Cleópatra
Valéria Ribeiro de Fazio
Há vinte anos ela velava seu próprio corpo. Era uma mulher morta, confinada na monotonia do lar. Seus sonhos e desejos tinham sido confiscados pela família nutrida de vida; sua voz fora sempre calada pela soberba do marido.
Embora o funeral privado fosse a consagração do amor, teve o seu fim de forma insensível. Em uma tarde mórbida do cotidiano, o homem de Adélia subitamente resolveu transformar aquela situação. E como se fosse vítima da esposa, foi dizendo:
- Sou um homem que sempre trabalhou para te sustentar enquanto você não fazia nada. Ainda me considero jovem, apesar dos meus cabelos grisalhos, por isso acho justo que possa aproveitar um pouco mais da minha vida ao lado de uma outra pessoa. E o certo é você trabalhar e deixar essa moleza em que vive até hoje de apenas extorquir meu dinheiro.
Apática à notícia do abandono, Adélia continuou calada, ouvindo pacificamente o seu senhor. Era como se já soubesse que aquele dia chegaria. Tinha o destino da derrota, da servidão e do trabalho doméstico, este jamais notado pelo marido. Nunca tivera a lucidez de perceber que as baratas não o tinham dominado porque a casa estava sendo limpa por ela.
Entretanto, ela não podia, depois de décadas de convivência, desobedecê-lo. Fez suas malas de roupas simples, pegou alguns objetos pessoais e disse adeus àquele homem que lhe fora tão generoso, protegendo-a dos riscos do mundo, abrigando-a em seu lar, amando-a com um sexo cronometrado e regrado, restringindo seu direito às alegrias e fornecendo-lhe os privilégios de uma vida rígida e séria.
Desconsolada e sentindo-se em débito com um homem tão produtivo e decidido, teve de concordar com a sabedoria dele de que ela não era nada, não sabia fazer nada, nem sequer falar conseguia. Como sobreviveria sem ele?
Mas cada ano de existência não tinha sido em vão, pois Adélia sobreviveu e vive até hoje sem aquele homem. Passados algum tempo, ela estava na praça “do Bosque”, onde funciona aos domingos uma feirinha de artesanato, quando avistou seu ex-marido de cabeça baixa, desconsolado e destruído por ter sido traído pela jovem que lhe prometera o troféu da juventude. Aproximou-se de Adélia, ficou ao seu lado, mas ignorando-a por completo. Não sentia sua presença. Entretanto, ela, com suas mãos delicadas, tocou seus ombros. Ele estremeceu de susto, admirado em vê-la parada, estática, sem mover um músculo sequer. A interpretação daquela Cleópatra toda pintada de dourado era tão perfeita que ele jamais perceberia tratar-se de uma pessoa. Mesmo assim, ele arrancou uma flor do jardim, entregou-a à mulher como prova de alguém que já amou na vida e foi embora cabisbaixo, sem olhar para trás.
A estátua viva permaneceu na praça, mas não mais parada ou calada. Gargalhava com tal intensidade, com tanto prazer, que seus músculos começaram a tremer. Afinal, como uma mulher que não mais velava seu corpo, vivia naquele ambiente se nutrindo das vitaminas do mundo. Observando as pessoas, sentindo o cheiro das coisas. Dos perigos, dos riscos, das alegrias...
Conto publicado no livro "Laboratório do Escritor", que pode ser encontrado na Livraria da Vila
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