Homem no mar - Rubem Braga - Janeiro, 1953
De minha
varanda vejo, entre árvores e telhados, o mar. Não há ninguém na praia, que
resplende ao sol. O vento é nordeste, e vai tangendo, aqui e ali, no belo azul
das águas, pequenas espumas que marcham alguns segundos e morrem, como bichos
alegres e humildes; perto da terra a onda é verde.
Mas percebo
um movimento em um ponto do mar; é um homem nadando. Ele nada a uma certa distância
da praia, em braçadas pausadas e fortes; nada a favor das águas e do vento, e
as pequenas espumas que nascem e somem parecem ir mais depressa do que ele.
Justo: espumas são leves, não são feitas de nada, toda sua substância é água e
vento e luz, e o homem tem sua carne, seus ossos, seu coração, todo seu corpo a
transportar na água.
Ele usa os
músculos com uma calma energia; avança. Certamente não suspeita de que um
desconhecido o vê e o admira porque ele está nadando na praia deserta. Não sei
de onde vem essa admiração, mas encontro nesse homem uma nobreza calma,
sinto-me solidário com ele, acompanho o seu esforço solitário como se ele
estivesse cumprindo uma bela missão. Já nadou em minha presença uns trezentos
metros; antes, não sei; duas vezes o perdi de vista, quando ele passou atrás
das árvores, mas esperei com toda confiança que reaparecesse sua cabeça, e o
movimento alternado de seus braços. Mais uns cinqüenta metros, e o perderei de
vista, pois um telhado a esconderá. Que ele nade bem esses cinqüenta ou
sessenta metros; isto me parece importante; é preciso que conserve a mesma
batida de sua braçada, e que eu o veja desaparecer assim como o vi aparecer, no
mesmo rumo, no mesmo ritmo, forte, lento, sereno. Será perfeito; a imagem desse
homem me faz bem.
É apenas a
imagem de um homem, e eu não poderia saber sua idade, nem sua cor, nem os
traços de sua cara. Estou solidário com ele, e espero que ele esteja comigo.
Que ele atinja o telhado vermelho, e então eu poderei sair da varanda
tranqüilo, pensando — "vi um homem sozinho, nadando no mar; quando o vi
ele já estava nadando; acompanhei-o com atenção durante todo o tempo, e
testemunho que ele nadou sempre com firmeza e correção; esperei que ele
atingisse um telhado vermelho, e ele o atingiu". Agora não sou mais
responsável por ele; cumpri o meu dever, e ele cumpriu o seu. Admiro-o. Não
consigo saber em que reside, para mim, a grandeza de sua tarefa; ele não estava
fazendo nenhum gesto a favor de alguém, nem construindo algo de útil; mas
certamente fazia uma coisa bela, e a fazia de um modo puro e viril.
Não desço
para ir esperá-lo na praia e lhe apertar a mão; mas dou meu silencioso apoio,
minha atenção e minha estima a esse desconhecido, a esse nobre animal, a esse
homem, a esse correto irmão.
Extraído do
livro "A Cidade e a Roça", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964,
pág. 11
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