22 fevereiro 2011

Rosas, águas e mãe

Ana Lucia Santos


Dalila sabia que a obediência nunca deveria ser cega. Aprendera desde cedo observando a mãe que, por não conseguir enfrentar um marido autoritário, aparentemente o obedecia, acabando por fazer muitas coisas às escondidas. Coisas sobre as quais ela evitava pensar. Mas estavam lá todo o tempo e, de vez em quando, as lembranças emergiam sem pedir licença. A mãe começou com pequenas mentiras. A filha percebia, assim como observava que ela escondia valores em dinheiro a cada mês. Até o dia em que sua mãe não mais foi vista. Desapareceu. Não se despediu e nunca mais se soube dela. O pai concluiu que a mulher havia fugido com um amante. Pelo menos foi essa a versão que passou para a família.

Seguiu vivendo com o pai, que também não permaneceu muito tempo ao seu lado. Acabou morrendo pouco menos de um ano depois do sumiço da mulher, consumido por uma pneumonia. Dalila passou a viver com uma tia até a vida adulta.

Quinze anos depois, com uma nova família já morando na casa de sua infância, o olfato aguçado do cachorro dos novos proprietários farejou alguma coisa junto à raiz de uma velha roseira plantada na lateral da casa. O terreno desgastado pela erosão deixou à mostra pequena parte de um objeto de madeira que o bicho insistia em cavoucar, chamando a atenção dos seus donos.

Tratava-se de um pequeno baú, contendo objetos pessoais. Não causaria espanto se um pouco abaixo do baú não houvesse um grande saco plástico preto, onde se ocultavam os restos de um cadáver. Concluiu-se que poderia se tratar do corpo da mãe de Dalila, desaparecida há tantos anos.

Quando soube da história, a moça não foi ao local. A família tratou das providências necessárias. Dalila insistiu em guardar as boas lembranças, tanto da mãe quanto do pai, este, provável assassino não confesso. Lembranças que se mesclavam com uma raiva guardada.

Tocou sua vida pra frente, mas não conseguia fixar relacionamentos, ser feliz em seus namoros. Comportava-se de forma rebelde, ao contrário da mãe. Recusava ser submissa. Os namorados não agüentavam. E ela, com argumentos de que não queria receber ordens, simplesmente os dispensava.

Mas com Henrique foi diferente. Ficou hipnotizada pelos carinhos e compreensão dele. Tipo ideal. Alto, moreno, forte, olhos castanhos profundos e pacientes. Suportou bravamente seu autoritarismo e rebeldia. Mal humorada quase sempre sem razão aparente. O rapaz acabou dessa forma ganhando sua confiança. Não se abalou com seu mau gênio. Muito menos com a história de sua família, que Dalila acabou lhe confidenciando.

Henrique, atencioso como sempre, lhe perguntou: - Quanto tempo faz que você não vai lá? Ao que Dalila respondeu: - Não sei, perdi a conta do tempo. Talvez 16 ou 17 anos. Nunca mais voltei ao local. Mas os pensamentos sobre minha infância naquela casa não me abandonam, estão sempre presentes.

- “Acho que você precisa entender e se livrar desse pesadelo- disse Henrique. Que tal voltar àquela casa. Acompanho você. Talvez assim se livre do passado.

Dalila ficou em silêncio. Pensativa. Aquela atitude de Henrique poderia ser uma forma de lhe dar ordens. Dizer-lhe o que fazer. Dominá-la. Não gostou, lembrou da situação de sua mãe diante do pai, teve uma forte sensação de desagrado mas acabou concordando.

Marcaram o dia e se dirigiram para a casa. No entanto, alguma coisa havia mudado nos seus sentimentos com relação a Henrique. Sentia-se atormentada pela possibilidade de estar sendo dominada, conduzida. Os laços de afeto que os uniam lhe pareciam agora frágeis como bilhetes de amor escritos a lápis, fáceis de apagar. As dúvidas palpitavam em sua cabeça e no coração todo o tempo, enquanto se encaminhavam para o local. Mantinha-se em silêncio.

-Em que você está pensando?- , insistiu Henrique, vendo o longo silêncio em que ela se encontrava. - Tenha calma. Se não quiser, não precisa ir. Apenas sugeri por achar que poderia lhe fazer bem, ajudar a romper com o passado, deixar essa história toda de lado.

Entendi - assentiu ela aparentemente mais tranqüila, quase obediente, como sua mãe. Mas com os pensamentos aos turbilhões.

Foram se aproximando da casa ampla, cercada por muros de pedra, imagens presentes da sua infância. Entrou pelo portão que se encontrava aberto, não havia mais moradores no local. Dirigiu-se para a lateral, onde se encontrava plantada a enorme roseira.

Uma fina garoa começa a cair. Ela está estática, paralisada. De repente, num gesto rápido e tresloucado, põe-se a quebrar e arrancar a roseira com as próprias mãos, de onde brota o sangue provocado pelos espinhos das rosas. Henrique tenta impedi-la. É empurrado e atirado ao longe, caindo contra o muro, tamanha a força de Dalila. Ela consegue arrancar a planta. Nada viu embaixo. Percebeu que as raízes já haviam se incorporado à terra, como se sempre estivessem ali. Nenhum vestígio de que sob aquela roseira tivesse permanecido enterrado, por tantos anos, um corpo. O de sua mãe.

Dalila revolveu a terra com força, o mais fundo que pôde, revirando seu ventre, como que a procurar a presença da mãe. Depois alisou carinhosamente o solo e se deitou como uma filha se deita no colo materno. Chorou convulsivamente durante muito tempo, escondendo o rosto com as mãos. Terra, lágrimas e sangue formaram em seu semblante uma máscara cruel.

Ela levanta-se e dirige-se a Henrique com expressão indecifrável. Ele permanece parado ao seu lado, perplexo, após se recuperar do forte impacto da batida no muro. Teve medo de Dalila, pressentiu na expressão dos olhos sob a máscara ímpetos de raiva.

Então, como que magicamente enviada, uma chuva começou a cair. A força da água lavou lentamente a cobertura de terra e sangue do rosto da moça, tal qual o faria uma mãe cuidadosa. Dalila, com o rosto banhado, pede a Henrique que a ajude a replantar a roseira. Ela coloca a terra com carinho, assentando também algumas pedras no local. –Não quero mais voltar aqui -, diz. Caminham, fustigados pelas águas da chuva que fica mais densa.

Dalila ainda olha para trás, a observar a roseira pensando que, por mais que a terra seja arrastada pela erosão, com o passar do tempo, nada haverá lá. Apenas suas velhas mágoas enterradas.

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