TÃO BREVE EU TE VEJO
Por Erika Freire
Conheci um homem que não usa
xadrez. Ele fica no canto do bar, às vezes meio escondido, tomando uma cerveja
forte, não aquela tradicional, sabe? Tem vezes que ele olha meio de canto, como
quem quer se comunicar lá longe, fora dali. Eu queria me aproximar e dizer a
ele: te vejo do outro lado. Mas deve haver, em algum momento, uma maneira de
fazer diferente.
Ele também não tem facebook. E se tiver email, é só o do trabalho.
Usa um tênis que não se fabrica mais e camisetas que alternam as cores. Tem o
andar meio desajeitado e quando está parado, gosta de ficar o tempo todo com a
mão no bolso.
Gosto de imaginar o que ele pensa, e penso no que
ele sente. Seus desejos devem ser do seu tamanho, sensatos e sem frescuras. Mas
ele sonha, como não? E vai ao encontro das coisas que mais gosta, mesmo das que
são simples como dar um oi a um desconhecido. Ele faz isso, ele acena com a
cabeça e te olha firme dizendo coisas.
Queria parar o relógio nesses momentos que fico só
observando. Horas e horas eu poderia discutir o quanto é bom ele não estar nas
redes sociais, e nem se importar com isso. Quando conheço alguém ao avesso, fico
boba.
Tenho dia e hora marcada para
encontrá-lo e fica sempre aquela ansiedade de chegar logo. Tem vezes que, da
janela, esfrego meus olhos para ver se não é ele do outro lado. Quem sabe o
acaso nos presenteia com outros dias da semana?
Esse cara, você nem imagina, ele não faz atividade física e parece ter
queimado todas as coisas pré-estabelecidas. Ele vive bem assim, desse jeito meio
torto. Sempre continua sorrindo com aquela postura forte. Tem umas
mentiras que nos cercam desde a primeira vez. Não mentiras que a gente criou,
mas os outros.
Já somos íntimos porque nos demos as mãos.
Foi nesse momento que descobri suas intimidades. Eu vi a tensão aumentar e achei
bonitinho ver alguém tão firme se acanhar de repente.
Quando ele está indo pra casa, vamos juntos. Geralmente às quinze para as duas da madrugada. Ele nunca fica distraído e eu sei o que vai acontecer antes que eu dê o próximo passo.
Lá vai ele. Daqui a cinco dias ele volta, sempre
melhor, caminhando devagar livre e calmo.

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