Gato xadrez
Sergio Teles
Fernandes Lopes
Carnaval,
feriado prolongado a vista.
Estica
daqui, emenda dali e como um jogo de xadrez, consegui um cheque mate: sete dias
corridos de folga. Não pensem que foi fácil, tive que contar com a
“camaradagem” de um colega de trabalho que se prontificou a me substituir
nesses dias. Quando ele precisasse, eu retribuiria o favor!
Fazia tempo
que não tirava tantos dias fora das férias só para mim. Decidi aproveitar ao
máximo indo para o Interior, para a chácara de meu irmão e assim curtir a
natureza e tudo que ela nos traz de bom, como a tranqüilidade, coisa tão
difícil nos centros urbanos.
Minha
primeira dificuldade: arrumar a mala. O que levar? Eu pouco viajava e já iam
bem uns anos que eu não a via. Bem pensado, onde a mala estaria? Remexi meu
closet e sob cobertores a encontrei. Vencido esse obstáculo, fui colocando
dentro tudo que eu acreditava ser necessário: meias, cuecas, bermudas, etc.
Antes que eu esqueça, coloquei um casaco leve, afinal de contas, mesmo estando
em pleno verão, a temperatura poderia cair um pouco. Coloquei também produtos
para minha higiene pessoal, porém, aparelho de barba nem pensar, deixaria a
pele descansar.
Como não
poderia deixar de ser na bagagem de um executivo, mesmo de férias, não faltaria
meu MP5 e o notebook, meus fiéis companheiros, lembrando, é claro, que ambos
são o que há de mais moderno no mercado - meu note é fantástico, me conecta com
o mundo mantendo-me informado sobre tudo o que está acontecendo. Como garantia,
comprei duas baterias reservas, estando eu livre de qualquer problema de falta
de energia que pudesse ocorrer.
Tudo pronto
e checado, era hora de partir. Graças ao compromisso firmado na empresa com meu
“bem-feitor”, quinta-feira, no primeiro horário, eu já estava na estrada,
sentindo-me um privilegiado. Nada de trânsito, eu guiava tranqüilo só
imaginando como a estrada estaria na sexta-feira, véspera do Carnaval,
certamente caótica.
Antes do
meio-dia, já guardava meu carro na garagem de onde só o tiraria dali uma
semana. Desci do carro, estiquei as pernas e os braços num alongamento
perfeito! Aspirei com vontade aquele cheiro de grama cortada, inflando meus
pulmões com o ar puro, típico do interior. Que delicia!
Abraços e
beijinhos, instalei-me no quarto. Joguei a mala sobre a cama e fui logo procurando
uma tomada para ligar meu computador e me atualizar sobre os últimos
acontecimentos.
- Paulo,
Paulo... – era minha cunhada chamando – Vem tomar um cafezinho passado agora.
Café e pão
de queijo. Quer combinação melhor depois de uma estrada?
Batemos um
papo rápido e voltei logo ao quarto pra colocar uma sunga e curtir a piscina,
mas não sem antes dar uma nova espiadinha, vai que chegou algum e-mail.
Novamente
fui interrompido...
- Você não
vem? O sol tá gostoso...
- Já estou
indo! Respondi meio que invocado.
E assim,
quando dei por mim, já eram três da tarde e o almoço ia ser servido. Sabe como
é, uma noticia aqui, uma informação ali, a bolsa, a crise econômica...
E assim
foram meus dias até sábado, não diferentes dos vividos na metrópole. Ficava vidrado
na tela do meu notebook e minhas frases, melhor ainda, minha frase, tornou-se
um jargão – Já estou indo, só mais um pouquinho. Minha cunhada já havia
desistido.
No domingo,
o dia amanheceu radiante e após um café reforçado, o pessoal da casa foi dar
uma caminhada em um parque próximo, como de costume.
- Vamos
também, Paulo?
- Já estou
indo... Alcanço vocês.
Mal saíram e
eu já estava sentado à frente do computador. Abri meus e-mails, começando
primeiro com os do trabalho, onde meu “bem feitor” avisava que tudo correra
bem. Depois, os dos amigos, como sempre com muitas correntes, mensagens,
ofertas, propagandas, uma coisa ou outra. Entre eles, um chamou-me a atenção.
No assunto, o titulo “gato xadrez” vindo de um endereço conhecido que fui logo
abrindo.
Na tela
apareceu o desenho de um gato gordo com o pelo xadrez em preto e branco
lembrando um tabuleiro, não é que o danado era simpático? Com um sorriso
cínico, ele piscava o olho esquerdo, levando-me a rir. Porém, meu sorriso logo
foi desaparecendo ao observar que cada quadradinho do xadrez de seu pelo
começava a escorregar pelos lados da tela até que ele sumiu totalmente, dando
lugar à mensagem: Não fique triste, afinal gato xadrez não existe.
Um frio
correu minha espinha e quase fui tomado de pânico ao descobrir que a memória de
meu computador tinha sido destruída - minha sorte é que, como bom internauta,
sempre faço back-up. O gato xadrez não era nada mais nada menos do que um vírus
novo, poderoso.
E lá estava
eu, naquele lugar, sem computador, sem conexão com o mundo.
Meus
familiares, ao voltarem da caminhada, se depararam comigo de mau humor mas,
conversa vai, conversa vem, fiquei sabendo das fofocas de família num
descontraído bate papo. Quando minha cunhada anunciou o almoço, eu já estava
mais conformado. Para surpresa de todos e sem que eu precisasse ser chamado, já
estava me refrescando na piscina, olhando as montanhas à volta e respirando
aquele ar puro, inconfundível.
À noite pude
observar o céu. Que maravilha, era incomparável, parecia um tapete de estrelas
que só podiam ser vistas lá no Interior, pois o manto da poluição e iluminação
das grandes cidades esconde esta maravilha.
E assim
seguiram os dias.
Aproveitei
para ler o livro que ganhei no Natal e que ainda estava no embrulho da livraria.
Pouco antes de retornar à cidade, eu era outro. Sentia-me mais leve, integrado
àquela paisagem, à natureza, estava renovado! Indiretamente, o que a principio
me parecia ser o caos, havia se tornado um beneficio, afinal, o gato xadrez,
pelo menos naqueles dias, permitiu-me estar mais ligado à minha família. Hoje
agradeço ao gato xadrez que, embora não existindo, fez com que eu redescobrisse
a existência de coisas mais importantes do que um computador ou a rede como,
por exemplo, minha família!
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