Era uma vez um gato xadrez
Ana Lucia
Santos
Era manhoso
e mimado como todo gato é. Só que esse não era gato e sim gata.
Nina, a
gata, era tratada a pires de leite, embora só comesse ração.
E gato
xadrez é força de expressão.
Nina era
tricolor. Branca, cinza e amarela, do tipo rajada. As pontas das patas eram
brancas e fofas, como patas de bichos de pelúcia.
Esgueirava-se
e era mimada. Parecia saber disso e abusava.
Perseguia
pequenos insetos com ares de caçadora. Dentro da casa.
Um dia, no
seu tempo certo, resolveu se esgueirar para a vida noturna.
Sofreu, a
gata que era mimada. Muitos obstáculos.
Olhava com
seus olhos cor de mel pelos pequenos vãos em forma de losangos da rede da
janela. Roçava-se, patas colocadas pelos vãos, não alcançava a mureta, nem o
telhado. Nem os gatos da vida. Olhou ao redor, ouviu passos e ruídos de molho
de chave.
-Eles vão
sair, pensou (essa gata pensava).
Adiantou o
passo, correu tentando alcançar a porta, era sua chance.
Pernas pelo
caminho, obstáculos, a porta fechou, que sina!
Nina voltou
desconsolada pra sua vida encolhida.
Pensou
novamente (como eu disse, essa gata pensava):
- Como
encontrar os gatos da rua.
Cabeça na
janela, olho brilhando. Vidrado como bolas de gude.
Atenta para
nova oportunidade, Roçava, miava, se esgueirava cada vez mais.
Cadê os
donos da gata mimada? Que não quer mais a vida encolhida, quer vida de gata de
rua?
Mais uma
chance, a porta se abre, Nina corre. Pula arranha, alguém grita:
- Nina, pega
a gata, fecha a porta!
Dessa vez
não deu pros donos da gata. Nina, mais esperta, mais apertada pelos chamados da
vida noturna, conseguiu sair.
Ganhou o
mundo, ganhou a vida, diurna e noturna.
Na casa, um
corre-corre, criança chorando, adultos tristes, dias passando, noites passando.
Longos
miados noturnos na vizinhança.
Nina passeia
na rua rebolativa, iluminada pelas luzes dos postes.
Luzes que
mostram um bonito cartaz. Uma linda foto.
Gatinha
rajada com as pontas das patas brancas e fofas, como um bichinho de pelúcia. Em
baixo da foto os dizeres:
- Você viu
esta gatinha? Criança doente. Damos recompensa!
Nina
arregalou os olhos, que ficaram mais brilhantes e mais vidrados.
De repente,
num salto e numa longa disparada, correu pra muito longe, pra longe da vida
encolhida.
Na casa, a
busca e a espera.
-Ela vai
voltar, diziam. Os gatos sempre voltam pra casa.
Os dias
passaram, as semanas passaram, os meses passaram. Nina, a gata mimada, não
voltou. Na casa, a frase mudou.
- Que gata
ingrata, não volta mais!
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