Crônicas da Infância
Ana Lucia
dos Santos
As
lembranças de um tempo de infância me levam até Vitória, no Espírito Santo. E
levam direto à minha mãe, conhecida como Maria Pequena, que contava histórias
de um tempo em que também era criança. Contava coisas que, cada vez que me
lembro, me parecem pouco prováveis, mas são histórias que cumprem a função de
animar minhas memórias. Como a da morte prematura de seu pai e meu avô causada,
pasme, pelo fato de ter comido ovo. A versão foi amplamente difundida nos anos
seguintes, chegando aos netos e bisnetos.
José
Clemente, esse era o nome do meu avô, era muito jovem. Aliás, com essa
história, entendi que os jovens antigos também eram destemidos, meio sem noção
de perigo. Claro que guardadas as devidas proporções. Tinha de quinze para
dezesseis anos e teria cozinhado ovos, cortado em fatias e fritado. Que
ousadia! Foi fatal, morreu imberbe, antes dos dezessete anos. Daí então, comer
ovos na família, pelas gerações seguintes, só com muita cautela. Até hoje não
como ovo de foram confortável e sem preocupações, tudo por causa da ousadia do
meu avô. E as histórias não param aí.
Houve a
famosa epopéia protagonizada por Maria Pequena e sua mãe que trabalhava como
empregada doméstica numa cidade do interior de Minas Gerais, chamada Peçanha.
Nunca encontrei a tal cidade nos mapas, mas acreditava na veracidade das
histórias. Pois é, na tal casa, queriam ficar com a menina, minha mãe, como
“cria da casa”, como era comum em cidades do interior. Teoricamente, isso lhe
garantiria o futuro e, de quebra, um posto de empregada vitalícia.
A solução
encontrada pela mãe de Maria Pequena para evitar o destino traçado foi fugir,
mudando o rumo da história. Saíram na calada da madrugada, tinha avisado à
filha, e minha mãe, para acordar em silêncio, pra ninguém ouvir. E assim foi. A
imagem que ficou para aquela menina de sete anos foi de uma casa desaparecendo
ao longe, vista de cima da montanha, que ia ficando cada vez menor, até sumir.
Herdei a imagem, pelo visto, da casa desaparecendo ao longe, tamanha a
veracidade da narrativa da minha mãe.
Andaram
muitos dias, semanas à pé, de Minas Gerais até o Espírito Santo. Encontraram no
trajeto outros grupos de caminhantes, tropeiros, pegaram algumas pequenas
caronas em lombo de burro, numa grande e verdadeira epopéia. As imagens da
caminhada, contadas por minha mãe, também herdei. O grande esforço ficou na
minha mente e serviu de inspiração. Invocava as antepassadas andarilhas e
guerreiras da minha família nos momentos difíceis que vieram no futuro.
Mas o que
mais impressionava em Maria Pequena era o seu jeito de ser mãe. Teve nove
filhos que nasceram um após o outro, sem trégua.
Os caminhos
daquela mulher exigiram muita firmeza. Difícil controlar as finanças, difícil
administrar casa e filhos, difícil controlar a vida agitada do marido, sempre
envolvido em alguma coisa nova, fosse mulher, trabalho, Sindicato, fosse a
própria a família. Tornou-se uma mulher muito séria, dura na criação dos filhos
que sabiam que a mãe tinha um porte seguro. Aceitavam os seus “nãos”. E quando
ela falava não, era não. Às vezes, nem falava. Bastava um olhar com os olhos
apertados, como que a prometer sérios castigos em caso de desobediência.
Batendo com cinta quando achava necessário, mas protegendo quando avaliava que
as conseqüências poderiam ser piores, caso o pai agisse.
Houve um
episódio inesquecível em que uma das crianças, numa briga entre elas, espatifou
em mil pedaços o vidro de uma cristaleira antiga, muito bonita, que guardava
copos e louças pouco usadas, que haviam ganhado no casamento que já ia longe.
Tanto o móvel quanto o que continha eram considerados preciosos para os pais. A
mãe assustada, depois de repreender os faltosos, tratou de recolher todos os
cacos, tirar o vidro restante e jogar no lixo. Como o vidro da cristaleira era
impecavelmente limpo, na verdade não se percebia que ele não estava lá. A mãe
resolveu esperar a oportunidade certa para relatar o fato ao marido. Afinal, o
Sr. Eponino andava muito nervoso naquela época, pouco trabalho na estiva,
reuniões sindicais.
O tempo foi
passando e uma noite, pouco mais de uma semana depois do acontecido, o Sr
Eponino encontrou tempo para ouvir sua novela de rádio. Não havia televisão
naquela época e as novelas de rádio eram animadamente acompanhadas nas casas.
Nada diferente naquela casa. O problema é que o rádio ficava em cima da
cristaleira, na altura da cabeça do pai ouvinte. Dona Maria Pequena não encontrou
jeito de remover do local nem o pai, nem o rádio. Tensão na sala. O pai de pé
ao lado da cristaleira, quase acabando o capítulo da novela, num momento de
empolgação, se escorou no que seria o vidro do móvel e pronto, o “leite foi
derramado”! Desequilibrou-se, caiu em cima de copos e pratos, quebrando vários
que se estilhaçaram no chão. A emenda ficou pior que o soneto. Correia para
todo lado. Não sobrou um dos filhos sequer na sala. Só se ouviram os gritos do
pai:
- Maria, o
que é isto aqui?
- O que
aconteceu, quem quebrou este vidro?
Os filhos
fecharam as portas dos quartos, não saíram mais, todos dormiram mais cedo
naquela noite. Não souberam o que aconteceu depois. Certamente, os pais
conversaram muito. Mas desta, nós nos livramos, graças à nossa mãe.
O fato é que
ela, Dona Maria Pequena, sobreviveu a esses percalços. E de pequena não tinha
nada. Era sim, uma grande mulher. Anônima, como tantas outras, mas não para os
que vieram depois dela, em linha descendente. Não para os filhos, ainda que não
reconhecessem sua grandeza quando pequenos, pois quase nunca é suficiente o
reconhecimento dos filhos para com os pais. Ainda que não o tenham reconhecido
de forma suficiente quando adultos, a própria existências dos filhos lhe
fizeram jus. A firmeza de caráter para dizer não quando necessário e a
flexibilidade e delicadeza quando também necessário, essa herança ela nos
deixou.
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