lhe escorrer por entre as nádegas.

Ela insistiu, um pouco mais alto:

— Comprou o leite em pó que te pedi?!

Desta vez o zumbido com voz de esposa estava mais prolongado, fazendo o rapaz dizer:

— Não-entendi-fala-de-novo! – e ele desligou o chuveiro.

Irritada por ter que repetir pela segunda vez, ela partiu para a ignorância.

— Poxa vida, tá surdo?

Mas o marido retrucou:

— Como você quer que eu te ouça com o chuveiro ligado? Eu já avisei 500 vezes: não vem falar comigo quando não estiver perto de mim. Primeiro, porque meu ouvido não é biônico; segundo, porque não gosto de ficar berrando à toa.

A mulher, notando que não estava certa, ficou sem resposta à altura. Mesmo assim, não permaneceu calada.

— Ah, vai tomar banho, então.

O rapaz agradeceu, pensando que o sentido fosse outro, e continuou sua ducha. Enquanto isso, a moça zumbia:

— Eita, homem chato.

— O quê?!



E ela:

— Naada, mas que cacete,viu... – desistindo das sacolas.

Mais tarde, o homem, tendo encontrado as compras em cima da mesa da cozinha, encarregou-se de guardar os produtos. A mulher preparava-se para o banho e procurava por algo no quarto.

— Roberto, você viu meu desodorante da Avon? – falou alto.

— Não vi! – respondeu o moço, parecendo incomodado com a pergunta.

— Que estranho, tava aqui na penteadeira, onde eu sempre deixo. Será que caiu? Ou acabou e joguei fora? Não me lembro... Minha cabeça tá que tá. – comentou ela, levando as mãos às têmporas.

Diante de tão longa fala, o rapaz, distante, pouco pôde compreendê-la.

— Ô, mulher, que cê tá falando aí? De novo, meu? Você aí a dez quilômetros de mim, falando como se eu pudesse ouvir!

— Ai, tá bom, tá bom! Você não tem ouvido biônico e eu não sou surda, para de falar a mesma coisa! – replicou a esposa, sem muita paciência.

O marido parecia ter resposta para tudo e, após dirigir-se ao quarto, argumentou, sob forma de pergunta:

— Mas como você quer que eu pare de FALAR a mesma coisa se você não para de FAZER a mesma coisa?

— Deus do céu! Eu nem tava mais falando com você – ela pôs a mão na testa, bufando – Ai, minha nossa, eu deveria ter ouvido minha mãe...

A mera menção da sogra piorou ainda mais o humor do rapaz.

— Hã, o que aquela velha coroca andou falando?

A moça prontamente respondeu que era o de sempre, desde antes de me casar com você, seu traste; e com retardo, captou o modo depreciativo com o qual o rapaz se referira à mãe dela.

— Epa, e vê lá como fala da mamãe, viu?

O homem deu as costas para a esposa e balbuciou, enquanto saía do quarto.

— Tua mãe é uma praga.



Ofendida, a moça rebateu:

— Praga-é-tu-que-só-reclama-oh-merda.

O marido, dirigindo-se à cozinha, de braço e indicador erguidos, sacudia a mão, alteando a voz:

— Tua mãe... já sei o que tá acontecendo com ela. E deve ser por isso que o cabelo dela escureceu: tanta gente pensando que é tinta... E a pelanca? A velha tá virando líquido. A pele dela não tá murchando, tá é escorrendo! Porque ela, de-tão-velha-de-tão-velha, tá passando do estágio de múmia para o estágio de petróleo, que leva milhões de anos para se formar.

A mulher não ouviu nenhuma dessas palavras. A bem dizer, o rapaz não proferiu nada além do tua mãe. O resto ele apenas pensou, porque perdera a coragem de prosseguir a fala, mas manteve a mão aos balanços até concluir a pretensa ofensa.

No virar da tarde para a noite, tendo o bebê iniciado o berreiro, a mulher entrou na cozinha, onde o marido preparava um lanche.

— Roberto, preciso fazer a mamadeira do Junior – avisou a moça, antes de pedir para que o rapaz pegasse a lata de leite em pó.

Ele, na ponta-bem-ponta dos pés, pois era baixo, alcançou a lata do alto do armário branco. Entregou a mesma à esposa e voltou ao lanche, enchendo com leite de caixa uma caneca preta – sua, por consenso entre ele e mais ninguém.

A mulher tomou a lata e agradeceu. Foi logo analisando o rótulo e, notando a ausência de um detalhe, inchou o peito.

— MAS O QUÊ!?

O rapaz, que já colocava no leite uma colher de achocolatado, deixou cair um pouco do pó para fora da caneca, tamanho o susto.

— Que foi, Leila?

— Você não comprou leite em pó instantâneo! – esgoelou a mulher, salivando em finas gotas.

— Instantâneo? E tem isso?

— Claro que tem!

Mas para ele, leite em pó era leite em pó, qual é a diferença?



