Almoços de domingo
Sergio Lopes
Dentre
tantas boas recordações da minha infância está o almoço de domingo na casa dos
meus avós maternos. Normalmente criança não gosta dessas formalidades, mas no
meu caso era diferente: eu ficava no “ponteiro” esperando o domingo chegar. Por
essa época tinha oito anos, se tanto.
Morávamos em
uma casa recém construída por meu pai que era engenheiro civil e a projetou
visando atender a uma família de quatro pessoas. Ele, minha mãe, meu irmão mais
velho e eu. De arquitetura moderna, já contrastando com antigos casarões,
ficava na Avenida Francisco Glicério em frente onde outrora se localizava o
“Asilo de inválidos de Santos”.
Quando nos
mudamos para lá, lembro-me bem que a avenida não possuía calçamento o que
facilitava para nós, meninos da vizinhança, as brincadeiras: taco, jogar
espeto, futebol com gol chinês, que tinha uma trave pequena e que até hoje não
sei a razão do nome; empinar papagaio, jogar peão e meu preferido: as bolinhas
de gude. Alem do jogo, havia as belas cores daquelas bolinhas de vidro. Em
qualquer empório ou mercearia que se entrasse, lá estava sobre o balcão um
grande vidro cheio delas que em suas cores puxadas para os tons azul e verde
formavam verdadeiro caleidoscópio.
Assim seguia
a vida: livre e solta. Mas no domingo...
Minha mãe
nos arrumava a mim e a meu irmão no capricho: sapato social, meias três
quartos, calças curtas com cinturão e camisa abotoada até o colarinho enfiada
por dentro da calça. Uma tortura para quem gostava mesmo de “pé no chão”. Nessa
época, bermuda era traje usado no Caribe e no Havaí.
Pelas onze,
meu pai estava tirando seu possante Chevrolet Bell-air da pérgula e já a essa
altura minha ansiedade era grande. Eu explico: é que a casa dos meus avós era
antiga, plantada em um terreno grande, mais parecia uma chácara.
Com a
indefectível seqüência de buzinadas (pam param pam...pam...pam...) meu pai
avisava que estávamos chegando. Meu avô nos esperava no portão e a alegria
começava. Mal dava um beijo na minha avó, na bisa e lá ia eu à toda para o
quintal. Meu irmão era mais comportado.
Ali no
quintal, havia muitas árvores frutíferas e uma bela horta. Recordo-me da
goiabeira, abiu, fruta do conde, ameixinha amarela e carambola, fruta hoje
difícil de se encontrar, que junto com a manga estava presente em grande parte
das casas. Tudo ali à mão, precisando apenas de um pequeno esforço como subir
nas árvores para se “lambusar”.
- Menino,
desce daí que vai sujar a roupa – alertava a bisa Ritinha – depois sua mãe
ralha.
Entre as
árvores havia um viveiro para pássaros enorme: saíra sete cores, cardeal com
seu topete vermelho, altivo. Os canários em sua variação de tons de amarelo,
enfim, uma aquarela. Meu avô criava galos de briga, um jogo muito popular
naqueles anos 50, e também tinha curiós, que ia caçar nas proximidades do km19
da estrada de ferro que cortava a quase virgem Praia Grande. Galinhas ciscavam
no terreiro com seus pintainhos sempre as seguindo, assim como as patas
cuidando de suas crias.
Tem alguém
com fraqueza? Astenia?
Vai lá na
casa da dona Itacy que ela lhe arranja alguns ovos de pata, grande
fortificante, ainda mais se batido com um bom vinho quinado.
Na hora do
almoço, que era servido por volta da meio dia e meia, eu já estava todo
desarrumado.
- De onde
você vem... da guerra?
Parecia
mesmo. O sapato de duas cores agora possuía uma só: a do barro. A meia idem –
até que combinavam; a camisa pra fora da calça e despenteado. Levava uma
bronca, mas estava feliz. Meu irmão permanecia impecável.
À mesa,
família reunida, grata recordação de minha infância: os pratos que minha avó
cozinhava. As almôndegas, a carne assada na panela de ferro, a galinha da
própria criação, abatida ali mesmo no quintal e preparada ao molho pardo, um
sabor que depois daquela época nunca mais encontrei. E meu prato preferido: o
“bife da vovó” que era um bife coberto por um espesso molho vermelho!
Tardes de
domingo inesquecíveis, com a pureza e inocência em ser criança.
Isso sim é
felicidade!
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