Vazio
Jobson Ricciardi
A luz fraca do abajur consegue ter mais vida do que esse condenado. Fraqueja, arqueja sobre o piso de madeira opaco e não o abandona. Cintila numa cadência falha como alguém que chora ao confessar ter uma saudade muito antiga por alguém com quem não fala mais.
O condenado anda pela casa esperando sua hora. Vai até a cozinha e toma a mesma quantidade de água da mesma maneira: com a mão direita fraca e arquejada. Abre e fecha o vitrô que já estava fechado para depois consultar a geladeira sem novidades e se lembrar de como sempre odiou novidades. Volta para a sala e se esquece por um instante de como era o rosto dela. Lembra em seguida e se alivia do susto de tê-la perdido da memória. Mesmo que o sofá complete mais quinze anos, mesmo que o dinossauro do quadro na parede ganhe vida e o ataque, ele pensa nela.
Ela compunha músicas tão leves e envolventes que todas pareciam ser uma só. Todas eram poucas e quando cantava, ele torcia para que ela não se lembrasse do final e as repetisse em fragmentos deliciosos de versos perdidos. Mas ela nunca errava. Cantava o que escrevia no tempo exato e nem sequer improvisava. Respirava com harmonia, tinha cores que não existiam quando cantava. Ele podia sentir a hora em que ela iria parar. Não gostava, mas mesmo assim pegava outra dose de vinho e trazia para perto dela.
Um dia, deixou-se esperar. Não admitia ter esperanças depois de certo tempo, mas teve. Ficou de pé na sala ouvindo o ruído que escapava de outros apartamentos que também tinham esperança. Todos os moradores deviam estar como ele: parados, de pé em frente da porta da sala. Olhando de cima para baixo e vendo a barriga que impedia de ver os pés. Olhando as mãos de palmas gastas e unhas encardidas. Jurou que jamais fumaria novamente e abriu a porta para olhar desconfiado os dois lados do corredor. Gostou do fato de que ninguém estava no corredor e voltou para dentro. Ligou a TV e acendeu um cigarro.
Ludwin nunca desejou a vida que tinha no momento, mas um dia acordou e a vida já estava sendo vivida daquela forma. Uma monotonia maciça e fora de controle. Ninguém conquista nada sem luta e como o divórcio foi sua última batalha, não havia para ele mais inimigos nesse mundo.
O cachorro-robô de Ludwin andava pela sala cambaleando sobre o pé esquerdo de um sapato velho. Desligou-o, calçou os sapatos e esperou o dia nascer. Do simpático prédio de três andares até o ponto de ônibus eram duas quadras. Um maço de cigarros amassado voava de um lado para outro cada vez que um carro passava naquela avenida. O vento de terra amarela parecia levar as palavras das pessoas que esperavam no ponto. Levava a esperança de quem já havia esperado demais. Deixava aquele vento para quem só esperava a terra amarela.
Ludwin carregava um guarda chuva mesmo em dias de sol, mesmo sem entender o porquê. Talvez do cabo um dia brotassem dedos para entrelaçar.
A praça antes do hospital era uma nova amiga. O mesmo pé de cuca em sua vigilância silenciosa e uns girassóis num pequeno jardim. O balancê usado vez ou outra por uma brisa mais forte. Outro tipo de emoção ao passar pelo mesmo lugar, pois somos nós outros mudados pelo tempo que nos carrega.
Maria Estela passou pouco por ali e não se lembrava. Foi muito ao mercado da rua onde morava, pescar com o marido, visitar a filha... E de mais nada se lembrava.
Maria Verônica chegava um pouco antes e ficava com os filhos naquela praça. Mais de trinta anos e ainda era a Mariazinha que desenhava bonecas na parede. Beijava o pai e o acompanhava até o quarto onde ela estava, deixando-o ir falar com ela primeiro.
Sentado ao lado de Maria, Ludwin deixa o guarda-chuva e segura sua mão depois de lhe entregar um girassol colhido na praça. Ela sorri com sua simpatia natural e não diz nada. Ele quer dizer algo sobre eles, sobre antigamente ou sobre como seria o futuro. Quer fazer alguma promessa impossível, mas não faz.
Mariazinha parece viúva alinhada com seus dois filhos na porta. Cresceu tão perto do pai que sentia como se fossem um apenas. Ele não se conhecia mais agora. Ela o olhava e sentia saudades.
Como se fosse ele uma paisagem vazia onde estivesse uma placa pendurada num poste de madeira. “Volte, aqui não há mais nada”
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