21 março 2011

A Amante do Defunto

Rui Otani Pereira


Mariazinha parece viúva, alinhada com seus dois filhos na entrada da porta. Acabrunhada, olha para dentro da capela, soluçante.

— Fiquem com seu tio, crianças – diz a moça, com a voz enfraquecida. — Acho melhor assim.

Os dois pequenos são acolhidos pelo tio João, que em seguida os leva para longe dali.

Despercebida, Mariazinha permanecia estática, com seu olhar tresloucado e perdido, diante da multidão hipócrita e branca.

— Como essa mulher ousa aparecer aqui? – pensa Rosângela, ao notar a figura negra, da pele às roupas, na entrada do salão. – Cadê os seguranças, não há seguranças aqui?

Ao redor de Rosângela, algumas pessoas miram a porta e, tal como um efeito-avalanche, centenas de narizes passam a apontar para lá.

Sob olhares admirados e contemptores, Mariazinha, de lábios carnudos e trêmulos, entra vagarosamente, como quem teme o destino de seus passos. Aproxima-se do falecido, tocando lhe a face com a mão hesitante.

O morto parecia sorrir.

Diante dele e da expressão que lhe transparece, Mariazinha lança-se ajoelhada ao chão frio, levando as mãos ao rosto ebâneo.

— Não! Por que me deixou?! – grita sem pudores, de punhos cerrados, martelando o piso branco.

Incomodada, a multidão do velório mantém a moça sob vigia.

— Quem essa preta pensa que é?

— O que ela acha que está fazendo aqui, será que errou o velório?

— A favelada entrou na capela supondo que aqui era uma igreja evangélica?

Toda aquela gente cochichava entre si, mas ninguém ousava uma aproximação.

Mariazinha fora amante do falecido e beirava os trinta anos. Era alta, carnuda e curvilínea. Uma cavala, como costumavam dizer os vizinhos machistas e bêbados. Era um tanto feia de rosto e vestia-se mal, mas amara o falecido de verdade e, naquela tarde, sentia uma dor sincera.

Rosângela era a viúva legítima. Loira bonita e perua cinquentona, sempre se preocupara com a própria imagem, com o status perante seus círculos sociais. Na homenagem ao defunto, portava-se em público do mesmo modo que durante seus trinta anos de casamento: comedida quase como um robô.

Lentamente, aproxima-se da outra. Há muito tempo sabe quem é aquela mulher.

— Você não é bem-vinda aqui. Faça o favor de retirar-se – exige Rosângela, em tom discreto e arrogante.

— Ninguém pode me impedir de ficar. Ele era meu homem. Mereço estar aqui mais do que você.

O relacionamento entre o falecido e a moça era um segredo bem guardado: tanto pelo homem quanto pela esposa. Por querer evitar escândalos, a viúva fizera vista grossa para o caso do marido. Não queria macular a família perfeita, o lar feliz, o casal apaixonado: toda essa farsa que sempre insistiu em alimentar.

Mariazinha levanta, encarando Rosângela, que procura mostrar-se indiferente ao tamanho da outra, seguindo-lhe com os olhos claros o movimento, de baixo para cima. Enquanto isso, ao redor do corpo e das mulheres, a multidão mantém-se vigilante, à certa distância. A viúva espia toda aquela gente e começa a se constranger.

— Saia daqui, Maria. Já não basta toda a infelicidade que causou ao meu casamento? – sussurra Rosângela com certa dureza, preocupada com o cerco de ouvidos alertas.

— Eu causei? Se vocês não foram felizes, culpa sua! Você não sabe o quanto seu marido lamentava a esposa que tinha...

Mariazinha falava alto; era uma característica que possuía. Na capela, tudo o que proferia era perfeitamente absorvido por cada um da platéia que se havia formado.

De raiva, a perua estremece, porém segura-se a fim de não demonstrar desalinho.

— Em respeito à memória e à imagem dele, seja discreta e deixe-nos velá-lo em paz.

A amante volta-se para o defunto – o morto parecia sorrir. Observa-o comovida e vira-se novamente para a viúva.

— Você o matou... Rosângela, você o matou!

Podia-se ouvir da multidão o começo de um rebuliço. A perua examina ao redor e envolve-se num leve manto de receio, sentindo aumentar o rancor dentro de si.

