15 março 2011

Palia Pélia

Hilma Nery


O elenco da Cia. Vexame Paulista expôs, na Concha Acústica, técnicas vocais que foram do mansamente “bóiam leves desatentos meus pensamentos de mágoa” à estupidez do “acaba de chegar um dos esculcas que andam disfarçados em bésteiros”.

Foi uma apresentação interativa, como nunca se viu neste país, sob o bruxulear de uma lamparina. As lâmpadas da avenida foram desligadas e o trânsito desviado.

O poema Albatroz: a Saga do Enterro do Passageiro Suburbano do Faroeste a Santos levou a excitada Palia Pélia ao desnudamento total. Ela deu-se de voz, corpo e alma aos presentes e como num pesadelo, os homens recatados dela fugiram. Palia Pélia aproveitou o despudor para exercitar os mistérios do segredo revelado nas vocalizações diferenciadas. O alvorecer dispersou os participantes e o elenco.

Ela lembrou-se, então, que receberia visitas e que nada era o conteúdo da sua geladeira. Dirige-se ao mercado. O tempo urge e seu estomago ruge. Sai de lá carregada de pacotes, sem trocados para serviço de entrega em domicílio.

Raivosa, procura entre os passantes algum morador do seu prédio a quem poderia pedir ajuda. Vê um adolescente loiro vir em sua direção. Ela não o conhece. Ele pára diante dela e diz que quer dinheiro, já elevando a mão na direção da bolsa que ela porta a tiracolo. Ela indigna-se. E antes da mão dele tocá-la, grita como aprendera no evento da Concha Acústica: _ SAI. SAI. SAI.

O tom é de fúria, a feição de fera. O garoto de olhos verdes fica paralisado pelo susto. Ela afasta-se feliz. Descobrira como defender-se: dar ordens afirmativas em claro e bom tom, sempre olhando nos olhos do interlocutor.

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