12 fevereiro 2013

TÃO BREVE EU TE VEJO 

Por Erika Freire



Conheci um homem que não usa xadrez. Ele fica no canto do bar, às vezes meio escondido, tomando uma cerveja forte, não aquela tradicional, sabe? Tem vezes que ele olha meio de canto, como quem quer se comunicar lá longe, fora dali. Eu queria me aproximar e dizer a ele: te vejo do outro lado. Mas deve haver, em algum momento, uma maneira de fazer diferente.

Ele também não tem facebook. E se tiver email, é só o do trabalho. Usa um tênis que não se fabrica mais e camisetas que alternam as cores. Tem o andar meio desajeitado e quando está parado, gosta de ficar o tempo todo com a mão no bolso.

Gosto de imaginar o que ele pensa, e penso no que ele sente. Seus desejos devem ser do seu tamanho, sensatos e sem frescuras. Mas ele sonha, como não? E vai ao encontro das coisas que mais gosta, mesmo das que são simples como dar um oi a um desconhecido. Ele faz isso, ele acena com a cabeça e te olha firme dizendo coisas.

Queria parar o relógio nesses momentos que fico só observando. Horas e horas eu poderia discutir o quanto é bom ele não estar nas redes sociais, e nem se importar com isso. Quando conheço alguém ao avesso, fico boba.

Tenho dia e hora marcada para encontrá-lo e fica sempre aquela ansiedade de chegar logo. Tem vezes que, da janela, esfrego meus olhos para ver se não é ele do outro lado. Quem sabe o acaso nos presenteia com outros dias da semana?

Esse cara, você nem imagina, ele não faz atividade física e parece ter queimado todas as coisas pré-estabelecidas. Ele vive bem assim, desse jeito meio torto. Sempre continua sorrindo com aquela postura forte. Tem umas mentiras que nos cercam desde a primeira vez. Não mentiras que a gente criou, mas os outros.
Já somos íntimos porque nos demos as mãos. Foi nesse momento que descobri suas intimidades. Eu vi a tensão aumentar e achei bonitinho ver alguém tão firme se acanhar de repente.

Quando ele está indo pra casa, vamos juntos. Geralmente às quinze para as duas da madrugada. Ele nunca fica distraído e eu sei o que vai acontecer antes que eu dê o próximo passo.

Lá vai ele. Daqui a cinco dias ele volta, sempre melhor, caminhando devagar livre e calmo.

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