Conversa de Bar Portenho
Paulo Mauá
- Uma
cerveja estupidamente gelada!
Enquanto o
garçom se afasta, olho ao redor do bar quase vazio àquela hora. Respiro os tons
tênues da madrugada que confundem minha vista. Não distingo as formas fixas das
flutuantes entre os copos vazios. Sinto os pés firmes sobre o chão vacilante e
a madeira sob meu corpo não é forte suficiente para o peso que carrego. A
melodia não é a mesma de outrora, fruto da escolha, da distância, da solidão da
alma.
Viajo no
tempo e em um bar parecido, ela sai da toalete sorrindo, mexe nos cabelos,
passa pelo balcão de bebidas e vem em minha direção com a assídua taça de
vinho.
- É malbec
ou syrah ?
Ela me
responde com displicente encanto natural:
- E eu que
sei? Só sei que quero tomar um vinho ao seu lado sem pressa. Faz tempo que...
- Faz tempo
que não tomamos vinho?
- Não,
Carlos, faz tempo que a pressa... deixa prá lá.
A década de
60 foi o símbolo das revoltas, cassetetes, perseguições a sonhos e esperanças.
O sucesso da ousadia de Che Guevara, filho da província de Rosário e da classe
média alta argentina, impulsionou uma geração de universitários a enfrentar
ideais. Eu fui um deles. Ela também.
Conheci
Mercedes após uma manifestação frente à Casa Rosada. Fugindo da polícia,
tropecei nos arbustos da Plaza de Mayo, driblei pessoas e carros na Rua
Rivadavia e me abriguei atrás do altar da Catedral Metropolitana. Um ateu como
eu pedia a Deus que os incontáveis minutos de tensão acabassem logo. Percebi na
penumbra que outro coração disparava no mesmo ritmo e no mesmo espaço. Uma
jovem morena. A mesma que agora eu despacharia do meu futuro. Com o passar das
reuniões clandestinas, me envolvi com grupos radicais e a morte recente de
Ernesto me mostrava claramente que não poderia arrastá-la, conscientemente,
para esse tipo de vida.
- Canta
alguma coisa só pra mim. Canta?
Ela olha
para o palco, vê o violão disponível e volta o rosto para mim.
- Só se você
atender aos meus desejos.
- Mercedes,
desejo que cante para mim. Para que eu nunca mais me esqueça da sua voz, da sua
boca deliciosa. Vem cá, me dá um beijo.
Ah, vou
sentir falta da seda desses cabelos fartos, véus negros emoldurando os olhos
oferecidos. Sofrimento é estar ciente que o meu destino não poderia ser o mesmo
que o dela.
- Carlos,
onde você vai é um lugar...quer dizer... será que...
Não
respondo. Mantenho-me atento. É um jogo de paciência. Ela sabe disso e logo
corta o silêncio com precisão:
- Por que
não posso ir com você? Ajudo no que for preciso. Mudo de nome, saio de casa com
a roupa do corpo. Fiz um pacto comigo mesma que você seria meu companheiro para
o resto da minha vida desde aquele momento da catedral. Não precisa casar
comigo na igreja. Só quero ser feliz ao seu lado. Não posso desaprender a amar
de um dia para o outro. Será que você me entende?
Não tive
alternativa e apelei de vez:
- Você
pararia de cantar por minha causa, Mercedes ?
Ela
precisava escutar isso e continuei implacavelmente:
- Eu não
consigo imaginar você parando de cantar por um ideal político. A música é sua
essência e você canta para viver. Respira notas musicais, entrega o seu corpo
ao ritmo. Assim é você. Eu só sei reclamar e esbravejar. Cada um de nós nasceu
com um talento. Não quero carregar comigo a sensação amarga de que a moça mais
bonita que conheci parou de cantar, e encantar, só para sonhar minha paranóia
particular. Não faça isso comigo. Não faça isso consigo.
Achei que
ela ia chorar, mas lutava com todas as forças e tentava me encurralar:
- Carlos,
você define o destino das nossas vidas a uma escolha minha única: você ou a
música?
- Você não
tem que escolher nada. Eu escolho no seu lugar. Eu. Não torne as coisas mais
difíceis.
O silêncio
imperou e se tivesse ficado daquele jeito, talvez nossos rumos seriam outros.
- Agora, vai
cantar aquela música que eu adoro. Solte a voz e me embriague o resto da noite.
Eu fico aqui, sentado, comportado, guardando esse momento para o resto da minha
vida. Proponho um brinde: gracias a la vida.
Pensei até
que ela não ia corresponder, mas com coragem e voz embargada, brindou comigo
pela última vez:
- Gracias a
la vida.
Tomou o
resto do vinho, colocou a taça vazia ao meu lado, baixou a cabeça e enxugou a
lágrima discreta que corria por sua face redonda, com os próprios cabelos.
Caminhou em direção ao palco, colocou a bolsa de pano ao lado do banco, ajustou
o microfone, 1-2-3 testando, afinou o violão, fechou os olhos e lançou ao ar
acordes vibrantes. O ambiente ganhou força mas ficou triste. Antes de acabar a
musica, levantei e fui embora.
A militância
ficou para trás em cartazes rasgados e cicatrizes no embate da teoria
filosófica e a prática social.
Por diversas
vezes, o infame espelho da manhã acusou-me de covarde travestido de terno cinza
escuro. A vida esmagou, sem piedade, minhas fantasias e ilusões. Nunca mais
sonhei meus sonhos. Nossos sonhos. Nossas vidas nunca mais se cruzaram. Nunca
mais fiz amor como nas longas madrugadas estudantis e frias de Buenos Aires.
Cheguei a ir
a um show dela há uns vinte anos atrás. Músicos tarimbados e melodias de cunho
político envolventes. Na pausa entre os compassos marcados, meu coração
inquieto gritava, em vão: eu te amo, eu te amo. A declaração de amor perdia-se
nas arquibancadas lotadas de olhos atentos extasiados com a sua presença
fascinante no palco. No fim do espetáculo, cheguei a me encaminhar para o
camarim, mas desisti. Havia desistido de nós há muito tempo.
Hoje, sinto
falta das nossas conversas de bar, o displicente som das cordas daquele violão,
as mãos dadas nas passeatas, a correria, os sustos, as gargalhadas, os nossos
gritos de ordem, a boca carnuda me sorvendo. Tudo ficou grudado na minha alma.
Como el musguito en la pietra.
Alivio a
gravata e chega mais uma cerveja. A discreta música ambiente desperta a minha
mente: é a voz de Mercedes. Enquanto enche meu copo, o garçom fala sem pressa e
sem pedir licença:
- O senhor
sabia que ela chegou a se apresentar uma vez aqui? Foi uma noite fantástica.
Quem viu, viu. Silêncio.
- O senhor
quer mais alguma coisa?
Respondo que
não com a cabeça.
Pausa.
Ele torna a
me questionar:
- Deixo essa
taça de vinho vazia aí mesmo ?
Não
respondo.
Ele entende
e sai, deixando-me apenas com a perpétua solidão do meu palco.
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