— Como, qual é diferença? Preparar esse aqui dá mais trabalho, tenho que bater no liquidificador pra não embolotar. Se você fizesse o favor de comprar o instantâneo, bastaria mexer com a colher.

— E eu ia saber? – ele indagou com inocência.

¬— Não sabe porque é um imprestável. Agora você vai devolver esse e trazer o outro pro Junior.

O marido arregalou os olhos.

— Você tá louca? Já é noite, o mercado fechou. E lá eles não iam trocar o produto porque o erro não foi deles.

— Tem razão, não foi. O erro foi completamente seu, incompetente. Só vou usar esse aqui porque nosso filho precisa se alimentar agora e porque não temos tanto dinheiro pra comprar outro.

O rapaz quis se safar de alguma forma:

¬— Viu só? Sinal que não fiz nada de tão errado assim.

No entanto, ela decretou a sanção, bem ao seu modo.

— É, espertinho? Enquanto durar esse leite, você vai lavar o liquidificador toda vez depois que eu usá-lo.

O rapaz não chiou, pois isso era melhor que ele mesmo preparar a mamadeira.

No fim de noite, a moça surgiu na cozinha e deparou-se com o marido rente à pia.

— Roberto, lavando a louça?

O rapaz estranhou. Parecia uma surpresa forçada da mulher, pois esta já o havia obrigado a lavar o liquidificador:

— É, já tô com a mão na massa mesmo... Aproveitei pra lavar o resto.

E caindo a cabeça para o lado, a moça abriu um sorriso.

— Que bonitinho, amor – e esticando o braço em direção ao escorredor, prosseguiu – Agora deixe eu pegar um copo aqui. Botar o Junior pra dormir me deixou com sede e... MAS O QUE É ISSO, ROBERTO?

A mulher havia pego a caneca preta do marido e visto algo de estranho. O rapaz, já cansado de tanta discussão, até sorriu de inconformado.



— Aaah, não... O que foi dessa vez?

— Olha só essa caneca! – bradou a mulher, sílaba por sílaba pausadamente pronunciadas, enfiando o objeto na cara do homem, que dizia não ver nada demais.

— Como não, Roberto, como não? E essa sujeira toda aqui?

Ela apontava para uma volta completa de grânulos de achocolatado que aderiam ao interior do recipiente. O marido ficou sem graça, haha, eu não tinha visto, e realmente, do modo como procedera, não havia como enxergar. Simplesmente passara uma corrente de água por dentro da caneca, esfregando com os dedos a boca da mesma, até completar 360 graus.

— Meeeu Deus do céu! Mas será possível que nem pra lavar uma louça você serve? – exclamou a esposa, indignada.

Ele indignou-se também.

— Ah, Leila, para de reclamar, eu to aqui lavando a louça na maior boa vontade e você ainda vem encontrar um defeito?

— Mas se é para lavar desse jeito, é melhor nem lavar. Uma caneca! E é só uma caneca, uma coisa tão simples!

O marido rebelou-se, secando com brutalidade as mãos num pano de prato mofado.

— Ah, quer saber? Vou deixar essa merda dessa louça aqui! Ali tá a porra do liquidificador, que já lavei! Vai lá ver se fiz direito!

E jogando o pano no chão, ainda concluiu:

— Se-não-gostar-azar-o-seu-lava-você!

Após tal cena, o casal ainda viu alguns minutos de um filme qualquer – cada um em um sofá – antes de se recolherem ao quarto.

Pela primeira vez em muitas semanas, o bebê adormecia num horário que deixaria qualquer mãe feliz. E pai também: pois o homem, já estendido sobre a cama e cheio de esperanças, observava por trás a esposa, que, de camisola curta e clara, curvava-se sobre o berço para espiar o filho. A moça deitou-se de costas para o marido, ele a beliscou na bunda e ela entendeu o recado. Sem transar havia muito tempo, precisavam aproveitar aquela ocasião. A mulher virou-se, passando a fitar o tórax nu de seu homem.

— Meu gostoso...

E ele retribuiu:

— Minha delícia...

O que houve em seguida não é necessário detalhar tanto, mas é fato que agora pareciam se entender como nunca. Amaram-se de vários modos, cuidando para fazer o menor barulho possível, embora a cama não ajudasse. Em certo momento, o rapaz até precisou errar o tapa que se destinava certeiro às nádegas da companheira. Enquanto isso, a criança ninava em seu berço, perto da porta. Por sorte, não acordou, pois corria o risco de ver papai, de ver mamãe, e de ver papai-e-mamãe. No fim do ato, algo raro aconteceu: gozaram ao mesmo tempo e parecia estar consagrada a reconciliação.

Mal o homem lhe saíra do ardente corpo e a mulher, de imediato, agarrou orgulhosa o espesso pênis do parceiro, parecendo agradecer-lhe – ao órgão, não ao marido – por aquele momento de intenso prazer. Após insistir em tateá-lo por longos segundos, finalmente notou algo de errado.

A reconciliação ia ter que ficar para outro dia.

— Puuuta que pariu, cadê a camisinha, Roberto!?

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