Curitiba da minha infância
Rosi
Caobianco
Curitiba é
nome de expressão indígena, com o significado de “muito pinhão” em guarani.
Pinhão, semente do pinheiro, árvore alta, majestosa, chamada araucária. Saudade
traduz toda a emoção em relembrar da infância na cidade onde nasci, cresci e
vivi até migrar para Santos.
Comer pinhão
é prazer dos melhores, seja ele cozido ou assado na brasa. E o mais lúdico é
garimpar os pinhões que caem ao chão pelos campos ou onde quer que estejam.
Milhares de vezes fiz isso e para quem aprecia esta iguaria, é surreal saborear
um a um.
Nada do que
vivi supera aqueles tempos de infância, de amor sincero, de filha mimada, a
“polaquinha” do papai. É assim que meu pai me chama ainda hoje, algumas vezes,
até por telefone quando falo com ele nos finais de semana. Afinal, Santos está
a mais de quatrocentos quilômetros da família que tanto prezo e estimo.
Durante toda
minha infância, tivemos uma vida regrada, não dispusemos de luxo algum. Pelo
contrário, foram tempos de muito sacrifício por parte de meus pais, mas havia
um amor incondicional, impagável do pai carinhoso que tenho. Minha mãe era mais
brava e quando muito irada, depois das mácriações, corria atrás de mim com uma
varinha horrorosa. Felizmente, raramente me pegava, eu era mais rápida. Meu pai
não costumava passar a mão na cabeça, mostrava o que era certo ou errado, só
olhava sério e sabia compensar os bons momentos.
Tínhamos
quintal em casa, animais de estimação e árvores frutíferas. A que mais
aproveitamos foi uma pereira linda que todos os anos nos presenteava com seus
frutos.
Meu pai nos
levava, eu e meu irmão chato, para passear no “Passeio Público”, um
mini-zoológico no centro de Curitiba. Fazia isso sempre no domingo pela manhã
para que minha mãe pudesse fazer o almoço com tranqüilidade. Ela nos arrumava e
saíamos felizes. Ao chegar lá, pausa para foto. Hilária, em um cavalinho tipo
pônei, toda bonequinha, de vestido, laço de fita nos cabelos, meia ¾ e sapato
de fivela. Depois, claro, íamos alimentar os peixes e patos do lago com
pipocas. Era uma festa para as crianças que, assim como nós, aglomeravam-se em
volta do lago.
Engraçado
também era ver meu irmão tropeçando na bota ortopédica que teve que usar. Ele
odiava aquilo e com razão, era muito feia mesmo.
Com minha
mãe, recordo-me que toda sexta-feira à tarde, ela nos pegava pelas mãos e
seguíamos para a novena de São Judas Tadeu em uma rua paralela à linha do trem,
perto de minha casa. Nossa, que saudades! Emociono-me até, são tempos que
ficaram registrados na memória e em poucas fotos, tempos que infelizmente não
voltam mais.
Fui
alfabetizada muito cedo. A escolinha ficava a uma quadra de casa e chamava-se
“Bem-me-quer”. Lá estudei do pré-primário até o término do ginasial. Lembro-me
muito bem da tia Alda e da tia Irene, a primeira diretora e a outra professora
do colégio. Até lá fui mimada. No segundo grau, estudei no Colégio Nossa Senhora
Menina, onde também tive uma boa formação. Depois fui para o cursinho e em
seguida para a faculdade.
Aos
dezesseis anos, ingressei no curso de Biologia da PUC, fui bancária, casei e
quinze anos depois retornei ao banco escolar para cursar Publicidade e por
último Jornalismo. Achei que poderia recomeçar, não me intimidei com as
negativas e passei a conviver novamente com jovens, Orkut, novas mídias como a
internet e programas de tratamento de imagens e de textos. No jornalismo, senti
necessidade de exteriorizar meus sentimentos e aperfeiçoar a escrita. Também
adoro artes plásticas, fruto de um incentivo que recebi lá de trás, do colégio
“Bem-me-quer”, dos trabalhos escolares que representaram toda minha infância. E
hoje, a fotografia, um congelamento de imagens e do tempo que se perpetuarão na
minha visão de mundo.
Esta sou eu,
emoção e razão. Sensibilidade e transparência. Um bebê ainda, diante da
imensidão do futuro e do que ainda quero vivenciar, do desejo de ser feliz com
todos os pequenos momentos e guardar só o que vale a pena. O que não for,
colocar em uma caixinha de aborrecimentos e abandonar para trás. Deixar o tempo
decompor naturalmente os períodos ruins. O que fica são as coisas boas, as
amizades que fazemos, o resto acaba com menos importância.
Desta vida
levamos o melhor de nós, mas tenho consciência de que também já errei muito
procurando acertar. Sou a durona que também cede, também chora, também ri,
também surta, afinal, sou um ser um humano como todos os outros, de carne e
osso, não uma figurante e sim um personagem no livro da vida. Da vida que
merece ser vivida. Uma vida que nasceu em Curitiba, fruto de dois incansáveis
seres, meu pai e minha mãe, um porto seguro, meus amados amores.
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