Sem palavras
Crônica de
Eliana Pace
Acordo cedo,
a mente não me permite continuar dormindo depois das 8 horas da manhã, mesmo
que chova a canivete. Bocejo, me espreguiço, faço uma breve sessão de
alongamento e pulo da cama. Ligo o rádio enquanto preparo o café e a noticia me
prostra: um avião repleto de passageiros caiu no Oceano Atlântico. Não há
possibilidade de sobreviventes. Viro uma estátua. Não sei se aumento ou reduzo
o volume do rádio, se contenho as lágrimas que insistem em brotar dos meus
olhos, se embarco nos sonhos que levavam aqueles homens, mulheres e crianças à
Europa, se abençôo o fato de estar quietinha em casa, se amaldiçôo os deuses
por encurtarem tantas vidas. A melancolia me invade, vai continuar a meu lado
horas a fio, um olho no computador, o ouvido na televisão.
Leio que um
casal estava seguindo em lua de mel para a França. Saíram da festa de casamento
praticamente para o embarque. Seus sonhos foram parar no fundo do mar. Sinto-me
uma idiota por não ter acreditado nunca no amor, por ter deixado passar tantas
emoções, por não embarcar de armas e bagagens em nenhuma delas como devem ter
feito o rapaz, a moça. Choro por eles que se amavam.
Um grupo de
executivos de sucesso voltava para Paris depois de ganhar quatro dias de férias
no Rio de Janeiro, com direito a acompanhante. Tinha se extasiado com a cidade,
naturalmente. Levavam em suas câmeras ou celulares imagens do Cristo Redentor,
do Pão de Açúcar, de um show de mulatas. Lembro que também eu fui uma
profissional de sucesso que, a exemplo deles, curtiu o merecimento de sua
competência com uma viagem de sonho. Choro por eles que foram levados por um
raio ingrato, uma pane, uma bomba, quem sabe, antes de poderem mostrar aos
colegas os rostos felizes.
Uma família
gaúcha, feita de profissionais muito bem sucedidos, cada um em sua área, ia
festejar os bons tempos em um tour pela França, Grécia, Alemanha. Sabe-se lá
quantas peripécias para esvaziar uma agenda feita de consultas, cirurgias.
Recordo as vezes em que fiz da minha vida em família um circo. Em que lotei
tanto minha agenda com compromissos supérfluos só para fugir de carinhos e
cobranças afetivas. Choro pela família que continuará unida no fundo do mar.
E choro
compulsivamente pelo fedelho que resolve brincar de ser piloto de Formula 1
numa rua qualquer da periferia de São Paulo. E que na mesma madrugada em que um
avião cai no mar levando tantas vidas, arremessa seu carro, qual uma bola de
boliche, sobre um grupo de jovens que ri depois de uma noitada, deixando
mortos, na calçada, dois rapazes.
0 comentários:
Postar um comentário