19 março 2011

Mãe e filha

Maria Luiza Giaffone



Mariazinha parece viúva, alinhada com seus dois filhos na entrada da porta. Ri da minha própria idéia e os deixei entrar para ensaiar no quarto de bagunças do nosso apartamento. As duas crianças usavam roupas comuns, mas ela, como a mais velha integrante e idealizadora da recém-criada companhia de teatro do condomínio, usava um vestido meu, preto, muito antiquado para os seus dez anos. Os cabelos presos em um coque e uma armação de óculos antiga completavam o visual.

A energia da minha filha sempre me impressionou. É claro que fico orgulhosa dela. Mariazinha – ou Maria Eduarda, como a batizei - é toda energia, cor e brilho. É impossível não notá-la, até porque não consegue ficar quieta - é toda movimento, também.

Na verdade, mal tenho palavras para descrever a minha filha. Somos muito diferentes, quase opostos. Não conheço pessoa tímida como eu. Tenho vergonha de tudo e por isso, desde sempre, fiquei no canto, falando nada ou baixo, tentando passar despercebida. As amizades que fiz na vida surgiram por acaso, nunca por iniciativa minha. Como a Suzana, moradora do mesmo andar, que tem dois filhos com a idade da Maria, estudando na mesma escola. Aos poucos fomos nos aproximando, mas se dependesse de uma atitude minha.... ainda não conheceria minha vizinha de porta.

Maria é diferente. Conversa com qualquer pessoa, sempre tem assunto. Desde bebê, no carrinho, acenava para as pessoas na rua. No colégio, é sempre representante de classe, a aluna que mais se destaca.

Como você já deve ter notado, sinto muita admiração por ela. Sinto também uma certa inveja.... Difícil para uma mãe falar isso, mas uma das poucas vantagens dessa minha introspecção toda é me conhecer bastante, já que sou minha companhia mais freqüente. De certo modo, até me realizo por meio das façanhas dela – como quando, para defender o filho da Suzana, brigou com um moleque dois anos mais velho. Brigou não, porque o Henrique contou que antes que alguém pudesse entender o que estava acontecendo, a mochila dela atingiu o garoto na cabeça; então, Maria pegou o amigo pela mão e foram para a perua. É rápida, além de tudo, a danada.

Mas não é esse sentimento que me incomoda e sim uma sensação estranha, de que ela é diferente demais de mim para ser minha filha. Passei por situações parecidas na escola (o que hoje chamam de bulling sempre existiu), vi colegas sendo agredidos por valentões, mas jamais consegui reagir.

Acho que não a entendo, tão diferente de mim que é. Será? O fato é que a amo muito. Ela diz que me ama o tempo todo, está sempre me agarrando, beijando. Gosto disso, mas sempre acho que não sei retribuir... É como se o excesso de cor dela mostrasse como sou transparente.

Ela vem insistindo para que eu assista o ensaio da tal peça, mas estou muito ocupada. Sei que vai se virar bem, como sempre. A apresentação será hoje à noite, no salão de festas do prédio. Além disso, não entendo de teatro, não poderia ajudar em nada.



.....



O salão de festas do prédio está quase cheio. São cinco os pequenos atores e cada um deve ter levado umas dez pessoas. Maria chamou os avós, pais do meu falecido marido, mas eles não puderam vir. Chamou também meus irmãos, mas os dois estão fora da cidade. Ainda assim, como todos no prédio a conhecem, muitos dos presentes estão aqui também para admirar a minha filha, além das suas próprias crianças.

Está em cima da hora, então. sento numa cadeira, no fundo. Chego a me perguntar se ela precisa de mim no camarim – a cozinha do salão de festas, na verdade – mas descarto a idéia. Além disso, se a apresentação começasse, teria que passar por toda aquela gente sentada, só eu em pé... não entendo como Mariazinha consegue estar naquele palco!

Henrique entra em cena, diz a primeira fala. Chama pelo personagem de Maria. Todos aguardam, mas ela não entra. Fico preocupada, mas espero mais um pouco. Então Suzana acena pra mim, da porta da cozinha. Penso em uma tragédia, atravesso o salão sem ver ninguém. Henrique já saiu do palco.

Minha Mariazinha está sentada no chão. Nunca a vi tão pequenininha. Ela chora, com o rosto escondido entre os joelhos. Ao ouvir minha voz, pula no meu colo e chora mais. Soluçando, com a maquiagem toda borrada, ela diz:

- Pe-pensei que você não vinha... queria que o vô, a vó e os tios estivessem aqui, como os parentes de todo mundo... tive que me vestir sozinha.... a tia Suzana me ajudou, mas ela tinha o Henrique e o Gustavo pra arrumar... eu achei que ia conseguir, mas quando chegou a hora de entrar, pensei que não ia ter ninguém lá pra me assistir, então começei a chorar....

Estamos apenas abraçadas, já faz bastante tempo. Eu me pergunto como pude pensar que ela não precisava de mim. Sinto culpa, olhei tanto para os meus sentimentos que deixei de perceber as necessidades da minha filha. Ainda não sei o que vou lhe dizer, nunca pensei que passaríamos por um momento como esse. Apesar da dor, sinto algo novo surgindo dentro de mim. Pela primeira vez, sei que saberei como agir, sei que poderei ajudá-la. A minha Mariazinha. Finalmente vi algo de mim em minha filha.

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