Loucura revelada
Marcos Apene do Amaral
Edgar viajava como um albatroz. E aninhava-se, como as aves, à cabine daquele trem. Era um passageiro como nunca se vira. Suburbano, de uma estupidez mansamente revelada. Para ele, aquela viagem, do alvorecer à penumbra, seria um pesadelo.
Sob a lamparina da minúscula e amadeirada cabine, escura e triste, poema era sua leitura predileta. Clima de enterro. Como ao final de um tiroteio em filme de faroeste. Dirigia-se ao contrário, rumo ao leste. O destino revelaria tal indecoroso segredo ou mais um tímido vexame?
Procurava entender como as cartas que roubava das caixas postais da vizinhança moviam-se de um destino a outro. Em sonhos, que se repetiam com precisão lunar, enxergava pés de centopéia movendo as cartas, mesmo que transatlânticas. Na única vez que perguntou sobre o tema para o capiau que tomava conta de seu casebre, foi apresentado aos meios de transporte. Coisa que mal sabia existir dada a pobreza de sua educação.
Edgar era louco. Desses loucos em missão. Sempre atrás de revelar mistérios ou debruçar-se ainda mais sobre suas próprias loucuras. Repetia, como um lema, que loucos eram os que não seguiam seus sonhos. Já tentara entender como filhos nasciam e espreitara-se entre cercas e janelas para assistir aos casais em ação. Fora recomendado por um “amigo”. (acho esta frase solta...) Anos antes, havia se enterrado para tentar compreender como o mato aparecia brotando da terra. Ficou sumido por uma hora, o que atordoou toda a vizinhança da vila que diariamente via EdDoido, como era chamado, perambular pra lá e pra cá atrás das suas loucuras.
Vivia num mundo próprio. Acreditava que a lua e o sol eram a mesma coisa. Que os animais eram como gente, apenas não falavam. Mas tentavam, dados os latidos dos cachorros, os mugidos das vacas e o relinchar dos equinos. Tinha aversão à comida, não precisava daquilo para manter-se vivo.
Talvez por isso era chamado de espantalho pelos pequenos da vila que o atordoavam em suas missões sempre prestes a revelar grandes segredos. Atrapalhado pelas crianças, sempre no momento de desvelar tais mistérios, não nutria a menor simpatia por elas.
Agora, embarcado no trem do serviço postal, depois de missionária insistência e debochados sorrisos dos funcionários, ele rumava junto das cartas roubadas que endereçou para a parte leste. Durante a viagem de três dias, procurou não dormir para não se atrapalhar e nem sonhar com os pés de centopéia que as cartas teriam. Por isso a viagem foi um pesadelo. A revelação do seu segredo contrapunha-se ao anunciado vexame de comprovar seu lema de louco. Afinal, seguia mais um de seus sonhos.
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