28 fevereiro 2013

A CONTADORA DE HISTÓRIAS FABIANA PRANDO SUGERE:

As três fiandeiras

Era uma vez uma moça preguiçosa, que não queria fiar. A mãe podia falar o que quisesse, que não conseguia convencê-la a trabalhar. Finalmente a mãe ficou zangada e impaciente, a ponto de dar-lhe umas pancadas, e a moça começou a chorar em voz alta. Naquele momento, a rainha ia passando por ali, na sua carruagem, e quando ouviu o choro, mandou parar, entrou na casa e perguntou à mãe por que ela batia tanto na filha, que se ouviam os gritos na rua. Então a mulher ficou com vergonha de confessar a preguiça da filha, e disse:

– Eu não consigo fazê-la parar de fiar, ela quer fiar o tempo todo, e eu sou pobre e não posso arranjar tanto linho.

Então a rainha respondeu:

– Não há nada de que eu goste mais do que ouvir fiar, e nada me dá mais prazer que o ronronar das rodas da roca. Deixe-me levar a sua filha comigo para o castelo, eu tenho linho à vontade e ela poderá fiar quanto quiser.

A mãe concordou de todo o coração, e a rainha levou a moça consigo.

Quando chegaram ao castelo, ela levou a moça para três quartos que estavam cheios do mais belo linho, de alto a baixo.

– Agora, fia-me este linho, disse ela, – e quando o terminares, terás meu filho mais velho por esposo. Mesmo que sejas pobre, eu não me importo: a tua valente diligência é dote suficiente.

A moça assustou-se por dentro, pois não poderia fiar aquele linho, ainda que vivesse até trezentos anos e ficasse todos os dias fiando desde a manhã até a noite. E quando ficou sozinha, ela começou a chorar e ficou assim três dias, sem mover um dedo.

No terceiro dia, chegou a rainha, e quando viu que nada tinha sido fiado, admirou-se muito. Mas a moça desculpou-se, dizendo que não conseguira começar a trabalhar, por causa da grande tristeza que a separação da mãe lhe causara. A rainha aceitou a desculpa, mas disse ao sair:

– Amanhã tens de começar a trabalhar!

Quando a moça tornou a ficar sozinha, não sabia o que fazer e, na sua aflição, foi para a janela. Aí ela viu três mulheres chegando. Uma tinha um pé largo e chato, a segunda tinha um beiço tão grande que lhe caía por cima do queixo, e a terceira tinha um polegar muito largo. Elas pararam embaixo da janela, olharam para cima e perguntaram à moça o que ela tinha. Ela queixou-se da sua infelicidade. Então elas lhe ofereceram a sua ajuda e disseram:

– Se nos convidares para o teu casamento, nos chamares de primas, sem te envergonhares de nós, e nos puseres à tua própria mesa, nós te fiaremos todo o linho, e num tempo bem curto.

– De todo o coração, – respondeu a moça; – entrem e comecem a trabalhar logo!

E ela deixou entrar as três estranhas mulheres, arranjou-lhes lugar para se sentarem e elas começaram a fiar. A primeira puxava o fio e pisava o pedal da roca, a outra molhava o fio, e a terceira torcia-o e batia com o dedo na mesa, e cada vez que ela batia, caía ao chão uma meada de linha da mais fina fiação.

A moça escondeu as três fiandeiras da rainha, e sempre que ela vinha mostrava-lhe a grande quantidade de linha fiada, e colhia muitos elogios.

Quando o primeiro quarto foi esvaziado, começou o trabalho no segundo, e logo mais no terceiro, até que este também ficou arrumado. Então as três mulheres despediram-se da moça e disseram:

– Não te esqueça do que nos prometeste; isso será a tua felicidade!

Quando a moça mostrou à rainha os três quartos vazios e o grande monte de linha, a rainha preparou tudo para o casamento, e o noivo ficou muito contente, porque ganhava uma esposa tão jeitosa e diligente, e cobriu-a de elogios.

– Eu tenho três primas, – disse a moça, – e como elas me fizeram muita coisa boa, não quero esquecê-las na minha felicidade; permiti-me, pois, que eu as convide para o casamento e as faça sentarem à minha mesa.

A rainha e o noivo disseram: – Por que não permitiríamos isso?

Quando a festa começou, entraram as três mulheres em trajes estranhos, e a noiva disse: –Sejam bem-vindas, queridas primas!

– Ah, disse o noivo, – onde arranjaste essas parentas tão feias?

E ele foi até aquela do pé largo e chato e perguntou:

– Do que lhe vem este pé tão largo?

– De pisar o pedal, – respondeu ela, – de tanto pisar!

O noivo então dirigiu-se à segunda e perguntou:

– Do que lhe vem esse beiço caído?

– De lamber, – respondeu ela, – de tanto lamber!

– E de onde lhe vem este polegar achatado? – perguntou ele à terceira.

– De torcer o fio, – respondeu ela, – de tanto torcer!

Então o príncipe ficou assustado e disse: – De agora em diante minha bela noiva nunca mais tocará uma roca de fiar!

E com isso a jovem noiva ficou livre da odiosa fiação de linho.


In: BELINKY, Tatiana. Os contos de Grimm. SP, Paulus, 2007.

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