Ziriguidum
Adriana Bispo
Duas amigas reencontraram-se no ônibus. Há tempos não se viam e atropelaram-se com novidades. Foi aquela festa. Falavam ao mesmo tempo e riam como adolescentes na volta da escola. Tinham trocado os números dos celulares e acabaram se perdendo de vista. Logo deram início à atualização de dados - o afeto do momento, o novo corte de cabelo, a dieta da moda, quem casou, quem separou, a última viagem de férias. Tudo cabia naquele caleidoscópio de curiosidades. Numa sexta-feira, depois do expediente, é claro que falaram mais amenidades do que profundidade.
O itinerário longo permitiu uma conversa boa, como antigamente, tecida feito colcha de retalhos, pedacinhos de memória, amigos em comum, choradeiras do passado. Aquele cara charmoso e perfumado que atordoava as duas e nem se dava conta – que fim teria levado? Gargalhadas ecoavam no coletivo. Vasculhando as melhores lembranças recordaram do samba festivo que frequentavam aos sábados no Marapé.
- Quanto tempo que você não vai lá? - perguntou Rejane.
- Nossa, tem mais de um ano. O meu ex não gostava de samba, falha gravíssima. No fundo não era mesmo um bom sujeito! - respondeu Aninha aos risos.
- Ruim da cabeça ou doente do pé? - disparou Rejane na brincadeira.
- Pois é, os dois. Não daria samba mesmo! - respondeu a amiga.
- Por que a gente se apaixona e deixa de lado as coisas que mais gosta? É como se uma parte da nossa essência se apagasse para acolher a do outro, e daí nos perdemos! Comigo também aconteceu assim... - confessou Rejane pensativa.
- É mesmo?
- Sim, você consegue me imaginar parada, sem dançar numa festa?
- Claro que não!
- Então, mas era assim no último namoro. Quanto mais opaca eu ficava, mais o ciúme dele brilhava. Quando percebi, a tristeza já era senhora da situação.
- Eita, isso sim dava um bom samba ‘dor-de-cotovelo’... disse a amiga para descontrair.
- A gente bem que podia combinar de ir ao Ouro Verde. Relembrar os bons tempos. Que tal?
- Amanhã estou sem bússola – riu Aninha toda animada.
- Oba, eu também estou super ‘free’! Lá pelas nove? Você sabe, o samba é de família, termina meia noite – brincou Rejane.
- É, antes que a gente vire abóbora, lembra? – comentou Aninha e as duas caíram na risada.
Encontraram-se no sábado. Roupa bacana, perfume do bom, salto alto e muita animação da cabeça aos pés. A roda de samba já estava formada e a cantoria embalava o povo. Da calçada ouvia-se o coro. Cartola ficaria orgulhoso. O lugar e seus personagens estavam ali intactos. Gente do bairro, os intelectuais, as patricinhas, os descolados, os solteiros de plantão, tribos das mais diversas unidas pela cadência do samba de raiz, todos se acotovelavam naquela noite de Verão. A cerveja gelada e os pasteizinhos completavam o tom.
Na roda de bambas duas gerações a dividir os tamborins. Os mais velhos reverenciados como verdadeiros mestres pelos mais jovens; esses meninos com o legado de preservar a tradição. Emendavam uma letra na outra e o desfile de sambas e chorinhos deixaria qualquer velha guarda honrada – Dona Ivone Lara, Nelson Cavaquinho, Monarco, Raul de Barros, Pixinguinha e até Chico Buarque foi homenageado. A pedidos, Seu Mario, o trompetista da banda, se levantou e encantou a todos com a gafieira ‘Na Glória’. Na empolgação, um moço ensaiou dançar com Aninha, ela apontou a placa que diz que ali é proibido entrar sem camisa, em traje de banho e dançar junto. O ambiente é familiar. As duas se olharam e abriram o sorriso. O tempo fluiu ligeiro como sempre acontece quando a alma está leve e feliz.
Deu meia noite e como manda o figurino no Ouro Verde, o samba terminou. Elas adoraram o reencontro e prometeram voltar em breve. Rejane ofereceu uma carona a Aninha. No carro, um CD de Paulinho da Viola animou o trajeto com a seguinte poesia: “Eu canto samba/ Porque só assim eu me sinto contente/ Eu vou ao samba/Porque longe dele eu não posso viver/ Com ele eu tenho de fato uma velha intimidade/ Se fico sozinho ele vem me socorrer/Há muito tempo eu escuto esse papo furado/ Dizendo que o samba acabou/ Só se foi quando o dia clareou/ O samba é alegria/ Falando coisas da gente/ Se você anda tristonho/ No samba fica contente/ Segure o choro criança/ Vou te fazer um carinho/ Levando um samba de leve/ Nas cordas do meu cavaquinho”.
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