Crônica sobre a cidade
Sergio Fernandes Lopes
Pensar em
mar e areia sempre me remete a dias ensolarados do típico verão de nossa
cidade. Gente bonita e bronzeada caminhando à beira mar, outros à sombra nas
barracas montadas na areia bebericando e jogando conversa fora.
Mas não é só
isso: a praia à noite também é bastante convidativa, principalmente se a data é
de festa.
“Dia dois de
fevereiro
dia de festa
no mar
eu quero ser
o primeiro
a saudar
Iemanjá.’’
Nos versos
de Dorival Caymmi, um convite para esse ritual que se realiza nas praias em
homenagem à rainha do mar.
Este ano
resolvi participar mais ativamente da festa. Comprei calça e camisa brancas e
fui a uma loja que vende produtos para umbanda. Na porta, uma imagem grande de
“Exu” e uma “Pomba Gira’’ vermelha davam um toque especial ao acanhado
comércio. Depois de muito olhar, escolhi um barquinho azul e branco onde iria
depositar algumas rosas, um vidro de perfume e um bilhete com meus pedidos para
ela. O vendedor tentou até me empurrar umas flores de plástico, no que
protestei.
-E Iemanjá é
lá mulher que mereça isso?
- Ela liga
não, moço.
Nos anos
anteriores, ia mais de curioso andar na areia fresquinha da noite, molhar os
pés no mar e observar as pessoas e suas oferendas. As baianas em seus trajes
típicos imaculadamente brancos rodopiando e estancando bruscamente, balançado
os colares e guias com força; os homens com turbantes enfiados na cabeça dando
baforadas de charuto e falando em uma língua ininteligível para mim. Tudo
remetendo ao místico, misterioso.
A noite da
festa, praia lotada e eu firme lá. Sentir de novo a areia fria, fininha nos pés
é gostoso. Com a bainha da calça levantada, molhei os pés no mar e entre o
oferecimento de um trago e outro da boa cachaça – o que não recusei- fui
levando meu barquinho até a beirada do mar. Entrei na água até senti - la na
altura dos joelhos e, cuidadosamente, dei um empurrãozinho para meu barquinho
vencer a primeira onda. E lá estava ele flutuando com sua preciosa carga e um
bilhete escrito com minha melhor caligrafia, como se Iemanjá precisasse de boa
letra para entender os milhares de pedidos que flutuavam no bojo daqueles
barquinhos.
Por um
momento, e apenas por um momento, temi que ele pudesse naufragar. Isso foi na
terceira ou quarta ondas – pendeu para um lado, depois pro outro, dando a
impressão que ia ao fundo, mas seguiu firme, subiu bem alto na crista da onda e
desapareceu por trás dela, sumindo de minha visão.
A meu lado,
uma moça ajudada por sua amiga colocava no mar um barco grande que, se
comparado aos outros, mais parecia um navio lotado de flores e frascos de
perfume. Era uma beleza de encher os olhos. Com uma ajudazinha, venceu as
primeiras marolas.
-Olha lá,
olha lá...
Alguém
gritou apontando para uma onda grande que ia se formando ao longe.
Ninguém ali
podia acreditar, mas quando a onda encontrou o naviozinho, o impacto fez com
que ele começasse a adernar, dando a impressão que não agüentaria a próxima
onda. E foi o que aconteceu. Foi a pique... Flutuou uns poucos metros e...
O que teria
ocorrido para a rainha do mar não aceitar aquela bela oferenda? Sabe-se lá.
Com o rosto
entre as mãos e olhar fixo, a moça perdeu a expressão. Chegava a seus pés na
forma de efêmera espuma a malfadada onda que emborcara seu naviozinho. Abraçou
a amiga e chorou.
O meu, bem,
o meu, pelo jeito teve aprovação e venceu o desafio das ondas. Reconheço que se
ainda não tive todos os pedidos atendidos, alguns já foram e os outros
certamente estão muito bem encaminhados. Ano que vem estarei de volta.
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