Acerto de contas
Ana Lucia Santos
Matheus teve uma infância tranqüila, como tantas outras
crianças crescidas em cidades pequenas. Pelo menos esse era o seu ponto de
vista. Não havia grandes problemas sob o olhar do menino. Brincava pelos
pomares da grande fazenda, próximos da também grande casa, de onde entrava e
saía livremente.
Sabia que os pais eram apenas empregados no local, mas isto
não o impedia de brincar entre as jabuticabeiras que cresciam bem cultivadas.
Tinham as marcas das mãos do pai e de outros empregados. Foi lá, na frente da
casa grande, onde enormes samambaias pendiam de xaxins, em frente a essas
mesmas samambaias “testemunhas”, que seus pais foram enxotados, da noite para o
dia, quando acusados de ladrões pelos patrões. Acusaram propriamente o pai, de
ter roubado todo o dinheiro destinado ao pagamento dos empregados. Não se sabe
como, depois de apurada busca, passado algum tempo, o dinheiro foi encontrado
no quarto do sr. Quirino, pai de Matheus. As palavras do patrão foram duras,
ferinas, humilhantes. Seus pais saíram cabisbaixos, sua mãe chorava. A tudo o
menino assistia.
No dia daquela expulsão, Matheus soube, se não apenas
pressentiu, teriam ficado para trás as alegrias das festas, dos arrasta-pés que
levantavam poeira, onde os adultos bebiam da boa cachaça. Onde se dançava ao
som do acordeom nas festas juninas, onde se comia pinhas, amêndoas, doces de
abóbora e coco.
Saíram sem nada, praticamente com a roupa do corpo. Pai, mãe
e cinco filhos. Saíram à noite. Matheus olhava para trás. Primeiro via as
luzes. Depois, só trevas. As mesmas trevas que nublaram os seus pensamentos
durante muitos anos.
Agora, anos depois, retornava ao local.
Entre a saída e o retorno, as lembranças da dura vida dos
pais, que se consumiram na luta diária, tentando ganhar o pão para o sustento
dos filhos. Não podia esquecer a tristeza da mãe, a humilhação e a mágoa do pai
pela injustiça que tinha sofrido pela vergonha que, para um homem de caráter,
era como se tivesse sido mutilado, ou ferido de morte. O fato é que o sr. .
Quirino não se reergueu mais.
Entre pequenos trabalhos, aqui e ali, o adoecimento precoce.
Pneumonia, os médicos disseram, seguida de tuberculose. Resistiu poucos anos
após a grande decepção.
A mãe tomou para si o encargo de criar os filhos. Lavava
roupa pra fora, trabalhava como doméstica. Seguiu carregando sua cruz. Os
filhos cresceram, também seguiram em frente. Destinos previstos, anunciados,
das periferias das grandes cidades. Vida comum, pobre, precária, muitos filhos,
sofrimento.
Matheus, o terceiro filho, guardava na memória os dissabores
do pai. Concentrou-se neles, jurou para si mesmo vingar-se. E agora era chegada
a hora.
Olhando o pêndulo do relógio na parede da grande sala, ela já
não lhe parecia tão grande. Nem a sala nem o relógio. Talvez o fosse, aos olhos
de um menino pequeno. O olhar agora era do homem.
Mas a casa, de fato, era de pessoas ricas.
Anunciou sua presença, se denominou representante comercial,
novos insumos para a lavoura, melhor produtividade, maiores lucros. Novas
perspectivas.
Logo apareceu o sr. Evaristo. Homem alto, branco, barriga
proeminente, bigodes e lábios grossos, olhos claros e pele avermelhada.
Matheus olhou direto nos olhos do dono da grande casa, que
logo lhe perguntava o que de novo trazia. Teria amostras grátis que garantissem
a eficiência dos novos insumos para a lavoura?
Matheus manteve os olhos firmes nos olhos claros do homem.
Por um lapso de tempo, se perguntou o que fazia ali. A resposta lhe veio
imediata. Talvez fosse um sentimento de vingança o que impulsionava o outrora
garoto e agora homem a voltar àquele lugar. Ou talvez um senso de justiça, o
que o levou a levantar a arma que estava em sua mão e a apontar firmemente na
direção do ex-patrão de seu pai. Em qualquer das hipóteses quanto às causas, o
resultado final seria o mesmo.
Tudo se transformaria daqui pra frente, seria como a chegada
do apocalipse em sua vida. Apocalipse tantas vezes invocado pela mãe quando
pegava a bíblia e falava do final dos tempos. Matheus não sabia se seria ao
mesmo tempo para todos o final dos tempos. Sabia sim, que para o sr. Evaristo
seria agora. Para ele, talvez um pouco depois.
Com esse pensamento e a arma apontada, falou: - Trago
amostras grátis sim e vendo justiça. Sou o filho do sr. Quirino, aquele homem
com a vida de quem o senhor acabou quando o escorraçou daqui há quase quinze
anos. Trago de graça também uma informação. Ele era inocente, o sr. sabia?
Para sua surpresa, o dono da fazenda, com olhos arregalados e
perplexos, acenou afirmativamente com a cabeça.
Matheus não entendeu o gesto. Veio um lapso de dúvida. Dizia
agora que sabia da inocência do pai para poupar a própria vida? Ou sabia mesmo
e ainda assim o havia expulsado daquele jeito? Não importa. Também agora, em
qualquer das hipóteses, o resultado seria o mesmo.
Mirou bem a pontaria e atirou. Uma, duas, três vezes. Virou
as costas e saiu.
Não olhou para trás, não quis. Teve mede de ver novamente as
trevas que se sobreporiam às luzes, à distância.
Não viu quando, aos gritos, vieram socorrer o sr. Evaristo.
Inutilmente, ele já caído inerte. A vida se esvaindo.
Matheus, à distância, se perguntava se o homem de fato sabia
da inocência do pai. Pensava que trama teriam armado para imputar a culpa a um
empregado tão dedicado e honesto como sr. Quirino.
Teve raiva. O maldito do ex-patrão lhe deixara essa dúvida. E
a dívida. Agora não tinha mais como cobrar.
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