Uma lembrança do tempo de infância
Antonio
Taveira
Mamãe nos
avisou que no dia seguinte, domingo de manhã, íamos visitar a Tia Albertina.
Minha irmã e eu ficamos eufóricos, pois titia morava no Monte Serrat e
estávamos curiosos para conhecê-lo. Logo cedo, pegamos o bonde para a cidade,
nossa aventura começara.
Dia de
passeio, tudo é festa: o trajeto do bonde, a passagem pelo cais e os prédios do
centro. Na chegada ao Monte Serrat, o bondinho que sobe o morro acabara de
sair, teríamos que esperar mais meia-hora para pegar o próximo. Papai propôs
que fôssemos pela escada, nós aceitamos na hora, mamãe não se opôs e lá fomos
todos enfrentar os mais de 400 degraus. Como criança não se cansa, agüentamos
bem a subida sem reclamar e meus pais, ainda novos, não tiveram problemas com o
desafio.
Ao chegarmos
lá em cima, logo vimos a casinha branca que ficava no ponto mais alto do morro.
Após cumprimentar os tios, fomos explorar o terreno, que mais parecia um sítio
de tão grande que era. Os fundos davam para a encosta do morro e a extensão de
sua vista não tinha fim. Podíamos ver a cidade de Santos até a praia e, mais
para o lado, os prédios do Guarujá.
Titio
comentou que era criador de pássaros e perguntamos onde estavam as gaiolas. Ele
respondeu que não tinha, pois criava os pássaros em liberdade, e levou algumas
frutas cortadas até uma madeira colocada em uma árvore. Durante a manhã toda,
vimos uma desfile de sabiás, canários, bem-te-vis, beija-flores e um pássaro que
achei o mais lindo e me lembro até hoje, todo preto com a cabeça vermelha, de
nome tié-sangue.
Goiaba,
carambola, jabuticaba, abacate eram as árvores frutíferas que tinham na casa, e
minha irmã e eu subimos e comemos das frutas que estavam maduras. E tinha mais:
nas plantações de abóbora, batata doce, milho e cana de açúcar, corríamos a
brincar de esconde-esconde e pegador.
Titia nos
chamou para um lanche. Pães, bolo, doce de batata doce e espiga de milho verde
cozida, hum! que delícia, e para beber, lógico “garapa”, pois titio tinha uma
moenda de cana de açúcar no barracão ao lado da casa.
A manhã
passou rapidamente e já estava na hora de irmos embora. Após as despedidas aos
tios e promessas de retorno (que infelizmente não aconteceram), ganhamos um prêmio:
vamos descer de bondinho. Que farra, que alegria!
No retorno
para casa, relembramos os felizes momentos que tivemos neste passeio e o
cansaço e o doce sacolejar do bonde nos fizeram dormir no banco até chegarmos a
nosso ponto de descida.
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