— Você só pode estar louca... Senhores, ela é louca. Desculpem-me todos vocês que vieram dar o último adeus ao meu falecido marido.

O burburinho da platéia aumenta. Tentando se sobrepor a ele, a voz agressiva de Mariazinha ecoa:

¬— Ele enfartou porque não te suportava mais! – aponta a amante com seu enorme dedo, a veia saltando da testa – Assassina!

A moça desfere um tapa contra a face da viúva.



A pancada desconcerta o penteado de Rosângela, cujos pés oscilam sobre o chão. A perua reequilibra-se, sem que ninguém a ajude. A vermelhidão do bofete propaga-se no rosto, tornado agora rubro de raiva. Feito panela de pressão, a loira comprime-se, agitada, de punhos cerrados, os braços colados ao tronco. Rosângela entrega-se enfim à descompostura e ruge agudamente.

— AAAAAAH! EU TE MATO, SUA VACA!

Com seus globos esbugalhados de ódio, tenta sem sucesso alcançar a garganta da outra.

A amante, embora grande, é ágil e consegue inclinar-se, fugindo das mãos vingativas. Mas a viúva realmente explodira: está descontrolada. Desejosa por retaliação, agarra os cabelos de Mariazinha e arranca-lhe facilmente um maço, fragilizado pelo excesso de chapinha. A amante, por sua vez, não deixa por menos e crava no peito da perua as unhas amareladas de cigarro.

A multidão assiste a tudo como a uma novela. Alguns gostam, dissimulados, outros se indignam profundamente. Até que Lucas, filho de Rosângela e do falecido, resolve segurar a mãe feroz, superando a covardice. Brotado do meio da platéia, surge por trás da viúva e tenta agarrá-la pelos braços... Mas ela escapa-lhe das mãos.

A perua, de batom borrado, parte novamente para cima da outra, empurrando-a com uma força que não lhe era comum.

Mariazinha perde o equilíbrio e bambeia para trás. Logo em seguida, choca seu dorso contra o caixão e cai pesadamente ao lado deste, chegando a perder os sentidos por alguns segundos. Lentamente, passa a sentir algo estranho; repousava sobre ela uma carga gélida... A amante abre os olhos e depara-se com o cadáver sobre si e o caixão ao seu lado caído no chão, virado ao contrário.

O rosto do defunto afundava nos grandes seios da morena. Na queda, um chumaço de algodão lhe caíra do ouvido e um dos sapatos lhe escapara dos pés, revelando a todos uma meia cinza e desbotada. Fora do esquife, era notável o terno folgado, amarrotado nas costas. O morto parecia sorrir. Estava por cima, pela última vez... Mariazinha recordava-se de quando lhe escorria por entre as coxas o prazer, selvagem e doce.

A moça mergulha em prantos, atordoada. Forçosa, arrasta sobre sua carne o falecido para mais perto do rosto. Cara a cara, admira-lhe os traços mórbidos, a expressão vazia, as olheiras fundas, as rugas maquiladas... Até que, num movimento brusco, beija-lhe os lábios frios. Num beijo derradeiro, o beijo da despedida.

Uma correria arranca o corpo de cima da mulher. Assim que o falecido tombara, amigos da família apressaram-se em ajustar o cadáver e o caixão. Mariazinha vê partir de seus braços o homem de sua vida. Levantando-se, confere o olhar censor da multidão que assistira cena por todo esse tempo, sem que nada – a não ser a dor da perda –, lhe incomodasse. Para ela, pouco importa quem são as pessoas dali, bando de gente fútil, medíocre... A morena segue rumo à porta e não mais olha para os lados. Um caminho abre-se para a sua passagem, como se estar perto dela fosse epidêmico. Deixa a capela e vai de encontro às crianças que tivera com o falecido. Rosângela, chorosa e vexada, leva as mãos à testa. Posa de vítima, deprecia a mulher que acabara de sair, a-a-quela esquizofrênica, snif... A multidão recompõe-se, ainda estupefata com a cena digna de ingresso.

— Pobre homem...

— Sujeito de imaculado caráter durante toda a vida!

— Não merecia tamanha confusão no próprio velório.

Em seu devido lugar, o defunto repousa. Tudo o que lhe resta é aguardar o enterro e apodrecer em paz. Mais do que nunca, o morto parece sorrir.

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