13 setembro 2011

Diamante Negro,



Exemplo de crônica: Diamante negro, de Eliana Pace

Era uma balzaqueana, como diriam meus avós, sensual até mesmo em seu excesso de peso, os cabelos loiros à custa de muita tintura. Ninguém sabia bem o que fazia, como e onde. Devia viver só. De seu apartamento não saiam risos de crianças, broncas de marido, cantorias de empregadas.

Não tinha hora para sair ou entrar. Quando nos encontrávamos no hall do elevador, bem raramente, diga-se de passagem, nos cumprimentávamos amavelmente. - Bom dia, que belo sol, não? - Boa tarde, que chuva...

Não lembro de tê-la visto nas reuniões de condomínio, nem no supermercado do bairro, nem na farmácia da esquina. Nunca bateu na minha porta para pedir uma xícara de açúcar ou para usar o telefone. Se não fosse seu tipo espalhafatoso, eu diria que era uma mulher muito, muito discreta.

Uma manhã, ao acompanhar meu marido até o elevador, notamos uma atitude estranha no apartamento ao lado. Foi só abrirmos a nossa porta para a dela se fechar subitamente. Olhamo-nos intrigados, nos despedimos com carinho, ele tomou o elevador e eu entrei.

Três ou quatro dias depois, a situação se repetiu. E uma vez mais, e outra e outra. Percebemos então que o horário coincidia - a porta dela se fechava abruptamente às 8 horas em ponto, no momento em que meu marido saia de casa para o trabalho. Por mais que eu tentasse especular o que poderia estar acontecendo com a vizinha do apartamento ao lado, não conseguia. Depois daquele horário, nenhum movimento, nenhum ruído.

Quinze dias depois, saimos, o casal, para um compromisso conjunto às 8h30. Quando abrimos a porta do apartamento, não havia mais tempo para que ela entrasse ou escondesse seu segredo: o amante negro que, cabelos molhados e cheiro de lavanda, trocava com a loira robusta as últimas caricias explicitas de uma intensa noite de amor...

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