O Mestre que Amava “Drummond”
Valéria Ribeiro
O professor
de administração era um homem culto, além de muito elegante, mas um dos seus
melhores atributos era amar a poesia de Carlos Drummond de Andrade.
Ele sempre
chegava na classe, colocava a chave do seu carro em cima da mesa e antes de
começar a matéria pertinente à disciplina de administração, lia. ou melhor,
recitava Drummond:
“ Quem teve
a idéia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um
individuo genial.
Industrializou
a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses
dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre
da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de
acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”.
Dizia que
era um estímulo a vida do cotidiano, pois um administrador, muitas vezes é
obrigado a lidar com a rotina do trabalho e com a frieza dos números, mas perto
de Drummond, com certeza, todos encontrariam um objetivo maior do que a
limitação da burocracia.
Eu adorava
esse professor, até que um dia algo me intrigou: ele chegou para ministrar sua
aula e a chave do seu carro estava com um chaveiro de POMPOM. Era um chaveiro
indiscreto, o pompom era enorme na cor verde alaranjado, destoava daquele
professor tão refinado. Confesso que neste dia não consegui prestar atenção na
poesia que foi recitada, pois meus pensamentos ficaram presos ao chaveiro de
pompom.
Passados um
mês dessa aula de estréia com o chaveiro de pompom, eu não resisti, precisava perguntar
ao nobre mestre a razão da existência desse pompom. Qual seria a mensagem para
nós, futuros administradores? Entretanto, como não tinha coragem de abordá-lo
para fazer uma pergunta tão abusiva, resolvi furtar o pompom para
posteriormente entregá-lo, como uma pessoa de alma boa que devolve o objeto
perdido do mestre querido.
E assim fiz,
discretamente, ao final da aula, quando todos os alunos rodeiam o professor
para fazerem as mesmas perguntas que já foram respondidas na aula. Aproveitei a
distração de todos e surrupiei o chaveiro de pompom, deixando a chave jogada na
mesa.
Na próxima
aula, assim que o meu mestre querido entrou na sala, eu me aproximei e
ansiosamente falei:
- Professor!
Tenho uma boa notícia! Achei o seu chaveiro de pompom, estava no chão, ele deve
ter um significado para o senhor?
- Sim, ele
impede que eu esqueça a chave do carro, por ser tão grande e esquisito, mas
muito obrigado.
Depois disso
percebi que até os mais inteligentes têm atitudes comuns, mas, no meu caso ,
tive uma atitude alucinada e medíocre. Como pude furtar o pompom, como pude
perder a atenção nas aulas, por causa do pompom? Acho que essa é a nossa
diferença, ele se preocupa com a mensagem de Drummond e eu com a mensagem do
pompom.
E para a
minha surpresa, nesta aula eu entendi porque o professor amava Drummond:
“ Era o
início da tua melhora...
Onde você
quer chegar? Ir alto?
Sonhe
alto... Queira o melhor do melhor...
Se pensarmos
pequeno... Coisas pequenas teremos...
Mas se
desejarmos fortemente o melhor e, principalmente, lutarmos pelo melhor...
O melhor vai
se instalar em nossa vida
Porque sou
do tamanho daquilo que vejo, e não do tamanho da minha altura”
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