Espelho
Malu Giaffone
Ir à praia até então nunca tinha sido um hábito, embora morasse a apenas uma quadra de lá. Havia uma imensa distância entre o mar e ela, muito mais concreta e complexa que metros ou quilômetros.
Sempre havia o que fazer, sempre tinha alguma obrigação a cumprir. Ao menos era isso que sentia, de forma que a praia, tão próxima, tinha um quê de inatingível. Aprendeu desde nova a não atender aos próprios caprichos, então, não se permitia aquele ato natural e simples para tantas amigas e colegas. Todas bronzeadas. Ela, sempre amarelada pela falta de sol.
Nunca havia sido magra, também não chegava a ser gorda. Entretanto, nos últimos anos havia ganhado muito peso, sequer reconhecia a própria imagem. Por vezes ficava olhando fotos tiradas pelos outros, que tinham o mau gosto de lhe mostrar - seria quase capaz de perguntar quem era aquela moça gorda parecida com ela.
O tempo passou, chegou um momento de revisão. Triste, perdeu o apetite e encontrou consolo nos exercícios. Quando deu por si, tinha outro corpo, perdera vinte incômodos quilos.
Procurando reencontrar-se, descobriu o mar e o prazer de sentir a pele ser bronzeada pelo sol, enquanto a água do mar lambia suas pernas, naquele eterno vai e vem reproduzido pelos caminhantes.
Passou a ir à praia sempre que o sol aparecia. De algo inatingível, tornou-se uma necessidade para o corpo e para a alma. Nem pensava em como estava dentro do biquíni, tanto que ainda usava os mesmos, muito grandes.
Um dia, foi abordada por um rapaz. Negro, alto, muito bonito, simpático, com quem conseguiu engatar o papo com alguma graça. Ela não estava interessada, foi apenas educada, mas ficou estarrecida por ter sido abordada, de um modo interessante, em trajes que, definitivamente, não a favoreciam.
Continuou caminhando à beira mar, fugia para lá sempre que podia. Não desfilava, como tantas mulheres: caminhava para si, atenta apenas ao próprio mundo interior ao qual apenas o mar, não os banhistas, serviam de moldura.
Com o passar do tempo, começou a ver-se diferente. Sentia-se magra como desde a adolescência não conseguia. O corpo mais ágil e mais forte. De repente, mais bonito – finalmente conseguia concordar com o que todos diziam.
Já não caminhava olhando apenas para si. Às vezes conseguia ver as pessoas. Saía do casulo aos pouquinhos.
Um dia, ao cruzar a ponte que passa sobre o canal 3, um homem sentando a cumprimentou:
- Bom dia, maravilhosa!
- Bom dia! - ela respondeu.
Pela primeira vez não tinha o impulso de olhar para trás, procurando a mulher que mereceria aquelas palavras. Não se assustou, não se surpreendeu. Como se maravilhosa fosse seu nome do meio! - pensou, rindo.
Aquele momento foi uma revelação. Sentia-se vitoriosa. Não por alguém achá-la maravilhosa, ou por senti-se assim, mas porque começava a ganhar a batalha que vinha travando contra si mesma. Pouco importava o que os outros viam, relevante era o aprendizado que estava acumulando. Tantas e tantas coisas, mas que podem ser resumidas assim: aprendeu a se permitir. Aproveitar o mar, desfrutar a própria aparência, tão melhorada nos últimos tempos, receber um elogio...
A praia, para ela, nunca será apenas um lugar de lazer. É o cenário onde começou a superar as barreiras que separavam quem ela era de quem gostaria de ser. O mar, mesmo escuro e mexido como o de Santos, será sempre o espelho no qual aprendeu a olhar-se e gostar do que vê.
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