Gênesis
Rui Otani Pereira
— Quanto tempo faz que você não vai lá, ao túmulo de sua mãe?
Sempre que alguém indaga, eu me silencio. Baixo a cabeça, mudo o assunto – questão inoportuna, ora! – pois hoje sei que não posso rir das lembranças que vêm de mãos dadas a ela...
Minha genitora sempre dizia que gostaria de me ver como um homem realizado e, portanto, feliz. Eu sempre me perguntei sobre o que seria a realização de um homem: nunca cheguei a uma resposta. Mas ouvia calado os seus anseios e mostrava-lhe um sorriso amarelo.
Sua sabedoria impressionava-me bastante. De certa forma, ela foi a maior professora da escola de minha vida. Nunca fiz questão de aprender seja lá o que fosse. Mesmo assim, a velha tinha o dom de me ensinar tudo o que eu deliberadamente ignorava. A cada conversa, em todo olhar e gesto. Quando menos esperava, via-me sábio.
No entanto, tudo aquilo que eu passava a conhecer não era mais que uma fina gota, esforçada bambamente em manter-se intacta. Minha mãe parecia uma fonte inesgotável e segura, mas nunca ultrapassei as fronteiras daquilo que ela pretendia fazer de mim. Somente aspergia o que considerava mais conveniente, moldava-me tal como o artesão faz com a argila. Ela me esculpiu.
Só que sua obra permaneceu incompleta...
Minha genitora morreu sem ver-me “realizado e feliz” como planejara. Sem conseguir lograr com sua estátua, sua pretensa obra-prima. Inacabado, tornei-me seco. Enrijecido. Indefinido. E, por isso, tudo o que me sobrou foi passar de mão em mão, rejeitado por ser imperfeito.
Pobre velha. Bateu as botas sem saber como. Eu, que continuei vivo, pude ver o ônibus que a carregou até a esquina. Analisando agora, posso dizer com alguma veemência que aquela foi a única coisa que eu consegui saber e ela não.
Fiquei muito chocado naquela ocasião: como aquele grande veículo pôde se dar ao trabalho de empurrá-la por cinco metros antes de lhe passar furiosamente por cima? Por um segundo fiz-me essa pergunta. Logo caí em mim e notei que minha mãe tinha acabado de morrer. Ela repousava no chão da rua. Ou melhor, seu franzino corpo, esmagado, estava lá caído. Sim, era só um corpo. Já que não havia mais vida, não mais podia ser minha mãe.
O motorista sequer parou para socorrê-la. Certo ele. Eu teria feito o mesmo. Não havia salvação para uma pessoa que parecia um biscoito pisado. Morreu na hora. Qualquer filho choraria naquela situação. Porém, minha primeira reação foi um riso incontrolável. Tinha 23 anos nesse dia e, passado o mesmo intervalo de tempo, não me lembro de ter presenciado cena tão cômica.
Depois daquele ano, sempre que pessoas desinformadas perguntavam sobre minha mãe, respondia-lhes – a verdade – que ela havia partido de ônibus. Todas ficavam muito curiosas para saber qual tinha sido seu destino. Eu mantinha-me calado procurando evitar uma bela crise de gargalhada.
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