Leoa, ou o nascimento de Sam Ayala
Malu Giaffone
- Joelma.
- Presente.
- José.
- Samantha!
- José.
- Samantha!
- José!
- Eu já falei que sou Samantha!!!
- Deixa de ser idiota, sua bicha ridícula! Responda presente e pronto.
- Zé! Zé! Zé...! gritou Henrique, seguido por alguns colegas, fazendo a classe inteira cair na gargalhada.
Samantha levantou da cadeira, empinou bem os peitos de silicone recém implantados, agitou a enorme cabeleira loira platinada e saiu, batendo os saltos de madeira num plec plec irritante. Difícil acreditar em tamanha estupidez.
Entrou no banheiro – no feminino, já que fora do intervalo ninguém reparava – e lavou o rosto. Ao olhar sua imagem no espelho, ficou arrependida: quase toda a maquiagem havia sumido e a que ficou estava nos lugares errados. Parecia figurante de um filme B de terror. Riu da cara de zumbi e, ao rir, reencontrou sua forma divertida de encarar a vida. Tirou a maquiagem com calma e ficou no pátio, aguardando o intervalo. Não ia voltar para a aula daquele professor cretino que insistia em chamar uma moça de José.
Sentada, abraçada aos joelhos, pensava em como sua vida havia mudado no último semestre. Sempre soubera que era diferente, isso nunca havia sido um segredo. Decidir se travestir não era uma opção, era isso ou a morte de quem ela realmente era: uma moça! Sempre se sentiu menina, não importava o que os outros dissessem. Finalmente havia convencido a mãe a permitir que colocasse as próteses de silicone nos seios – aos 16 anos, uma moça tinha que ter peitos, não é? Finalmente, havia coerência entre sua imagem e o que trazia dentro de si.
Aparecer vestida como realmente era havia causado o maior rebuliço na escola. Para ela, não havia nada demais, pois era assim que sempre se imaginara. Para os outros, um grande choque. Enquanto era uma bichinha discreta, chamada de Zé, todos a toleravam, mas as pessoas ficavam desconcertadas com aquela Samantha loiríssima com seus enormes cabelos aplicados, decotadíssima com seu silicone, altíssima com seus fantásticos sapatos de salto. Antes era todo diminutivo; agora, toda superlativo.
O que estava por acontecer durante o intervalo ficaria na lembrança de todos os que assistiram a cena. Um vexame, para muitos, mas não para ela.
Samantha sente um empurrão em suas costas, é lançada para a frente. Com um gingado, desvia do cesto de lixo e se equilibra de forma inexplicável. Olha para trás e vê Henrique, braços cruzados, riso debochado no rosto, cercado por outros trogloditas.
Em menos de um segundo o susto passa e a moça olha para seu opositor com cara de ódio. Recebe uma luz: é uma moça, mas seus músculos são de homem. Num gesto teatral, sacode as pernas, jogando longe os sapatos de salto. Em poucos passos alcança Henrique e se lança sobre ele como uma leoa feroz. As pessoas vêem a estranha cena: Samantha montada sobre o feito forte de Henrique, que fica estirado no chão, levando socos e mais socos na cara, nos olhos, na boca, sem conseguir reagir.
- Isso é pra você aprender como tratar uma mulher, seu babaca!
Em razão do susto, ninguém consegue interromper. A própria agressora cai em si e pára. Olha para todos e depois de alguns segundos levanta-se do corpo inerte do antes altivo rapaz. Mansamente, uma colega, toda encolhida e com olhos assustados, aproxima-se e lhe entrega os sapatos que ela calça e sai, novamente sacudindo a cabeleira platinada.
Infelizmente, Samantha não voltou mais ao colégio. Esse episódio foi a gota d’ água, pois já estava cansada da falta de respeito geral, que incluía até muitos professores e funcionários. Sua vida escolar era um pesadelo, do qual ela só conseguiu acordar desistindo dos estudos.
Samantha seguiu, carregando sua verdade no corpo, como se fosse uma armadura. Cabelos platinados, seios fartos, brincos enormes e salto alto: foi assim que enfrentou a batalha da vida.
Mesmo as poucas pessoas que lhe queriam bem passaram anos sem saber de seu paradeiro. Imagine como não ficariam surpresas ao saber que o Zé, da escola, agora é a famosa estilista Sam Ayala. Aquela mesma que veste pessoas famosas. Dizem até que a brasileira indicada ao Oscar de melhor atriz deve usar uma de suas criações na próxima edição da grande festa, mas os rumores ainda não foram confirmados. Seu nome artístico é uma brincadeira, bem a seu gosto, já que Sam é nome masculino. Aprendeu a curtir e tirar proveito da dubiedade da sua condição.
O fato é que Samantha conseguiu. Lamenta não ter prosseguido nos estudos na idade correta, mas isso não a impediu de trilhar seu caminho até o topo. Por lembrar dos tempos difíceis e da escassez de oportunidades, emprega em seu ateliê moças como ela. Virou uma espécie de fada madrinha das transex e travestis do mundo da moda. Nem é preciso dizer: ela adora essa imagem de fada madrinha.
Henrique? É segurança no ateliê de Sam Ayala. Suspeita que sua patroa seja a Samantha do colégio, mas precisa do emprego, então, prefere não confirmar. Como Sam o contratou? Quem não a conhece pode pensar que foi uma espécie de vingança, forma de humilhar o rapaz que a fez sair da escola, mas a verdade não é essa. Ela sequer o reconheceu, ainda mais em meio a tanto empregados. Já Henrique não poderia esquecer da colega: traz até hoje uma cicatriz no supercílio, causada pelas longas garras da leoa.
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