- Pru causo de quê? – Pergunto Nhô Laudelino.
Antonio
Taveira
A festa
corria solta. O povoado compareceu todo, afinal, era a festa mais popular da
região. Os mais velhos sentados às mesas, degustando os quitutes deliciosos que
as barraquinhas se esmeravam em oferecer. Principalmente a torta de AMÊNDOA que
Dona Cotinha fazia com todo carinho. Os jovens faziam um ARRASTA-PÉ improvisado
no chão de terra batida, ao som do Grupo de Forró do Lobão, e as crianças
corriam e brincavam com estalinhos e outras traquinagens. A decoração estava
muito bonita como sempre. As bandeirolas cortando todo o espaço da grande
barraca de lona, e as bromélias presas aos tuchos de XAXIM, davam uma agradável
sensação àquele espaço. E no canto, alheio à toda agitação, aquele grupo de
homens bebericava um licor de JABUTICABA e proseava.
- POCALIPSE!
– Profético, respondeu Nhô Bento! Todos curvaram-se para a frente para ouvir
melhor, seus olhos pareciam que saltariam do rosto.
- Ara , Nhô
Bento, que troço é isso? - Emendou Ditinho.
- É o fim
dus tempo, continuou Nhô Bento. Todos sabiam que quando o Coroné chegasse lá,
sua VINGANÇA, tornaria aquela fazenda que tinha o nome de Santa Gertrudes em
TREVAS.
- Conte logo
tudo isso. - Apressou Nhô Laudelino.
- Carma sô!
As mininas gêmias, filhas do Coroné, sempre foram muito espevitadas e arteras,
também pudera, o trabaio que dero pra nasce, levaram sua mãe pra junto di Deus,
e dexaro o Coroné criando elas suzinho, além di cuida de toda aquelas terras
que pareciam num te fim.
- Tudo
começô, quando chegaro aqueles dois peão que vinheram da cidade, e foram
trabaiá na fazenda. As mininas, já não tão mininas assim, conheceram os moço e
garraram a ouvir suas história da cidade grande.
- Cumpadi!
Bote mais um poquinho desse licor que já to cá garganta seca.
- Co essas
história, as mininas foram ficando cas cabeça cheias das idéias, di ír pra
conhece a tar da cidade grande. Mas vixi que o Coroné ia dexá. Queria as filha
bem pertinho dele, e nenhum cabra safado cercano suas querida.
- Mas as
mininas foram criando a idéia di fugi cos peão. Prepararo a viage pra uns dias
dispois à noite. Iam pra estação, pegá o trem noturno pra capitar.
- O Coroné,
continuou, naquela noite, tava se sentindo meio isquisito. Sento na sala e tava
tomano uma cachacinha. Com sodade de sua muié, fico prestano atenção no vai e
vem do PÊNDULO que tinha no carrilhão di casa, e cabo dormecendo. Cordô di
madrugada, e foi vê se as mininas tava drumindo. No quarto as cama tava rumadas
e nada delas. Prucura daque prucura dali, preguntô pra todo mundo, e ninguém
sabia di nada. Chamo toda peãozada, quando percebeu que os novo peão, também
num tavam.
- Descunjuro
esses dois se tivero feito arguma coisa cas minhas mininas!
- Botô na
caminhonete seus miores home, e foi pra vila, onde fico sabeno que elas tinha
pego o trem.
A atenção
dos homens estava em Nhô Bento, além da sua voz, parecia que não nada tinham em
seu redor. Uma rodada mais de licor foi servida, e ele continuou.
- No caminho
pra Capitar, o Coroné ia pensano, pru quê elas tinha feito aquilo? Deve di te
sido coisa daqueles dois, num tinha ido muito co jeito deles, mas fôro mandado
pelo cumpadi Venâncio, num diviam di se ruim. MAGOADO, foi pensano e alembro
qui as minina pediro pra modi vir visita a capitar, mas não dexo, i agora tava
rependido.
- Prá sorte
du Coroné, numa cidadi du caminho, o trem demoro pra carrega di água e chego
trasado, e ele assim qui botoô os pé na istação, viram as mininas saindo do
trem cos peão.
- As mininas
quando viro o pai, começaro a treme qui nem vara verde, e ele falo:
- Mias fia,
quero pedi discurpa por nunca ter trazido oces pra cá, e vamu aproveita qui
tamo aqui pra passiá. As mininas deram um largo sorriso e correram abraça o
pai.
- Dispois o
Coroné virou prus seus home e disse: Leva esses dois, dá uma coça bem dada, e
joga eles em quarque lugar e voltem pra fazenda, eu vô fica aqui cás minina.
- Os dois,
concluiu Nhô Bento, dizem que ficaro um mês sem pode senta e nem durmi di
costa, ca coça qui levaro.
As cabeças
dos ouvintes fizeram um movimento de aprovação ao castigo dado.
Ao fundo um
acordeão “cantava”:
Quando olhei
a terra ardendo, qual fogueira de São João...
0 comentários:
Postar um comentário